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Satélites e biodiversidade nas florestas tropicais: o que vemos e o que falta ver

Jovem cientista em jaleco branco usando tablet na floresta cercado por dispositivos tecnológicos e pássaros.

Há algo quase encantador em observar uma floresta a partir da órbita. Hoje, satélites a centenas de quilómetros acima da Terra conseguem acompanhar o dossel, estimar a biomassa e até mostrar como o ecossistema “respira” e se recupera depois de uma tempestade.

Os cientistas vêm refinando essas leituras com rapidez. Ainda assim, uma nova revisão abrangente deixa claro um detalhe crucial: por mais que os satélites enxerguem, eles continuam em grande parte incapazes de responder a algumas das perguntas mais básicas sobre o que, de facto, vive lá embaixo.

A revisão foi liderada por Jesús Aguirre-Gutiérrez, professor associado na Universidade de Oxford. O grupo de coautores reúne investigadores do Reino Unido, do México, dos EUA, da África do Sul e do Japão.

Os países têm um problema de dados

Por trás do debate científico existe um obstáculo bem prático.

Os países que aderiram à Estrutura Global de Biodiversidade Kunming–Montreal - o acordo por trás da meta amplamente divulgada de proteger 30 por cento de terras e mares até 2030 - precisam de um jeito consistente de acompanhar se a biodiversidade está realmente melhorando.

Isso já é complicado mesmo em áreas acessíveis. Torna-se um pesadelo em paisagens remotas, imensas ou praticamente impossíveis de percorrer a pé.

É aí que entram satélites, LiDAR, radar e sensores embarcados em aeronaves.

A revisão reúne o que se sabe hoje sobre como essas ferramentas estão sendo usadas para monitorar mudanças em ecossistemas em grande escala - oferecendo algo que levantamentos de campo não conseguem igualar: observação consistente e quase contínua de grandes porções do planeta ao mesmo tempo.

Por que as florestas tropicais ocupam o centro da cena

As florestas tropicais funcionam como o principal exemplo ao longo da revisão, e o motivo é evidente. Elas concentram algo em torno de metade da biodiversidade terrestre do mundo, apesar de ocuparem apenas uma pequena fração da superfície continental da Terra.

Ao mesmo tempo, esses ambientes vêm sofrendo pressão crescente das mudanças climáticas, do desmatamento e de perturbações em geral.

O que os satélites têm conseguido fazer muito bem é acompanhar a estrutura florestal, a biomassa, características do dossel e, principalmente, o funcionamento desses ecossistemas.

Com esses dados, os investigadores conseguem enfrentar uma pergunta que, de outra forma, é muito difícil de medir: quão bem uma floresta se recompõe após danos, quanto ela aguenta novas perturbações e como se ajusta quando as condições ao redor mudam.

É basicamente isso que ecólogos chamam de resiliência - e o espaço tem se mostrado um ponto de observação surpreendentemente útil para acompanhar esse processo.

O que dá para inferir entre os píxeis

Os satélites também podem servir como um tipo de substituto para a própria biodiversidade, fornecendo pistas indiretas sobre diversidade funcional e diversidade taxonómica.

Em menor grau, os dados orbitais também sugerem sinais de diversidade genética e evolutiva.

Esses indicadores por aproximação vêm se tornando relevantes para iniciativas como as Variáveis Essenciais da Biodiversidade, que buscam padronizar a forma de medir biodiversidade independentemente das ferramentas e das fontes de dados utilizadas.

Mas indicador indireto continua sendo indicador indireto. A revisão é direta ao afirmar que o sensoriamento remoto, por mais avançado que esteja, não constrói sozinho um retrato completo da biodiversidade.

O que os satélites ainda não conseguem ver

Algumas das questões mais fundamentais sobre biodiversidade seguem, na prática, invisíveis a partir da órbita.

Substituição de espécies, história evolutiva ou diversidade genética não aparecem com clareza em dados de satélite com a tecnologia atual. Esses temas ainda exigem trabalho em campo: investigadores no terreno, contando, coletando amostras e observando.

Por isso, dados de satélite e ecologia de campo não são abordagens rivais; elas se completam. Ao excluir qualquer uma delas, as avaliações de biodiversidade começam a perder consistência.

“Remote sensing is transforming how we can observe biodiversity and ecosystem change at large scales,” Aguirre-Gutiérrez said.

“Satellites now provide unprecedented information on forest structure and function, helping us understand how ecosystems respond to disturbance.”

“However, this is not a complete solution. Many dimensions of biodiversity are still difficult to observe directly from space, which is why combining satellite data with field observations remains essential.”

“Future satellite missions will continue to expand what we can measure, but biodiversity monitoring will always depend on integrating multiple sources of evidence.”

A próxima geração de satélites

A revisão aponta para uma nova onda de missões e para sensores mais precisos que estão a caminho: melhor imageamento hiperespectral, LiDAR mais avançado e sistemas de radar aprimorados.

Essas melhorias devem ampliar de forma significativa o que pode ser medido a partir da órbita nos próximos anos, reduzindo parte das lacunas atuais no monitoramento estrutural e funcional.

Ainda assim, as perguntas mais profundas sobre genética e evolução provavelmente continuarão fora do alcance dos satélites por mais algum tempo.

Por que um estudo assim importa

As florestas cobrem cerca de 31 por cento das terras do planeta e têm um papel enorme na regulação do clima. Por isso, a saúde desses ambientes é central para que o mundo consiga, de facto, cumprir metas de conservação.

Mesmo assim, o monitoramento global da biodiversidade hoje ainda é irregular e incompleto - especialmente em regiões tropicais, justamente onde os dados de satélite poderiam, em teoria, ajudar mais.

Os autores não tratam os satélites como uma solução milagrosa, independentemente da velocidade com que a tecnologia avance.

Fazer a Estrutura Global de Biodiversidade funcionar na prática exigirá combinar sensoriamento remoto, ecologia de campo e estruturas mais recentes como as Variáveis Essenciais da Biodiversidade, em vez de apostar tudo em uma única abordagem.

Como concluiu Aguirre-Gutiérrez, monitorar a biodiversidade sempre vai depender de integrar múltiplas fontes de evidência, por mais nítida que a visão do espaço um dia se torne.

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