A Europa está prestes a partir para o ataque no mercado de satélites e se prepara para restringir o acesso de Starlink e da Amazon a frequências consideradas estratégicas. É um movimento que pode irritar Washington.
A Comissão Europeia deve anunciar em breve uma decisão capaz de redesenhar o setor no Velho Continente. O ponto central é a reorganização do espectro de radiofrequência na banda de 2 GHz, a única faixa harmonizada em nível europeu para comunicações móveis via satélite.
Na prática, essa banda permite que celulares, dispositivos conectados e veículos continuem com sinal mesmo nas regiões mais remotas, onde as redes terrestres não chegam. Atualmente, duas companhias dos Estados Unidos - Viasat e EchoStar - possuem as licenças para operar essas frequências. Porém, essas autorizações vencem em maio de 2027, o que abre caminho para uma nova distribuição.
E, segundo duas fontes próximas ao tema citadas pela Reuters, o desenho que ganha força representa uma mudança real de rumo: dois terços do espectro ficariam reservados a operadores europeus. O terço restante seria disputado em regime de concorrência, incluindo Starlink, da SpaceX, e a Amazon Leo. Empresas do Reino Unido e da Noruega também poderiam apresentar candidatura. É uma decisão longe de ser trivial.
A Europa quer voar com as próprias asas
O objetivo político é direto: reduzir a dependência europeia de infraestruturas americanas. A guerra na Ucrânia evidenciou de forma abrupta o peso estratégico das comunicações via satélite e, sobretudo, o risco de depender de um operador estrangeiro para serviços tão críticos.
Diante disso, a União Europeia (UE) acelerou o desenvolvimento do IRIS², sua própria constelação de 290 satélites, pensada para entregar uma alternativa soberana ao Starlink. Esse projeto deve estar entre os primeiros beneficiados pelo espectro reservado aos europeus. Além disso, na semana que vem, a Comissão também deve apresentar o seu Tech Sovereignty Package, um conjunto de medidas voltadas a libertar a Europa da dependência de tecnologias estrangeiras - com foco especial nas americanas.
Washington acompanha de perto
A ofensiva europeia está sendo observada com atenção do outro lado do Atlântico. No Mobile World Congress, em Barcelona, em março passado, Brendan Carr, presidente da Federal Communications Commission (FCC), o regulador americano de telecomunicações, alertou que os Estados Unidos se reservam o direito de aplicar à UE um tratamento recíproco.
Ainda assim, Bruxelas parece ter levado esse risco em conta. Na semana passada, UE e Estados Unidos fecharam um acordo comercial, o que tende a reduzir a chance de escalada. A opção de não excluir totalmente Starlink e Leo também segue nessa direção.
Nossa análise
Desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, algo mudou de maneira definitiva na forma como a Europa enxerga suas dependências digitais. As tensões em torno da Groenlândia no início de 2025 funcionaram como um choque de realidade: e se os Estados Unidos interrompessem o acesso às ferramentas sobre as quais se apoia uma parte relevante das nossas infraestruturas críticas?
A decisão sobre o espectro para satélites se encaixa nessa conscientização coletiva. O mesmo vale para o anúncio recente de que a administração francesa vai abandonar gradualmente o Windows em favor do Linux. A Europa não quer mais ficar presa a ferramentas cujas regras, preços e riscos não controla. Trata-se de uma virada de paradigma que, após anos de inércia, parece finalmente ganhar velocidade.
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