Pinguins foram feitos para o frio. As penas formam camadas que criam uma barreira térmica contra um clima que mataria quase qualquer outro animal.
O corpo deles retém calor com uma eficiência impressionante - uma vantagem em ventos abaixo de zero, mas uma desvantagem crescente num planeta que está aquecendo.
Numa pequena ilha ao largo do extremo sul da Argentina, cientistas acompanharam uma colônia de pinguins ao longo de uma década de verões e viram um paradoxo acontecer.
Tardes muito quentes estavam matando filhotes. Ao mesmo tempo, as aves começaram a fazer algo que ninguém esperava.
Pinguins levados ao limite
Os pinguins-de-papua se reproduzem desde a Península Antártica até ilhas subantárticas.
A colônia mais ao norte, na Argentina, fica na Ilha Martillo, em Tierra del Fuego, perto da cidade de Ushuaia - um lugar frio que, cada vez mais, vem recebendo ar quente no verão.
Sabrina Harris, bióloga do Centro Austral de Investigações Científicas (CADIC), na Argentina, acompanha essa colônia há anos.
Ela e seus colegas queriam entender o que o calor extremo provoca numa espécie adaptada justamente ao problema oposto.
Mortandades associadas ao calor já foram registradas do Ártico à África do Sul, com ondas de calor ligadas a eventos de mortalidade em muitas espécies de aves marinhas.
Para pinguins que vivem no limite norte da distribuição, a margem de tolerância térmica do corpo já é pequena.
Uma década de vida na colônia
Em 2013, a equipe instalou uma câmera de lapso de tempo dentro de um tronco de árvore escavado, apontado para a colônia. A estrutura de madeira protegia a lente do sol, da chuva e do vento.
Durante as horas de luz, uma vez por hora, a câmera registrava uma imagem. Esse único equipamento de monitoramento gerou dez anos de evidências.
A cada temporada reprodutiva, entre 30 e 60 ninhos ficavam no campo de visão, o que permitiu acompanhar os filhotes desde a eclosão, passando pela perda da penugem, até o momento em que emplumavam e partiam. A temperatura era registrada em cada imagem.
No conjunto, a colônia prosperou. O número de ninhos aumentou cerca de 12% ao ano, e a contagem de filhotes cresceu num ritmo parecido.
Em 2023, a câmera observava por volta de 60 ninhos e quase o mesmo número de filhotes sobreviventes.
Quando o calor virou fatal
O dia 21 de janeiro de 2015 caiu no meio de uma onda de calor de três dias. No meio da tarde, o visor da câmera próximo à colônia marcou cerca de 24°C.
Somando os três dias, as aves ficaram expostas a 25 horas acima de 20°C.
O que apareceu nas imagens seguintes parece quase um folhear de fotos em sequência. Em apenas 45 minutos depois de a temperatura passar de 24°C, cinco dos 32 filhotes estavam mortos.
A equipe descartou as explicações mais óbvias. Nenhum predador apareceu nas fotos, não havia lesões externas nos corpos, e os filhotes tinham peso saudável para a idade.
A única hipótese compatível com o conjunto de indícios foi superaquecimento.
Como os pinguins reagem ao calor
Os adultos têm poucas estratégias para perder calor. Eles se deitam com nadadeiras e pés bem abertos, expondo áreas de pele sem penas. Também abrem o bico e ofegam.
Já os filhotes, ainda cobertos pela penugem isolante, contam com menos alternativas.
Ao revisar as fotografias temporada por temporada, os pesquisadores viram um padrão claro. Acima de 18°C, os filhotes começavam a ofegar.
Acima de 20°C, mais da metade sumia da colônia - e a câmera os registrava depois debaixo de arbustos próximos ou mais abaixo, na praia.
Sair em busca de sombra é, por si só, uma resposta comportamental. Os filhotes perceberam, ou aprenderam muito rapidamente, que permanecer no ninho durante tardes quentes era perigoso.
A exceção foram os filhotes de janeiro de 2015, que ficaram na colônia durante as horas mais críticas.
Adiantando a reprodução para escapar do calor do verão
Ao longo da mesma década, outro processo ocorria na Ilha Martillo: as aves passaram a iniciar a reprodução mais cedo.
Em 2015, os primeiros ovos foram postos em 20 de outubro; em 2022, em 26 de setembro.
Esse adiantamento se refletiu no restante do ciclo. A etapa final antes de os filhotes emplumarem passou a terminar cerca de dois dias mais cedo a cada ano, antecipando a data de encerramento em aproximadamente 23 dias ao longo de dez anos.
A causa quase certamente é a própria mudança climática. Primaveras mais precoces e o derretimento mais cedo da neve funcionam como sinais para que as aves comecem antes.
O que surpreendeu os pesquisadores foi o efeito colateral: ao antecipar a postura, os filhotes ficaram em terra durante menos dias de calor no auge do verão.
Filhotes agora evitam os dias mais quentes
Os números chamam atenção. Na temporada de 2014, apenas quatro das 42 horas quentes ocorreram fora da janela de cuidado aos filhotes - ou seja, os jovens enfrentaram quase todas elas. Em 2020, eles já deixavam de pegar 28 de 44.
Desde 2021, nessa fase, os filhotes passaram menos de 10 horas na colônia com temperaturas acima de 20°C. Hoje, mais da metade das horas quentes de cada temporada acontece depois que os jovens já seguiram para o mar.
Na maioria dos casos, mudanças de calendário biológico impulsionadas pelo clima vão na direção oposta: reproduzir mais cedo costuma criar desencontros com a disponibilidade de presas ou com outros sinais ecológicos.
Aqui, por uma coincidência de timing, os pinguins estão vencendo uma pequena corrida.
Uma vantagem climática pequena
A equipe evita exageros. Antecipar a data de reprodução trouxe tempo, não garantia de segurança.
Se as temperaturas de verão continuarem subindo, as horas quentes que ainda caem dentro do período de cuidado aos filhotes podem superar qualquer ajuste adicional no calendário.
Em outros pontos da costa argentina, o cenário é mais sombrio. Em 2019, centenas de pinguins-de-magalhães morreram numa única tarde durante um pico de calor, conforme documentado em um estudo separado.
Os pinguins-de-papua de Martillo escaparam de perdas dessa magnitude, pelo menos até agora.
Pela primeira vez, pesquisadores associaram diretamente o adiantamento da estação reprodutiva à redução da exposição ao calor justamente na fase mais vulnerável dos filhotes.
Os filhotes de Martillo estão escapando por pouco. Se os extremos do verão se intensificarem mais rápido do que o calendário consegue avançar, essa trégua chega ao fim.
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