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PFAS e “químicos eternos” se acumulam na vida selvagem dos Grandes Lagos há 42 anos

Mulher cientista em jaleco coleta amostra de peixe para análise à beira de um lago rochoso.

Produtos químicos tóxicos que praticamente não se degradam estão se acumulando na vida selvagem dos Grandes Lagos - desde as algas, na base da cadeia alimentar, até as águias-carecas, no topo.

Um novo estudo, que reuniu e analisou 42 anos de registos biológicos, mapeou como esses chamados “químicos eternos” se espalharam pela região e mostrou que cada lago apresenta uma dinâmica própria.

No conjunto, a contaminação é ampla, duradoura e, em alguns casos, ainda tem origens pouco esclarecidas.

A investigação foi realizada por uma equipa da Universidade de Notre Dame, liderada por Gary Lamberti e Daniele De Almeida Miranda.

Para chegar às conclusões, o grupo agregou dados de 50 estudos anteriores, somando 2.500 medições biológicas.

O trabalho começou como uma tese de conclusão com distinção de Peter Martin - à época, estudante de graduação - que hoje é pesquisador de doutorado na Universidade Estadual de Michigan.

O que fazem os “químicos eternos”

PFAS - substâncias per- e polifluoroalquílicas - estão entre os compostos mais difíceis de decompor no planeta.

As ligações carbono-flúor que as compõem figuram entre as mais fortes da química, suportando calor, água e a degradação natural.

Como esses químicos não se quebram com facilidade, acabam por se acumular no solo e na água. Quando os organismos os absorvem, as substâncias sobem a cadeia alimentar em concentrações cada vez maiores a cada nível - fenómeno conhecido como biomagnificação.

“Nós focamos na biota, não na água ou no sedimento, para determinar quais químicos entram nos organismos desde algas e micróbios até chegar aos predadores do topo, como salmões e águias-carecas”, disse Lamberti.

Os investigadores avaliaram seis dos compostos de PFAS mais frequentemente detetados em toda a área dos Grandes Lagos.

Embora existam milhares de tipos, esses seis apareceram com consistência suficiente nos dados para permitir um acompanhamento significativo.

Cada lago é diferente

Um dos resultados mais marcantes foi perceber o quanto os lagos se distinguem entre si - não apenas nos níveis de contaminação, mas também na forma como esses níveis variaram ao longo do tempo.

“Havia muita variação dentro de certos períodos de tempo e, depois, ao longo de toda a escala de 42 anos”, afirmou Martin.

“E o que foi realmente chocante é que não existia uma tendência temporal específica única para todos os cinco Grandes Lagos. Cada lago tinha o seu próprio padrão temporal.”

Entre eles, o Lago Superior apresentou as menores concentrações de contaminação, enquanto o Lago Ontário registou as mais elevadas.

Esse contraste acompanha tanto a densidade populacional e a concentração de indústrias no entorno quanto as características físicas de cada lago.

Por quanto tempo os contaminantes permanecem

Os lagos Superior e Michigan são maiores e mais profundos, o que influencia a velocidade com que a água - e os contaminantes - circula e é renovada no sistema.

Esse detalhe traz implicações desconfortáveis.

Em média, o tempo que uma única gota de água permanece num lago vai de menos de três anos no Lago Erie a 200 anos no Lago Superior.

“Infelizmente, os Grandes Lagos retêm a sua água e os contaminantes por muito tempo, o que significa que há tempo de sobra para as toxinas serem absorvidas pela biota”, disse Lamberti.

Algumas boas notícias

Um dos compostos analisados, porém, trouxe um sinal relativamente positivo.

O PFOS - ácido perfluorooctanossulfónico - teve a sua produção descontinuada entre 2000 e 2002, e os seus níveis nos Grandes Lagos diminuíram durante o período estudado.

Segundo Lamberti, essa queda indica que retirar um composto de circulação pode, com o tempo, gerar impacto - ainda que o efeito leve décadas para ficar claro.

Como os PFAS se movem pela teia alimentar

A própria cadeia alimentar torna o cenário mais complexo. Os cientistas observaram que a biomagnificação não acontece de forma simples e linear, como se cada organismo apenas transferisse para o seguinte.

O modo como os PFAS se acumulam varia conforme quais organismos estão envolvidos e como se relacionam com o ambiente.

“Há diferentes caminhos para chegar ao topo da teia alimentar, que são influenciados por quais grupos de organismos nós temos”, disse Miranda.

Os seres que vivem na água incorporam PFAS tanto ao consumir outros organismos quanto pelo contacto direto com a água contaminada.

“Mas se você tiver uma ave a comer um peixe, a ave vai ter uma carga diferente de PFAS porque ela não faz troca com a água.”

Próximos rumos de pesquisa

Agora, Miranda trabalha para reduzir uma lacuna importante nas informações disponíveis.

Grande parte do que se sabe sobre PFAS nos Grandes Lagos vem de estudos com predadores do topo.

Em contrapartida, há muito menos dados sobre como os químicos entram na cadeia alimentar na base - em algas, biofilme e insetos aquáticos.

“Nós estamos a recolher vários componentes da teia alimentar, como biofilme, detritos, algas e insetos aquáticos, para ver como os PFAS entram e circulam na base da teia alimentar e sobem até os predadores do topo”, disse Miranda.

“Mesmo que você retire um composto da produção, como o PFOS, ele ainda está lá e vai permanecer por décadas”, acrescentou Lamberti.

E, enquanto um composto diminui, novos continuam a ser desenvolvidos - a maioria sem testes de toxicidade antes de chegar ao ambiente.

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