Pular para o conteúdo

Stellantis prepara E-Car de 15 000 euros para 2028 e não espera por Bruxelas

Carro elétrico compacto azul e bronze exibido em estande com placa E-15000 em feira automotiva.

Fabricantes europeus vêm repetindo o mesmo recado há anos: produzir carros pequenos, baratos e ainda lucrativos dentro da Europa sempre foi complicado - e está ficando ainda mais. As exigências aumentaram, os custos subiram e muitos modelos urbanos acabaram saindo de cena.

Ao mesmo tempo, a União Europeia quer virar esse jogo e, paralelamente, acelerar a eletrificação no continente.

Com esse objetivo, Bruxelas colocou na mesa a chamada Small Affordable Cars Initiative (Iniciativa de Carros Pequenos e Acessíveis), um programa que prevê uma nova categoria de veículos elétricos feitos na Europa. Só que, por enquanto, o desenho do projeto ainda não está fechado: não há data certa para a entrada em vigor, nem clareza sobre incentivos ou sobre os critérios finais que as marcas terão de cumprir.

A Stellantis, porém, decidiu tocar o plano sem esperar. Em uma mesa-redonda com jornalistas europeus - com a presença da Razão Automóvel -, Emanuele Cappellano, responsável pela Europa Alargada e pelas marcas europeias da Stellantis, disse que a estratégia do grupo independe do que vier a ser aprovado pela União Europeia:

“A nossa plataforma E-Car não parte do princípio de que haverá qualquer alívio regulatório por parte da União Europeia”.

Emanuele Cappellano, responsável pela Europa Alargada e pelas marcas europeias da Stellantis

Ainda assim, ele reconhece que uma ação específica de Bruxelas poderia deixar esses modelos mais competitivos. “Se houver regras especiais, espero que o carro possa ser ainda mais barato”, acrescentou.

O que Bruxelas está a tentar fazer

A proposta da Comissão Europeia tenta criar condições para o retorno dos carros pequenos e acessíveis - agora exclusivamente elétricos - fabricados na Europa, num contexto em que as marcas chinesas avançam justamente nos segmentos mais sensíveis ao preço.

O plano passa pela criação de uma categoria dedicada - conhecida internamente como M1E - para elétricos com menos de 4,2 m de comprimento. Entre as opções em discussão estão vantagens regulatórias e mecanismos que permitam contabilizar esses modelos de forma mais favorável no cumprimento das metas de emissões de CO₂.

Por enquanto, no entanto, há mais dúvidas do que definições. E é essa falta de previsibilidade que ajuda a explicar por que a Stellantis prefere seguir adiante sem aguardar a palavra final das instituições europeias.

Dois modelos confirmados para 2028

A Stellantis já confirmou que a nova família de elétricos acessíveis começará a sair da linha em 2028, na fábrica italiana de Pomigliano d’Arco - onde hoje são produzidos o FIAT Pandina e o Alfa Romeo Tonale.

Na sessão de perguntas e respostas, Cappellano confirmou que haverá pelo menos dois modelos e também corrigiu um rumor que vinha ganhando força. “Não há Panda”, respondeu ao ser questionado pela Razão Automóvel sobre o futuro carro da FIAT. Ele disse apenas que existirá um modelo para a marca italiana (ainda sem nome definido) e outro para a Citroën, marcando a volta do 2CV.

Mais do que isso, Cappellano garantiu que esses carros não serão uma adaptação das plataformas atuais do grupo. “Estamos a falar de uma nova plataforma. É uma plataforma totalmente nova”, reforçou.

O ponto chama atenção por fugir da estratégia multi-energias da Stellantis. Ao contrário das demais arquiteturas do grupo, essa nova base dos E-Cars será exclusiva para veículos elétricos.

A decisão, porém, deixa uma pergunta central no ar: como a Stellantis pretende montar um elétrico europeu por cerca de 15 000 euros e, ainda assim, ter lucro?

Plataforma exclusiva ou com parceiros?

Cappellano se limitou a reafirmar que se trata de uma plataforma inédita, sem detalhar se essa arquitetura será desenvolvida apenas pela Stellantis ou se vai aproveitar parcerias já existentes com fabricantes chineses.

Isso porque, no mesmo encontro, o executivo europeu confirmou o reforço das alianças com a Leapmotor e com a Dongfeng, incluindo frentes como compras, produção e desenvolvimento de produtos.

Além disso, a própria Stellantis já detém 51% da Leapmotor International, a joint venture com a Leapmotor que vende na Europa o T03, um dos poucos citadinos elétricos atualmente disponíveis com preços relativamente acessíveis. Por ora, o grupo não esclareceu como - ou se - essas parcerias se conectam aos futuros E-Car.

Porque é que a Stellantis está a regressar aos carros baratos

A justificativa aparece nos números. Cappellano disse que a Europa perdeu uma fatia relevante do mercado automotivo nos últimos anos, principalmente nos segmentos de entrada. “Nos últimos quatro anos, a indústria europeia perdeu três milhões de veículos/ano”, afirmou.

E detalhou onde essa demanda evaporou: “A maior parte desses veículos desapareceu nas faixas de preço mais baixas do mercado.” Para a Stellantis, há um espaço claro para reconquistar parte desse público - desde que dê para fazer isso com rentabilidade.

“É muito interessante regressar a esta faixa de preço abaixo dos 15 000 euros, mas de uma forma rentável e sustentável. Esse é o desafio.”

Emanuele Cappellano, responsável pela Europa Alargada e pelas marcas europeias da Stellantis

E o desafio é concreto. Entre 2021 e 2025, a produção europeia de carros do segmento A (citadinos) caiu de cerca de 720 000 unidades para pouco mais de 320 000 unidades por ano. A redução tem relação direta com a saída de várias marcas desse segmento, diante da dificuldade de absorver o aumento de custos de desenvolvimento e de regulamentação.

Hoje, a pressão continua - e ganhou um elemento extra: a concorrência chinesa, que conta com custos de produção menores do que os europeus. Ainda assim, o retorno das marcas do continente a esse espaço já começou, com uma nova geração de urbanos elétricos: o Renault Twingo e o futuro Volkswagen ID.1, a ser produzido em Palmela, são exemplos.

A Iniciativa de Carros Pequenos e Acessíveis da União Europeia pode ser o empurrão decisivo para reacender o segmento, mas a Stellantis já deixou claro que não pretende esperar por Bruxelas: definiu a fábrica, estabeleceu um preço-alvo e confirmou dois modelos para 2028. O grupo diz que as contas já foram feitas - agora resta ver se elas realmente fecham.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário