Este Toyota Mirai é um dos primeiros carros a hidrogênio com placa portuguesa. Somando este exemplar a outro que está a serviço do município de Cascais, ainda dá para contar, nos dedos, quantos veículos a hidrogênio circulam hoje no nosso país.
Mesmo assim, esse total pode crescer de um momento para o outro. Qualquer pessoa consegue entrar no configurador da Toyota Portugal e montar o seu Toyota Mirai - cor, nível de acabamento e opcionais. O preço começa pouco acima dos 74 mil euros. Considerando tudo o que ele entrega, é um valor justo. Só que existe um porém…
Imagino que vocês já tenham adivinhado qual é. Ainda assim, explico tudo neste vídeo da Razão Automóvel no YouTube:
Toyota Mirai e a infraestrutura de hidrogênio em Portugal
Pelo que ficou claro nas linhas acima, não se trata de um detalhe: é um problema grande - e a solução continua demorando. Por isso, este Toyota Mirai com placa portuguesa é mais do que um produto comercial da Toyota Portugal; funciona como um manifesto tecnológico.
Não é uma estratégia Kamikaze, para continuar usando expressões de origem japonesa. No velho dilema do ovo e da galinha, a Toyota decidiu agir primeiro: mostrar que o carro e a tecnologia já existem; agora falta que as entidades públicas saiam do conforto das intenções e executem, de fato, a Estratégia Nacional para o Hidrogênio (EN-H2). Em especial, a promessa (já adiada) de abrir postos de abastecimento de hidrogênio. Deveriam existir entre 50 e 100 postos até 2030…
O gargalo dos postos de abastecimento no dia a dia
Só que, hoje, em Portugal, ainda não existe uma rede de abastecimento capaz de tornar esse tipo de veículo viável no uso cotidiano. E o mesmo acontece no restante da Europa: a falta de postos de hidrogênio continua travando qualquer ambição de massificação.
Há exemplos pontuais que parecem contrariar esse cenário - como Paris e Berlim, onde já circulam centenas de Toyota Mirai. Mas são exatamente isso: exceções que confirmam a regra.
Mudar o cenário
Existem iniciativas para virar esse jogo. A União Europeia aprovou o regulamento AFIR (Alternative Fuels Infrastructure Regulation), que estabelece metas objetivas: ao longo da rede TEN-T, que liga os principais corredores rodoviários europeus, deve haver um posto público de abastecimento de hidrogênio a cada 200 km. Na teoria, isso permitiria atravessar o continente em um carro como o Mirai sem medo de ficar sem energia. Na prática, porém, ainda estamos longe desse cenário.
Outro entrave é o custo. O hidrogênio verde segue caro para produzir e armazenar - muito acima do diesel, da gasolina ou até da eletricidade usada nos carros elétricos. Por isso, hoje o caminho do hidrogênio parece mais promissor em veículos pesados de longa distância, ônibus e aplicações industriais, onde autonomia e rapidez de abastecimento são decisivas.
Assim, o Toyota Mirai é mais do que um automóvel: ele prova que a tecnologia funciona. Mas, sem políticas públicas que saiam do papel e sem o cumprimento de metas como as do AFIR, carros a hidrogênio como este Toyota Mirai vão continuar sendo raridades - às vezes com placa portuguesa.
No fim, a realidade é o que é: o futuro prometido pelo hidrogênio segue sendo empurrado para a frente. Há cinco anos eu dizia que este poderia ser o carro da década. Mas certamente não será nesta década…
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