A chuva tinha parado havia uma hora, mas a fumaça ainda agarrava o ar como uma lembrança ruim. Na beira de uma aldeia tropical no leste de Sumatra, crianças de uniforme escolar passavam ao lado de uma esteira imensa que despejava resíduos de óleo de palma na boca de uma usina de biomassa “verde”. Do lado de dentro da cerca, o estandarte da empresa exibia um sorriso em três idiomas: sustentabilidade, progresso, oportunidade. Do lado de fora, uma mulher que vendia mandioca frita tossiu no próprio lenço e resumiu, entre ombros: “Dizem que isso é pelo clima. A gente só fica com a fumaça.”
As chaminés seguiam queimando, abastecendo redes eléctricas europeias com créditos de “electricidade limpa” e alimentando, lá longe, carteiras de investimento com dividendos previsíveis a cada trimestre. No papel, os moradores agora eram parceiros da transição verde. Só não explicaram qual papel cabia a eles.
A resposta está escrita em cinzas.
Quando o “ouro verde” vira um assalto em fogo baixo
Em apresentações brilhantes para investidores, a biomassa tropical aparece como o milagre climático perfeito. Você derruba a terra, planta árvores “rápidas”, queima a madeira ou os resíduos e chama isso de neutro em carbono porque, no próximo ciclo, as árvores vão - no papel - absorver as mesmas emissões. O dinheiro escorre do Norte Global, as chaminés florescem no Sul Global e alguém de terno consegue anunciar no palco progresso rumo a emissões líquidas zero. De longe, chega a soar bonito. De perto, parece mais uma demolição controlada de um futuro que nunca chega de verdade para quem vive ao lado das chaminés.
Chame de traição tropical em câmara lenta. Não é um colapso cinematográfico; é uma sequência de acordos discretos que transforma florestas, aldeias e trabalhadores em combustível.
Na região de Ashanti, em Gana, Kwaku, de 23 anos, cultivava cacau com o pai. Depois de três safras de chuvas imprevisíveis e de uma onda de pragas invasoras, a produção foi ao chão. Quando uma empresa de biomassa apoiada por capital europeu ofereceu “empregos inteligentes para o clima” para plantar eucalipto de crescimento rápido destinado a pellets de exportação, a proposta soou como salvação. O contrato era cheio de letra miúda, mas o recrutador traduziu o argumento: salário estável, desenvolvimento para a comunidade, orgulho verde. Kwaku assinou.
Hoje ele ganha o suficiente para cobrir comida e transporte. A antiga lavoura dele virou um mar de monocultura - árvores que bebem mais água do que o cacau alguma vez bebeu. No relatório para investidores, a empresa descreve um “ganha-ganha para o clima e para os meios de vida”. Kwaku, que agora compra o chocolate que antes colhia, chama de outra coisa: “Perdemos nossa terra para salvar o céu de outra pessoa.”
O truque depende de malabarismo contabilístico. Ao classificar a biomassa tropical como “renovável”, países ricos conseguem queimar pellets importados e declarar emissões mais baixas do que as do carvão. O carbono libertado na queima entra como zero na chaminé e é empurrado para o balanço das florestas onde, em tese, as árvores voltariam a crescer. Esse passe de mágica transforma regiões inteiras em amortecedores climáticos fora do balanço. Gente que trabalha em zonas de exportação fica com o risco sanitário, a pressão sobre a terra e a precariedade laboral. Investidores embolsam prêmios verdes. E decisores em capitais distantes festejam quedas de emissões que, na prática, vivem sobretudo em planilhas. A atmosfera real, inconvenientemente, não lê notas de rodapé.
Como o jogo é manipulado - e como não cair na conversa
Um hábito simples muda o jeito de enxergar toda essa história: siga a fumaça, não o slogan. Quando surgir um grande anúncio sobre “biomassa positiva para as florestas” ou “resíduos transformados em energia” num país tropical, faça três perguntas sem rodeios: quem é dono da usina; quem é dono da terra; quem respira o ar. Esse pequeno filtro corta muita camada de verniz publicitário. Você começa a perceber que o mesmo punhado de empresas controladoras aparece uma e outra vez, escondido atrás de cascatas de subsidiárias registadas em jurisdições com impostos amigáveis - lugares que nunca verão uma única árvore.
E, se o projeto jurar que “usa apenas resíduos”, vale olhar o que ocorre nas florestas próximas em imagens de satélite. Depois que contratos são fechados e dividendos são prometidos, resíduos têm um jeito curioso de se expandir até virar paisagem inteira.
