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Déjà vu e o conflito de memória revelado por ressonância magnética

Jovem analisando cartas enquanto computador exibe imagens de exames cerebrais coloridos em ambiente clínico.

Saber que algo é realmente novo deveria, em tese, tornar o déjà vu impossível. Se um instante é claramente inédito, não faria sentido surgir na mente a sensação estranha de que aquilo já aconteceu.

Só que os pesquisadores observaram justamente o contrário. Quanto mais certeza as pessoas tinham de que uma experiência era nova, maior era a probabilidade de relatarem déjà vu.

Dois sinais em desacordo

O déjà vu carrega uma contradição interna: ao mesmo tempo em que o momento “parece” familiar, a pessoa também sabe que ele não pode ser.

O Dr. Akira O’Connor, pesquisador de memória na Universidade de St Andrews, na Escócia, e seus colegas atribuem essa vivência ao que chamam de conflito de memória.

Essa explicação vai na direção oposta da imagem popular de um simples “soluço” do cérebro.

A familiaridade, por si só, é algo corriqueiro. Um rosto parece reconhecível, uma música soa conhecida, e ainda assim nada nisso é perturbador. Para o déjà vu surgir, algo a mais precisa estar acontecendo.

Criando uma familiaridade falsa

Para investigar o fenômeno, o grupo decidiu “construir” o déjà vu usando listas simples de palavras. A estratégia diferia de um estudo anterior, que havia recorrido a cenas virtuais imersivas.

Os voluntários liam conjuntos de termos relacionados - molhado, neve, inverno, gelo, congelar - todos orbitando uma palavra que nunca aparecia, como frio.

O artifício cria de modo confiável uma falsa memória. Apesar de a palavra ausente não ter sido mostrada, os participantes com frequência sentiam como se a tivessem visto.

Enquanto liam, eles também contavam quantas palavras começavam com um par específico de letras. Nas listas principais, esse total acabava sendo zero.

Mais tarde, quando a palavra ausente era apresentada, ela parecia familiar - mesmo com os participantes sabendo que ela nunca tinha sido exibida.

Testando o déjà vu com palavras

Os pesquisadores chamaram essas palavras de conflito de “iscas críticas resolvidas”. À primeira vista, elas soavam conhecidas, mas a tarefa de contagem de letras servia como evidência de que eram novas.

Cada uma delas produzia o tipo exato de conflito que a equipe queria observar.

Os relatos de déjà vu se concentraram justamente nessas palavras. Entre 21 voluntários, 16 sentiram a experiência - e ela foi mais intensa não quando uma palavra nova simplesmente os enganava a ponto de eles a identificarem errado, mas quando a familiaridade “puxava” e eles a anulavam.

Um experimento anterior do mesmo laboratório já havia indicado o padrão apenas pelo comportamento. Palavras que só pareciam familiares, sem um jeito de confirmar, desencadeavam déjà vu com menos frequência.

Os voluntários também reconheceram que a versão de laboratório não alcançava totalmente o que vivem fora dali, sendo mais leve e mais curta do que o déjà vu que os surpreende no cotidiano.

“Este déjà vu durou menos tempo do que em situações anteriores”, escreveu um deles.

Observando o conflito no cérebro

O comportamento ajuda a mostrar que o conflito alimenta a sensação, mas não revela onde, no cérebro, essa disputa acontece. Por isso, os voluntários realizaram toda a tarefa dentro de um aparelho de ressonância magnética.

Até então, nenhum voluntário saudável tinha sido escaneado durante um episódio desse tipo.

Nos instantes de conflito, as imagens mostraram aumento de atividade ao longo da linha média na parte frontal do cérebro, em regiões associadas a detectar e resolver conflitos.

Uma delas, o córtex cingulado anterior, tem um papel já bem documentado.

Estudos o relacionam à identificação de conflito entre sinais concorrentes e ao “alerta” de que algo precisa ser reavaliado.

Nas varreduras, ele aparecia ativo quando a familiaridade e a checagem contra ela batiam de frente.

Uma rede cerebral que confere sentimentos

O córtex cingulado anterior não atuava sozinho. Um tecido próximo no córtex pré-frontal medial e uma área do córtex parietal - a rede que o cérebro usa para monitorar o próprio pensamento - exibiram o mesmo padrão.

As três regiões entravam em ação nesses momentos de conflito.

Em conjunto, formam a rede que o cérebro parece acionar quando um sentimento precisa ser checado - e, neste caso, contrariado.

O resultado, porém, é mais específico do que parece. Essas áreas de controle estavam muito ativas durante o conflito, mas isso não prova que elas tenham gerado a sensação.

Além disso, o momento de déjà vu em si pôde ser analisado em apenas seis voluntários.

Mais do que uma memória oculta

Nada disso significa que exista uma lembrança real escondida por trás. O cérebro mantém sistemas separados para o “puxão” da familiaridade e para a recuperação de eventos de fato vividos.

Esses sistemas podem se desencontrar sem que uma memória armazenada esteja envolvida.

Trabalhos com pacientes com epilepsia haviam direcionado o foco ao hipocampo e a tecidos próximos no lobo temporal, estruturas que ajudam a disparar essa sensação de familiaridade.

Quando estimuladas, elas podem provocar um choque semelhante ao déjà vu.

As novas imagens, porém, deslocam a atenção para a parte frontal, para regiões que colocam esses sinais na balança e os comparam entre si.

A familiaridade pode começar em áreas profundas do cérebro, mas a parte inquietante parece depender do frontal para sinalizar o choque entre as informações.

Por que o déjà vu diminui com a idade

Essa leitura também ajuda a resolver um enigma que incomoda a área há anos: o déjà vu tende a diminuir conforme as pessoas envelhecem. Se fosse apenas um erro de memória, seria esperado que aumentasse ao longo do tempo.

A hipótese do conflito combina melhor com o padrão. Os sistemas frontais ligados a perceber pequenas incompatibilidades costumam enfraquecer com a idade; com isso, um cérebro que deixa de notar a contradição sutil simplesmente a deixa passar.

A mesma lógica vale para a clínica. No déjà vécu, condição às vezes associada à demência, as pessoas não apenas sentem uma falsa familiaridade.

Elas se convencem de que já viveram um evento e podem tomar decisões com base nessa crença equivocada.

No déjà vu saudável, a experiência se resolve a favor da realidade - o que pode explicar por que ela passa sem maiores danos. No déjà vécu, esse processo corretivo parece falhar.

Um teste de realidade para a memória

Pela primeira vez, imagens cerebrais em pessoas saudáveis ligam o déjà vu aos sistemas de checagem de conflito do cérebro, e não apenas à memória.

A sensação não seria um “escorregão” do cérebro. Pode ser o cérebro flagrando uma familiaridade falsa em pleno ato. Isso transforma o déjà vu de mistério em pista.

O que parece um lapso breve talvez seja, na verdade, evidência de que o cérebro está avaliando ativamente as próprias percepções, separando memórias genuínas de sinais enganosos.

Agora, os pesquisadores têm uma pergunta mais nítida para perseguir: como funciona esse sistema de checagem da realidade e por que, às vezes, ele deixa de funcionar.

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