Na França, os atrasos de pagamento sufocam milhares de pequenas empresas e acabam figurando entre os principais motivos de falência. Diante desse problema discreto, a Aria quer equilibrar a relação entre grandes grupos industriais e fornecedores menores, levando o pagamento imediato para dentro dos softwares que essas empresas já usam no dia a dia.
Trimestre após trimestre, os relatórios repetem o mesmo diagnóstico: as quebras de PMEs seguem em alta. Em muitos casos, a origem está nos prazos de pagamento - e, pior ainda, nos atrasos - que corroem o caixa de negócios que já operam no limite.
A crise dos atrasos de pagamento para TPE, artesãos e freelancers
Quem mais sente o impacto são, previsivelmente, os menores. Microempresas (TPE), artesãos, freelancers… acabam sem poder de negociação diante de clientes muito mais fortes, capazes de impor as próprias regras. “Hoje, o principal financiador das empresas são as próprias empresas”, lembra Clément Carrier, CEO e cofundador da Aria, em entrevista ao Presse-citron. Não por acaso, o crédito interempresarial já supera o crédito bancário.
Bancos sem resposta para o caixa das pequenas empresas
As instituições financeiras também têm dificuldade em acompanhar esse público. Para um banco tradicional, atender uma pequena empresa frequentemente custa mais do que rende, somando análise de risco, exigências de conformidade e gestão de disputas. Com isso, a grande maioria das estruturas pequenas acaba sem uma solução financeira adequada e é obrigada a esperar meses para receber. “Uma empresa não quebra porque não é rentável, e sim porque ficou sem caixa”, resume o executivo.
É justamente essa dor que a fintech pretende atacar. Antes de fundar a Aria, Clément Carrier e seu sócio, Vincent Folny, trabalhavam como freelancers. “A gente viveu isso na pele e percebeu que não existia nenhuma solução viável para as pequenas empresas”, conta. Se os bancos não conseguem atender esses atores, é preciso um modelo desenhado para eles, capaz de democratizar o financiamento - tornando-o tão simples quanto um clique dentro de um software. “Existe uma missão real: ajudar todas essas empresas que são rentáveis, mas ficam estranguladas pelo caixa”, reforça Clément Carrier.
Pagamento imediato, acessível em um clique
Como ampliar o acesso a financiamento quando os bancos não dão conta? Para a Aria, a saída é um modelo totalmente embutido nas ferramentas que as pequenas empresas já utilizam. A startup não comercializa o serviço diretamente: ela se conecta a grandes softwares B2B - sejam ERPs, soluções de compras ou plataformas como a Malt - e permite que esses parceiros ofereçam pagamento imediato aos seus usuários. “Se uma micro, pequena ou média empresa usa uma plataforma integrada à Aria, ela pode receber imediatamente”, explica Clément Carrier. “Se ela tem 200.000 euros em faturas pendentes, a gente consegue liberar essa reserva na hora”.
Na prática, basta um clique: o software envia automaticamente as informações para a Aria, que faz o restante usando dados já existentes no sistema. Por trás da experiência simples, há um arranjo financeiro estruturado. A PME cede a fatura, e um fundo de securitização a compra de imediato. Depois, esse fundo - operado pela Aria - é quem cobra o pagamento do cliente final no vencimento. Já a pequena empresa recebe o dinheiro em seguida. “Para ela, é marca branca: sem dossiê, sem cobranças, sem burocracia”, detalha Clément Carrier.
Risco no cliente (e não na PME)
O modelo ainda traz um ganho crucial: o risco financeiro deixa de ficar na pequena empresa e passa para o cliente dela, muitas vezes um grande grupo com maior solidez. “Nós financiamos uma PME, mas o risco recai sobre o cliente dela, que é mais confiável”, ressalta o CEO. Isso contrasta com outras alternativas de financiamento, que assumem risco diretamente sobre a estrutura pequena. A lógica parece funcionar: hoje, a Aria registra menos de 0,1% de perdas, enquanto alguns concorrentes ficam na faixa de 1% a 4%.
Já são 1 bilhão de euros financiados
Em três anos de atuação comercial, a Aria já atingiu o marco simbólico de 1 bilhão de euros em faturas financiadas - e não pretende desacelerar. “Nos próximos 12 meses, a gente planeja fazer mais 1 bilhão”, afirma o CEO. Essa evolução é impulsionada pelo efeito de escala dos acordos com plataformas de software.
No momento, mais de 100.000 PMEs já usaram o serviço, um número que vem crescendo rapidamente com o aumento do peso das empresas menores na base: elas já somam perto de 60% dos clientes finais. A startup tem pouco mais de 50 colaboradores, distribuídos entre Paris e outros mercados europeus. E a Aria já não está restrita à França: o Reino Unido foi lançado há dois anos, e agora a empresa acelera na Espanha e em Malta.
O ritmo aparece também nos indicadores internos. A receita recorrente mensal já se aproxima de 1 milhão de euros, sustentada por um volume crescente de integrações com grandes softwares B2B. A estratégia rendeu dois anos seguidos no ranking Sifted/Financial Times das startups de maior crescimento, além da vitória recente na edição francesa do programa “Mastercard for Fintechs”.
A empresa agora busca ampliar o escopo. Uma das frentes previstas é operar certos pagamentos diretamente, mesmo quando não houver financiamento, ainda via os softwares parceiros. O objetivo é direto: tornar-se um componente essencial do pagamento B2B na Europa.
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