O erro mais comum - sobretudo para quem está numa cidade de clima temperado, com água tratada e um aplicativo do tempo - é tratar “biomassa” como uma categoria única e inofensiva. Misturamos queimar serragem de fábricas existentes com limpar floresta nativa para pellets, ou com cobrir roças comunitárias com eucalipto sedento por água. Esse atalho mental é exactamente no que os bilionários da biomassa apostam. Eles apagam as fronteiras até tudo que é lenhoso parecer virtuoso. Se você já compartilhou uma história fofinha sobre “madeira de resíduos movendo a Europa” sem ir atrás da origem, você não está sozinho. Sejamos honestos: quase ninguém faz essa checagem todos os dias.
Só que as pessoas mais perto dessas usinas pagam pelos nossos atalhos com sangramentos no nariz, asma e com comida mais cara quando a terra é tomada para plantar culturas energéticas.
“Às vezes eu acho que escolheram esta aldeia porque acreditaram que éramos pobres demais para dizer não”, disse-me um professor de 52 anos em Sabah. “Eles falam de responsabilidade global. Quando as nossas crianças faltam à escola por causa da fumaça, de quem é a responsabilidade?”
- Pergunte de onde vem a matéria-prima: resíduos de exploração madeireira, plantações ou floresta derrubada.
- Verifique quem certificou o projeto e se as comunidades locais realmente tinham poder de veto.
- Procure arrendamentos longos de terra que transformem lavouras ou áreas comuns em zonas de biomassa.
- Acompanhe subsídios públicos; sem eles, muitas dessas usinas nem chegariam a dar lucro.
- Repare em quem aparece citado nos comunicados à imprensa - e em quem some completamente.
O custo silencioso do “dividendo verde” de outra pessoa
Há um detalhe discreto que quase nunca entra em folhetos de ESG: a população trabalhadora e pobre nos corredores da biomassa está a ser empurrada para um túnel económico estreito. Quando a terra fica presa em arrendamentos de longo prazo, as famílias perdem aquela mistura desorganizada e resiliente de lavouras, uso da floresta, migração sazonal e comércio informal que antes diluía riscos. Os salários dos empregos na biomassa muitas vezes são baixos demais - e instáveis demais - para substituir a flexibilidade perdida. Basta uma recessão ou uma mudança de política na Europa ou no Japão para comunidades inteiras descobrirem que a “oportunidade verde” era, na verdade, uma aposta longa e inflamável decidida numa sala de diretoria.
Todo mundo conhece aquele momento em que uma promessa grandiosa não tem nada a ver com o panfleto. Para essas aldeias, a diferença é que não existe reembolso para um rio contaminado ou para uma floresta morta.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Biomassa não é automaticamente limpa | Muitos projetos dependem de apropriação de terras, padrões laborais fracos e contabilidade criativa de carbono | Ajuda você a questionar promessas “verdes” em vez de engolir como verdade |
| Dividendos costumam subir para o norte, riscos ficam no sul | Trabalhadores perto das usinas enfrentam insegurança de saúde, terra e renda enquanto investidores estrangeiros recolhem retornos | Esclarece quem realmente ganha com projetos “verdes” que aparecem nas notícias |
| Dá para seguir o dinheiro e a fumaça | Documentos públicos, relatos locais e dados de satélite expõem a distância entre marketing e realidade | Oferece ferramentas para identificar ação climática real versus esquemas extrativos |
Perguntas frequentes:
- Toda biomassa é ruim para o clima? Não necessariamente. Usar resíduos de verdade de serrarias ou da agricultura já existentes, sob regras locais rigorosas e sem ampliar a exploração madeireira, pode ter impacto relativamente baixo. O problema começa quando a procura por biomassa incentiva novas plantações, derrubada de florestas ou transporte a longas distâncias vendido como baixo carbono.
- Por que países ricos importam biomassa dos trópicos? Porque, no papel, as emissões na chaminé contam como zero. O carbono é “debitado” ao país produtor, o que permite a importadores declarar avanço em metas climáticas enquanto, fisicamente, queimam um combustível pesado em carbono.
- As comunidades locais recebem uma parte justa dos benefícios? Muitas vezes recebem salários de curto prazo e pequenas doações, enquanto o controle de longo prazo sobre a terra e os recursos passa para empresas. Contratos e desequilíbrios de poder normalmente fazem com que elas assumam os riscos com pouca capacidade de negociação.
- Como eu verifico se um projeto de biomassa é maquiagem verde? Pesquise a empresa, leia relatórios de ONG ou da mídia local e procure imagens de satélite da área ao longo do tempo. Se as florestas estão a encolher ou as roças viram monocultura de árvores, há algo errado.
- O que de fato ajuda o clima e os trabalhadores ao mesmo tempo? Eficiência energética, renováveis de verdade como vento e solar com proteções laborais fortes e projetos sob controle local, em que comunidades tenham participação e poder de veto. Soluções climáticas que mudam relações de poder - e não só o tipo de combustível - têm bem menos chance de virar traição tropical disfarçada.
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