Pular para o conteúdo

Gigante Tyrannosaurini do Campaniano desafia a cronologia do Tyrannosaurus rex

Homem vestido de explorador escava e examina osso gigante em área desértica com formações rochosas.

Descoberto na década de 1970, este fóssil só agora passou por uma nova análise conduzida por paleontólogos. O tamanho fora do comum do material aponta para a existência de um carnívoro colossal que já se impunha nos ecossistemas norte-americanos do Cretáceo.

Hoje, o Tyrannosaurus rex é uma celebridade e segue como um dos dinossauros mais emblemáticos. Ainda assim, ele faz parte de uma grupo mais amplo - os Tyrannosaurini - que costuma ficar em segundo plano no imaginário popular. É importante separar o gênero ao qual ele pertence (Tyrannosaurus), que reúne espécies muito próximas, da linhagem, que inclui o “verdadeiro” T. rex, seus ancestrais diretos e outros parentes imediatos. Até aqui, a leitura dominante entre paleontólogos era a de que o Tyrannosaurus rex havia sido o predador supremo do Maastrichtiano, a fase final do Cretáceo (entre 66 e 68 milhões de anos), sendo o último representante da linhagem dos *Tyrannosaurini*.

Um osso de 96 cm que muda a linha do tempo

Essa cronologia acaba de ser colocada em dúvida após a reavaliação de uma tíbia fossilizada de 96 cm pertencente a um tiranossauro gigante ainda não identificado. O estudo, publicado em 12 de março de 2026 na revista Scientific Reports, analisou um material com cerca de 50 anos, guardado na Kirtland Foundation no Novo México. O fóssil, porém, é de uma época mais antiga: o Campaniano superior, há aproximadamente 74 milhões de anos.

O animal não era um Tyrannosaurus rex, e sim um membro mais antigo dos Tyrannosaurini. O principal impacto dessa constatação é sugerir que, oito milhões de anos antes do auge do T. rex, tiranossauros gigantes já ocupavam o topo da cadeia alimentar na América do Norte.

O gigante esquecido do Campaniano

A nova análise dessa tíbia, encontrada no sítio de Hunter Wash, foi realizada por uma equipe liderada por Nicholas Longrich, paleontólogo da Universidade de Bath. Como não há um esqueleto completo associado ao achado, os autores não puderam descrever formalmente uma nova espécie. Mesmo assim, apenas o porte indicado pelo osso já reforça a ideia de que o gigantismo típico dos Tyrannosaurini pode ter surgido bem antes do fim do Cretáceo.

Comparação com “Sue” e estimativas de porte

Para posicionar o fóssil no “árvore genealógica” dos tiranossauros, os pesquisadores compararam o material com o espécime FMNH PR2081, mais conhecido como “Sue”. Descoberto em 1990, esse esqueleto de T. rex é uma referência anatômica para o grupo, tanto pela preservação excepcional quanto pelas dimensões. Trata-se de uma verdadeira superestrela da paleontologia; seu tamanho era tão impressionante (12,3 metros de comprimento e peso estimado em cerca de 8 a 9 toneladas) que frequentemente serve como padrão de comparação quando um osso de grande predador é encontrado - ou, como neste caso, reexaminado.

Na comparação direta com a tíbia de Sue, a tíbia de Hunter Wash chega a 84 % do comprimento e 78 % da circunferência do osso do famoso exemplar. Ou seja, é menor - mas, para o Campaniano superior, não se imaginava que tiranossauros pudessem alcançar proporções assim. Pelos cálculos da equipe, o animal poderia ter 10 a 11 metros de comprimento e um peso próximo de 4,7 toneladas.

Isso o coloca como um “peso pesado”, especialmente porque se acreditava que os tiranossauros haviam permanecido como predadores de “tamanho médio” (em torno de 5 a 6 metros de comprimento) durante quase toda a sua história evolutiva, tornando-se gigantes de 12 metros apenas nos dois últimos milhões de anos antes da extinção.

Indícios anatômicos e a ligação com os Tyrannosaurini

Além da escala do animal, a anatomia do osso foi o segundo pilar usado para sustentar o parentesco com a linhagem. Diferentemente de Bistahieversor sealeyi (ver foto abaixo), outro tiranossauroide encontrado nas mesmas camadas geológicas do Novo México, mas com morfologia mais primitiva, essa tíbia apresenta uma base larga e uma estrutura triangular na região do tornozelo. Trata-se de uma característica morfológica que só aparece no T. rex e em seus parentes mais próximos, os Tyrannosaurini.

Qualquer que seja a hipótese adotada [Nota do editor: se essa tíbia pertencer a uma nova espécie de gigante ou a uma linhagem muito precoce de T. rex], o tamanho incomum do tiranossauro de Hunter Wash é significativo: ele revela a presença, até então insuspeitada, de grandes tiranossaurídeos no fim do Campaniano e demonstra que a evolução rumo ao gigantismo é bem mais antiga do que se pensava”, conclui a equipe.

Com isso, alguns traços anatômicos associados ao célebre T. rex - e, por extensão, aos tiranossauros gigantes - já teriam surgido em seus ancestrais quase dez milhões de anos antes de sua dominância ecológica. É possível que a seleção natural tenha favorecido uma especialização mais precoce da estrutura do esqueleto, preparando o corpo para sustentar, alguns milhões de anos depois, as massas colossais alcançadas por esses predadores no fim do Cretáceo. Ainda assim, vale lembrar que este trabalho se apoia em um único osso, e é extremamente difícil confirmar totalmente essa hipótese enquanto ela não for reforçada por novas descobertas. Se isso acontecer, esse indivíduo pode representar um dos primeiros gigantes, tão procurados, da linhagem dos *Tyrannosaurini*, ampliando o entendimento sobre a história evolutiva desse grande grupo.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário