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As atitudes ao risco dos agricultores mudam quando as apostas são decisões reais na fazenda

Homem em plantação de milho segurando pote de grãos e tablet com mapa de calor digital.

Economistas têm um método bem estabelecido para medir o quanto um agricultor é, de facto, cauteloso: colocá-lo diante de jogos de azar com dinheiro, em cenários abstractos.

A lógica é simples: pedir que a pessoa escolha entre um pagamento pequeno e garantido ou um pagamento maior, mas incerto.

Repetindo esse tipo de escolha várias vezes, surge um padrão - uma pontuação de risco que, há décadas, é usada na área para antecipar decisões no campo.

Só que essas medidas “de laboratório” captam apenas uma parte do que acontece. Uma pesquisa recente constatou que os mesmos agricultores passaram a comportar-se de maneiras muito mais diferentes entre si quando, em vez de apostas abstractas, as escolhas envolviam decisões agrícolas reais.

Entre as decisões avaliadas estavam comprar sementes tolerantes à seca, instalar sistemas de drenagem ou adquirir seguro contra uma colheita fraca.

Uma pergunta simples

A pergunta que orientou o estudo parece quase óbvia: o apetite ao risco de uma pessoa é fixo ou muda conforme aquilo que está realmente em jogo?

Esse enigma chamou a atenção de Natalie Loduca, professora clínica assistente de economia agrícola e do consumidor na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign (UIUC).

Ela trabalhou em parceria com Scott Swinton, economista agrícola emérito da Michigan State University (MSU).

O tema tem impacto directo no dia a dia. Com secas e chuvas intensas a tornarem-se mais frequentes, a adaptação ao clima passa por escolhas que os agricultores fazem talhão a talhão - decisões que dependem de como cada um pondera o risco de um ano difícil.

Dois tipos de apostas

A equipa aplicou um experimento de escolha - uma ferramenta da economia que infere preferências a partir do que as pessoas seleccionam.

De forma repetida, os agricultores tinham de optar entre uma alternativa mais segura e outra mais arriscada, com retorno potencialmente mais alto.

Na primeira etapa, as escolhas eram apostas simples com dinheiro: aceitar um valor menor porém garantido, ou buscar um valor maior com mais risco.

Na segunda, vieram cenários agrícolas, em que cada opção era apresentada como uma forma de proteger a receita de um talhão de milho de 40 acres (cerca de 16,2 hectares).

Nessa parte, as alternativas imitavam decisões concretas: não fazer nada, ou investir em drenagem, irrigação, sementes tolerantes à seca, ou seguro agrícola - cada medida alterando as probabilidades e o retorno esperado da colheita daquele ano.

Loduca e Swinton recrutaram participantes por meio da Extensão da Michigan State University, encontrando-os em restaurantes e em escritórios do condado.

Todos os participantes operavam propriedades de milho e soja com pelo menos 300 acres (aproximadamente 121 hectares).

Cautela em todos os cenários

Um dos resultados confirmou o que economistas já imaginavam.

Tanto nas apostas com dinheiro como nos cenários agrícolas, os agricultores tenderam a optar pela cautela, um padrão que os pesquisadores descrevem como aversão ao risco.

Na maioria das vezes, preferiram o retorno mais certo em vez do pagamento maior, mas mais instável - quer o “prémio” estivesse em reais/dólares, quer estivesse em sacas de milho.

Isso não surpreendeu. Há décadas, estudos apontam que agricultores, em geral, são um grupo cauteloso, o que é coerente para quem depende de um factor tão imprevisível quanto o clima para manter a renda.

Uma dispersão maior

A surpresa apareceu quando a equipa colocou lado a lado os resultados das duas etapas. A preferência pela segurança continuou a prevalecer, mas as escolhas nos cenários agrícolas ficaram muito mais espalhadas do que nas apostas monetárias.

Até este estudo, era comum a economia medir atitudes ao risco no campo com base em jogos com dinheiro, partindo do pressuposto de que os resultados se transferiam para decisões agrícolas.

Ao testar os mesmos agricultores nos dois contextos, o trabalho mostrou que essa suposição não se sustenta.

Nas escolhas com dinheiro, os participantes ficaram muito agrupados, comportando-se de forma semelhante.

Quando as mesmas probabilidades foram enquadradas como uma safra de milho e investimentos de protecção, as preferências abriram um leque maior - alguns agricultores mostraram-se muito mais dispostos a arriscar do que outros.

Em outras palavras, o contexto muda a forma como o risco é interpretado. O achado é coerente com um artigo mais amplo que já relatava que as atitudes ao risco podem variar conforme a maneira como são medidas.

Por que a diferença

O estudo não consegue demonstrar, apenas pelas escolhas, por que o enquadramento agrícola afasta tanto as atitudes entre os participantes. Ele regista a dispersão, mas não identifica com precisão o que a provoca.

Uma aposta em dinheiro, apresentada a alguém, tende a ser limpa e abstracta.

Já uma decisão agrícola provavelmente carrega muito mais camadas - lembranças de safras ruins, dívidas, características específicas do solo - do que qualquer jogo monetário consegue traduzir.

Seja qual for a razão, a implicação permanece: por trás da cautela média existe uma variedade real, e ela aparece justamente onde as apostas com dinheiro fazem os agricultores parecerem quase iguais.

O que a política pública pode fazer

É nessa diversidade que o resultado ganha utilidade prática. Um programa único desenhado para o agricultor “médio” pode funcionar bem para alguns e falhar totalmente com outros.

A saída sugerida é a personalização, e não um modelo único para todos.

Como as preferências de risco variam muito, “diferentes tipos de programas ou políticas poderiam ser direcionados para cada grupo”, disse Loduca.

Na avaliação dela, há espaço para uma divisão clara: produtores mais cautelosos tendem a investir em ferramentas que reduzam perdas de produtividade ligadas ao clima, enquanto agricultores mais arrojados podem simplesmente adiar essas medidas.

O impacto desse desenho vai além de uma única safra.

Programas de apoio podem influenciar quais agricultores continuam no negócio e o quão cauteloso o sector, como um todo, se torna - como indicou um estudo.

A próxima pergunta

Saber que os agricultores diferem entre si é apenas o primeiro passo. Antecipar o que eles de facto compram e plantam é o próximo desafio que Loduca e Swinton estão a perseguir.

O trabalho seguinte liga o perfil de risco de cada agricultor a decisões reais de investimento, e não apenas a cenários de questionário.

Um experimento já identificou que o nível de cautela pode moldar decisões agrícolas de forma tão profunda que chega a influenciar quem aceita realizar o trabalho.

O recado central deste estudo é que a cautela do agricultor não é um traço único e imutável. Ela ocupa um espectro amplo, que fica muito mais visível quando entram em cena decisões agrícolas concretas.

Isso dá aos formuladores de políticas um motivo para deixar de tratar todos os produtores como se fossem um único grupo.

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