Carlos Tavares, CEO da Stellantis, acabou de marcar a passagem para a produção em série de veículos elétricos na fábrica de Mangualde. Ainda assim, a conquista não o impede de enxergar um momento delicado para a Europa.
Na visão do executivo, a transição para os carros elétricos já viveu fases mais favoráveis, a investida das montadoras chinesas no mercado europeu virou uma ameaça concreta, e falta liderança política na União Europeia (UE) para atravessar um período de tantas incertezas.
Stellantis em Mangualde e o alerta de Carlos Tavares
Foi nesse cenário que, durante uma sessão de perguntas e respostas à margem do evento em Mangualde, Tavares afirmou estar “muitíssimo preocupado com o mundo ocidental e com a Europa, que está num vácuo de liderança política que é um grande perigo, com risco de uma terceira guerra mundial.”
Motores a combustão até 2040?
Até pouco tempo, parecia praticamente garantido que os motores a combustão seriam “abolidos” já em 2035. Com os desdobramentos recentes, porém, esse horizonte pode não se confirmar.
Até mesmo as metas definidas pela UE para 2030 - cortar as emissões de CO2 em 55% - passam a ser questionadas, já que, segundo o próprio contexto descrito, surgem diariamente fatores capazes de colocá-las em xeque.
Na avaliação de Tavares, empurrar em cinco anos a proibição dos carros a combustão - de 2035 para 2040 - não ataca o que ele considera ser o problema central.
Ele sustenta que, em vez de uma proibição direta, o caminho pode virar uma limitação de mercado: “em vez de proibirem os veículos a combustão, vão dizer que só podemos vender 20% de carros a combustão. Ou seja, 80% são elétricos”.
Concorrência chinesa e preço dos veículos elétricos
Para Carlos Tavares, esse tipo de ajuste passa uma sensação enganosa de normalidade, “dando a impressão de que está tudo a respirar mais”. O ponto, diz ele, é que a raiz da pressão não desaparece: fabricantes chineses seguem tentando colocar seus modelos no mercado por valores bem mais baixos.
“Está aqui uma fachada política que pode atenuar a pressão, sem realmente modificar a natureza do que está a acontecer.”
Carlos Tavares, CEO da Stellantis
Europa instável
Ainda assim, não é só a possibilidade de “empurrar” prazos que incomoda o executivo. Ele também aponta a “falta de uma liderança política de qualidade”.
Na leitura de Tavares, a instabilidade que a Europa vem atravessando “não modifica o problema do aquecimento global”, mas posterga as respostas - inclusive no que se refere a decisões de investimento: “na maneira como vamos investir, se vamos investir, e em que data vamos investir (no desenvolvimento de baterias)”.
Tarifas sobre elétricos chineses e a divisão dentro da UE
Tavares critica a UE por, segundo ele, insistir em decisões guiadas mais pela “via do emocional” do que pela “via do racional”, como já teria ocorrido no passado com o escândalo Dieselgate.
O tema, desta vez, é o aumento das tarifas de importação sobre automóveis elétricos fabricados na China.
“Está mais do que óbvio que foi um erro, e que aplicar as proteções aduaneiras é uma tentativa de corrigir o erro que não é perfeita, que não é estratégica e que vai ter outras consequências que vão ser as retaliações.”
Carlos Tavares, CEO da Stellantis
Mesmo com a China sinalizando disposição para negociar essas tarifas, o país já ameaçou responder na mesma moeda, com medidas retaliatórias que vão desde elevar tarifas de importação sobre carros europeus com motores a gasolina até penalizações nas exportações da UE no setor de alimentos.
Para Tavares, “as taxas aduaneiras estão a criar mais uma linha de fratura dentro da Europa”, já que há diversos países contrários às medidas e dispostos a enfrentá-las, com destaque para a Alemanha.
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