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União Europeia aprova acordo comercial com o Mercosul e amplia impacto no setor automotivo

Carro elétrico verde em exposição, com rodas grandes, refletindo luz em ambiente moderno com vista urbana ao fundo.

Após 25 anos de negociações difíceis, a União Europeia aprovou nesta sexta-feira, por maioria qualificada, o acordo comercial com o Mercosul. Mesmo com a oposição formal de França, Polônia, Áustria, Irlanda e Hungria - e com a Bélgica optando pela abstenção -, o texto reuniu votos suficientes no Conselho e destravou um tema há muito visto como politicamente tóxico, embora economicamente determinante.

O tratado entre a União Europeia e o bloco do Mercosul - formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai - tem como objetivo estabelecer a maior área de livre-comércio do mundo, alcançando cerca de 700 milhões de consumidores.

Com a influência econômica da China avançando na América Latina e a relação transatlântica passando por um período de imprevisibilidade, Bruxelas busca fortalecer alianças ancoradas em regras, estabilidade e acesso recíproco aos mercados.

O que prevê o acordo

No eixo industrial, o acordo define a eliminação gradual de tarifas e de barreiras técnicas ao comércio. No segmento automotivo, o efeito é especialmente relevante: tarifas de até 35% incidem sobre veículos produzidos na União Europeia e agora serão removidas aos poucos, o que tende a melhorar a competitividade no acesso a um mercado sul-americano estimado em cerca de três milhões de veículos por ano.

Segundo a Comissão Europeia, o tratado pode elevar as exportações da UE para o Mercosul em até 39%, o que corresponderia a aproximadamente 49 bilhões de euros por ano, sustentando mais de 440 mil empregos no espaço europeu. Em uma indústria que representa mais de 8% do PIB da UE e emprega 13,6 milhões de pessoas, o impacto do acordo ganha caráter estrutural.

Porquê agora e porque é crítico para o automotivo

O entendimento chega em um momento sensível para o principal motor da economia europeia. Hoje, a indústria automotiva do continente está sob pressão ao mesmo tempo em diferentes mercados estratégicos.

Nos Estados Unidos, o ambiente de política comercial se tornou altamente instável. O uso recorrente de tarifas como ferramenta de negociação pelo governo de Donald Trump ampliou a incerteza para as montadoras europeias, com efeitos sobre decisões de investimento, planejamento industrial e cadeias de suprimentos.

Na China, o quadro também piorou. As marcas europeias vêm perdendo participação em um mercado liderado por fabricantes locais, marcado por guerra de preços, excesso de capacidade produtiva e por um consumidor cada vez mais voltado a soluções domésticas. O mercado que por anos funcionou como amortecedor global deixou de oferecer garantia de crescimento.

Diante disso, a abertura do mercado sul-americano passa a ter um peso estratégico maior - não como substituição isolada, mas como uma diversificação crítica para as exportações europeias.

Veículos, mas também matérias-primas

Para o setor automotivo, os efeitos do acordo UE–Mercosul vão além da venda de veículos prontos. O pacote também envolve ganhos na diversificação das cadeias de abastecimento, sobretudo por facilitar o acesso a matérias-primas críticas como lítio, grafite e manganês - fundamentais para a transição elétrica e para diminuir dependências externas da indústria europeia.

É justamente a soma entre exportações industriais e segurança de fornecimento que ajuda a entender a posição da ACEA (Associação Europeia de Fabricantes Automóveis). A entidade tem defendido de forma consistente que o acordo com o Mercosul não deve ser visto apenas como oportunidade comercial, mas como necessidade estratégica para manter a competitividade da indústria automotiva europeia.

Atualmente, mais de 30% dos veículos produzidos na UE são exportados, gerando um superávit comercial acima de 90 bilhões de euros. Projeções do setor indicam que as exportações automotivas para o Mercosul podem triplicar até 2040 com a remoção de tarifas e de barreiras técnicas.

Com os trâmites concluídos no Conselho, o acordo segue para assinatura formal no mais alto nível institucional da União Europeia. Depois disso, será encaminhado ao Parlamento Europeu e, nos temas que ultrapassam a política comercial comum, também aos parlamentos nacionais dos Estados-membros.

Ainda não é o fim do processo

Apesar do aval político, o caminho legislativo ainda não terminou. Permanecem resistências internas, especialmente no setor agrícola, motivo pelo qual foram previstas salvaguardas automáticas para limitar importações em caso de distorções de mercado.

Ainda assim, o acordo UE–Mercosul entra agora em sua etapa formal. O primeiro movimento é concluir o procedimento escrito no Conselho, que consolida a posição dos Estados-membros e autoriza a assinatura oficial do tratado entre a União Europeia e os países do Mercosul.

Após a assinatura, o texto será enviado ao Parlamento Europeu, cuja aprovação é indispensável para que o acordo tenha efeitos jurídicos. Ao mesmo tempo, por se tratar de um acordo classificado como “misto”, algumas disposições - sobretudo as que vão além do escopo estrito da política comercial comum - também precisarão ser ratificadas pelos parlamentos nacionais dos Estados-membros, em um processo que pode ocorrer de modo faseado.

Na prática, o acordo não muda a indústria automotiva europeia de um dia para o outro. Porém, o risco político diminuiu de forma significativa: o tratado deixou de ser um tema paralisado e passou a ser um processo em andamento.


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