Um novo estudo concluiu que as frentes oceânicas muitas vezes se comportam menos como “pontos quentes” de pesca e mais como muros invisíveis que separam os peixes conforme a temperatura.
Com isso, um sinal tradicional usado no mar deixa de ser apenas uma dica de onde encontrar cardumes e passa a funcionar como uma fronteira móvel capaz de desviar capturas, alterar riscos para a conservação e influenciar decisões de gestão.
Frentes oceânicas como fronteira em movimento
Em mapas diários da temperatura da superfície do mar, o desenho mais nítido apareceu justamente onde massas de água quente e fria encostavam uma na outra.
Ao comparar essas linhas de encontro com registos de captura, Qinwang Xing, pesquisador visitante do Atmosphere and Ocean Research Institute da University of Tokyo (AORI, UTokyo), mostrou que a atividade de pesca frequentemente muda de forma brusca ao atravessar essas faixas.
Dentro das frentes, as áreas de pesca foram apenas 5% a 20% mais comuns do que fora delas - um aumento bem menor do que sugeria a ideia de “ponto quente”.
Já entre o lado quente e o lado frio, as diferenças de 15% a 70% indicaram por que o efeito de “barreira” merece mais atenção.
Por que a dica antiga parecia funcionar
Durante gerações, pescadores observaram frentes porque mudanças rápidas na água muitas vezes concentravam vida perto das embarcações.
Quando correntes empurravam massas de água distintas para o mesmo lugar, água mais profunda e rica em nutrientes podia subir, alimentando o plâncton - pequenos organismos à deriva que fazem parte da dieta de muitos peixes.
Com mais presas pequenas disponíveis, predadores tinham motivo para procurar alimento nas proximidades da zona de encontro.
A explicação clássica do “efeito hotspot”, isto é, que frentes agregam peixes, era útil - mas deixava de lado o problema da temperatura.
Observando os dois lados da frente
Em geral, mapas anteriores tratavam uma frente como uma única faixa contínua, misturando num mesmo resultado médio o comportamento no lado quente e no lado frio.
A equipa de Xing separou cada zona frontal - a banda em torno da linha de encontro - em duas metades: a mais quente e a mais fria.
Mapas industriais do Global Fishing Watch permitiram ampliar o teste para além de diários locais e vieram de um grupo sem fins lucrativos que monitora embarcações.
Essa comparação lado a lado revelou um padrão que as médias estavam a esconder em diversas pescarias ao redor do mundo.
Quatro peixes, quatro respostas
No noroeste do Pacífico, nas águas a leste da Ásia, quatro pescarias conhecidas deixaram claro por que não existe uma regra única para todas as frentes.
A sardinha japonesa e a cavalinha (chub mackerel) tiveram um ganho de cerca de 50% dentro das frentes, em linha com a leitura antiga de “ponto quente”.
Já o pacific saury aumentou apenas 17%, enquanto a lula-voadora neon caiu cerca de 13% dentro do mesmo tipo de zona.
Quando os lados foram analisados separadamente, o saury mostrou preferência pelo frio em cerca de 40%, e a lula preferiu o lado quente em aproximadamente 70%.
A temperatura orienta as escolhas
Os peixes não atravessavam essas linhas ao acaso, porque a temperatura altera aquilo que os seus corpos conseguem fazer - e o que conseguem tolerar.
Se a água fica quente demais ou fria demais, o organismo do peixe precisa gastar mais energia para transportar oxigénio pelos tecidos, e o desempenho piora.
Cada espécie levou para dentro da frente a sua preferência térmica, isto é, uma faixa local de temperatura em que as capturas eram mais fortes.
Essa preferência mudou conforme a estação para sardinha e cavalinha, mas manteve-se mais estável para a lula e o saury ao longo dos meses de pesca.
Um padrão global
Para além das águas do Japão, o mesmo procedimento foi aplicado a 11 regiões, seis métodos de pesca e 25 grandes estoques pesqueiros - populações manejadas que são alvo da atividade.
Efeitos de barreira apareceram em 53 de 57 casos regionais de pescaria, enquanto efeitos de hotspot surgiram em 43.
Considerando os 25 estoques, a atividade de pesca diferiu cerca de 36% entre o lado quente e o lado frio, mas apenas 12% entre dentro e fora das frentes.
Ignorar a preferência por um dos lados fez com que mudanças associadas às frentes fossem subestimadas em aproximadamente 55% a 75%, o que é um problema relevante para previsões.
A gestão pode precisar de se mover
Gestores da pesca normalmente desenham limites em mapas fixos, mesmo quando peixes e massas de água continuam em movimento.
Se uma frente separa o peixe-alvo de animais protegidos, os gestores poderiam colocar regras especificamente no lado mais arriscado.
Os cientistas chamam isso de gestão oceânica dinâmica, porque o sistema ajusta proteções à medida que as condições do oceano mudam.
Essas regras poderiam reduzir a captura acidental (bycatch) - a captura não intencional de espécies indesejadas - sem fechar todas as áreas de pesca produtivas.
Limitações que não podem ser ignoradas
Dados de pesca refletem decisões humanas além da localização dos peixes, portanto o padrão precisa de leitura cautelosa antes de virar política.
Comandantes podem seguir mapas de temperatura, preços de combustível, cotas e acesso a portos, fatores que podem distorcer o sinal observado.
Embarcações grandes também reportam posições que nem sempre correspondem ao ponto exato em que cada peixe entrou no equipamento.
Ainda assim, levantamentos de pesquisa sustentaram o padrão do lado quente para cavalinha, sardinha e lula antes de agosto em águas locais.
Um mapa do oceano mais preciso
A descoberta muda o valor das frentes: de um marcador simples de “ponto quente” para uma pista de habitat com dois lados.
As previsões podem melhorar quando os modelos perguntam de que lado uma espécie tende a ficar, e não apenas se existe uma frente num determinado dia.
Para pescadores, isso pode significar menos viagens desperdiçadas quando a água “certa” está perto, mas do lado errado.
Equipas de conservação também podem usar essa informação para separar capturas valiosas de animais vulneráveis em águas que mudam rápido, antes que regras cheguem tarde demais.
O que muda a partir de agora
As frentes oceânicas continuam a concentrar alimento e peixes, mas a lição mais forte é que elas distribuem espécies entre água quente e água fria.
Mapas melhores, modelos sazonais e regras específicas para cada lado podem tornar a pesca mais eficiente, ao mesmo tempo em que indicam onde essa visão de “fronteira” ainda falha.
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