Há cerca de quatro anos, a Comissão Europeia vem trabalhando na futura norma de emissões Euro 7. Até aqui, a sinalização era de uma postura mais dura - uma “mão mais pesada” - para limitar a liberação de poluentes no escapamento (exceto o CO2) e, principalmente, para evitar que esses limites fossem ultrapassados em situações extremas de uso (como a partida a frio).
Além de reduzir gases nocivos - sobretudo óxidos de nitrogênio (NOx) e monóxido de carbono (CO) -, a Euro 7 também pretende ampliar o foco para partículas geradas por freios e pneus e ainda incluir o tema da durabilidade das baterias em veículos elétricos.
Um caminho conturbado até a Euro 7
A trajetória até chegar a um texto definitivo tem sido marcada por dificuldades e idas e vindas, algo refletido nos sucessivos adiamentos para a publicação da Euro 7 - o mais recente ocorreu há menos de duas semanas.
Agora, a Comissão Europeia definiu uma nova data para apresentar as regras (9 de novembro). Mesmo assim, o jornal Politico afirma já ter tido acesso a um rascunho do documento - e o conteúdo seguiria na direção oposta ao que se esperava.
Passo atrás na Euro 7?
Segundo o rascunho, a leitura inicial é que a Comissão Europeia reduziu de forma relevante o grau de exigência que se projetava para a Euro 7.
O texto mencionaria uma harmonização dos limites de emissões entre carros leves de passageiros e veículos leves de carga, além de igualar motores a gasolina e a diesel, mas - o ponto central - fazendo esse alinhamento pelos limites já vigentes para motores a gasolina na Euro 6.
Na comparação com o que vinha sendo debatido, a Euro 7 não apenas traria tetos mais baixos para poluentes, como também exigiria que esses limites fossem respeitados em todas as condições de condução - por exemplo, durante a partida a frio.
Nessa situação, nem o motor está na temperatura ideal de operação, nem os catalisadores; por isso, as emissões tendem a ficar acima do permitido. Obrigar o cumprimento dos limites em qualquer cenário levaria ao uso de soluções como “super-catalisadores”, que precisariam ser pré-aquecidos antes mesmo de ligar o carro, para alcançar a faixa térmica ideal (400-600 ºC) e manter as emissões do motor dentro do padrão.
Tecnologia, custos e impacto no preço dos carros
As montadoras apontam que seria um obstáculo tecnológico difícil, porém viável. Ainda assim, haveria efeito direto no bolso do consumidor: a consequência poderia ser um aumento de preço de até cinco mil euros nos carros com motor a combustão, como alertou há alguns meses Thomas Schäfer, o novo diretor executivo da marca Volkswagen.
Esse recuo, portanto, representa uma vitória importante para a indústria automotiva - e tem gerado críticas contundentes de organizações ambientalistas. A Transport & Environment, por exemplo, afirma que a Comissão Europeia “cedeu às exigências da indústria” e que os “lucros dos construtores de automóveis estão a ter prioridade sobre a saúde de milhões de europeus”.
Prazos, 2035 e a transição para elétricos
Vale lembrar que, independentemente de a Euro 7 terminar mais rígida ou mais branda, sua aplicação só ocorreria daqui a alguns anos. Considerando os atrasos, há especulações de que ela só passe a valer em 2027.
Em paralelo, a Comissão Europeia já aprovou uma proposta para reduzir em 100% as emissões de CO2 de carros novos a partir de 2035 - o que, na prática, significa o fim dos motores de combustão interna.
Além disso, várias montadoras já divulgaram planos para migrar para uma mobilidade 100% elétrica em 2030 - em alguns casos, até antes disso. Com esse horizonte, a Euro 7 já parecia ter uma “vida útil” curta e um impacto incerto na redução de emissões. Na visão das fabricantes, isso não compensaria o investimento elevado necessário para adequar modelos e motores a combustão.
Porquê o recuo da Comissão Europeia?
No documento preliminar, a própria Comissão Europeia também usa o argumento de custos para revisar a Euro 7, relacionando-o ao aumento das despesas com energia e matérias-primas, “à luz das circunstâncias geopolíticas e económicas atuais”.
Dessa forma, a Comissão Europeia teria optado por “minimizar” os custos ligados ao desenvolvimento de novas tecnologias para tornar os motores a combustão interna mais “limpos”, levando em conta também a decisão já citada de reduzir em 100% as emissões de CO2 em 2035.
A justificativa se aproxima do que disse Carlos Tavares, diretor executivo da Stellantis, durante o Salão de Paris na semana passada: “do ponto de vista da indústria, não precisamos da Euro 7, porque vai retirar recursos que deveríamos estar a gastar na eletrificação.”
As regras finais da Euro 7, assim como a data de início da norma, serão conhecidas em 9 de novembro.
Fonte: Politico
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário