A poluição por mercúrio não fica parada. Depois de ser lançada na atmosfera - sobretudo pela queima de carvão - ela pode ser carregada pelos ventos entre continentes, cair no mar com a chuva e, sem alarde, ir se acumulando ao longo da cadeia alimentar marinha.
Durante anos, para estimar onde esse mercúrio vai parar e em que concentrações, a ciência recorreu principalmente a modelos de simulação do oceano.
Um novo estudo internacional seguiu um caminho mais direto: usou aves marinhas como instrumento de medição.
Em vez de perguntar a um modelo computacional onde o mercúrio “deveria” estar, os pesquisadores observaram onde ele está de fato aparecendo em animais vivos que se alimentam em enormes áreas do oceano.
Especialistas avaliaram níveis de mercúrio no sangue de 11,215 aves marinhas, de 108 espécies, em escala global.
O conjunto de dados reuniu 659 amostras novas e mais de 10,500 obtidas a partir de décadas de trabalhos científicos publicados.
Por que aves marinhas, e por que sangue?
As aves marinhas são, na prática, feitas para esse tipo de investigação ambiental. Muitas espécies forrageiam longe do continente, ocupam posições elevadas na teia alimentar e retornam a locais de reprodução previsíveis, onde os cientistas conseguem coletar amostras.
A equipe priorizou sangue de aves adultas porque esse tecido reflete, aproximadamente, o que os animais consumiram nos últimos dois meses. Isso facilita ligar a exposição ao mercúrio a um local e a um período específicos, algo mais difícil com outros tecidos, como as penas.
Além disso, a coleta de sangue tende a ter impacto relativamente baixo para as aves.
Métodos usados pelos cientistas
Os pesquisadores juntaram duas grandes linhas de evidência.
Entre 2017 e 2024, eles coletaram 659 amostras de sangue de 10 espécies de aves marinhas em locais de reprodução no Japão, no Alasca e na Nova Zelândia. Em seguida, mediram o mercúrio total por métodos de absorção atômica.
Em paralelo, o grupo conduziu uma ampla revisão sistemática de 106 artigos científicos publicados entre 1980 e 2025 (a maioria após 2010), reunindo informações de 10,556 aves adultas de 105 espécies.
Com tudo combinado, o resultado foi um banco de dados global grande o suficiente para buscar padrões de exposição ao mercúrio conforme dieta, região e diferentes tipos de aves marinhas.
Quais aves carregavam mais mercúrio?
Os fatores que mais explicaram as diferenças fizeram sentido quando se considera como o mercúrio circula nos ecossistemas.
As aves apresentaram níveis mais altos quando se alimentavam em posições mais elevadas da cadeia alimentar (o mercúrio sofre biomagnificação: organismos pequenos o acumulam, mas predadores maiores tendem a acumular ainda mais).
Os níveis também foram mais altos em aves de maior massa corporal, característica que costuma estar associada a maior longevidade e, portanto, a uma exposição acumulada mais elevada.
Além disso, indivíduos que se alimentavam de presas oriundas de 200 a 1,000 metros de profundidade - uma faixa em que a dinâmica do mercúrio pode diferir das águas superficiais - também exibiram maior exposição.
Por fim, especialistas observaram que albatrozes e pardelas, em geral, mostraram exposição especialmente alta em comparação com muitas outras aves marinhas, provavelmente por causa de onde e como forrageiam.
Um padrão global e pontos quentes inesperados
Ao mapear regionalmente os padrões de mercúrio, a equipe identificou com clareza zonas “mais quentes” e “mais frias” de contaminação no oceano.
Os níveis foram mais elevados no Atlântico Norte, no Pacífico Norte e no Pacífico Sul ao sul de 40°S.
Essas áreas apresentam baixa produtividade, algo refletido por valores menores de clorofila-a (um indicador por satélite frequentemente usado como aproximação de quão “ativa” é a superfície do oceano do ponto de vista biológico).
Enquanto isso, os níveis de mercúrio foram muito menores no Atlântico Sul e no Oceano Antártico.
Isso não significa necessariamente que essas águas do sul sejam “limpas”, mas sugere que, em média, aves que se alimentam ali estão ingerindo menos mercúrio pela teia alimentar do que aves que forrageiam em outras bacias.
A grande reviravolta
Um dos achados mais importantes (e desconfortáveis) foi que o mapa de mercúrio baseado em aves marinhas coincidiu apenas de forma fraca com os modelos tradicionais de simulação biogeoquímica marinha.
Isso é relevante porque muitos pressupostos de políticas públicas e diversas estimativas científicas são guiados por modelos. Se esses modelos estiverem deixando de fora processos essenciais ou deslocando os pontos quentes, então a nossa “visão global” do risco do mercúrio pode estar mais nebulosa do que se imaginava.
“"O modelo baseado em aves marinhas se baseia em medições empíricas de organismos e, portanto, é considerado mais confiável do que valores de modelos de simulação marinha"”, afirmou a autora sênior Akiko Shoji, cientista da Universidade de Nagoya.
“"As aves marinhas vivem em ambientes diversos, de zonas costeiras e tropicais a regiões polares. Seus padrões alimentares variados as tornam indicadores eficazes da saúde global do oceano".”
Implicações para além das aves marinhas
O mercúrio preocupa especialmente porque parte dele é convertida no oceano em formas altamente tóxicas (como o metilmercúrio), que se acumulam nas teias alimentares.
Como as aves marinhas ficam perto do topo dessas teias, o que aparece no sangue delas funciona como um sinal de alerta - não apenas para as próprias aves, mas para o ecossistema mais amplo abaixo delas.
Os autores apresentam esse caminho baseado em aves marinhas como uma ferramenta em potencial para acompanhar se políticas globais estão realmente surtindo efeito.
As emissões de mercúrio são reguladas internacionalmente por acordos como a Convenção de Minamata, mas demonstrar melhora no mundo real é difícil quando a medição efetiva do oceano é limitada.
Tratar aves marinhas como “estações móveis de amostragem” pode oferecer um meio prático de monitorar mudanças ao longo do tempo, especialmente em regiões remotas onde navios e coletas diretas no oceano são restritos e caros.
Em essência, o estudo defende o seguinte: em vez de depender apenas do que os modelos preveem, é possível usar animais vivos que já percorrem os oceanos como uma rede biológica de monitoramento.
E o que os dados indicam é que a exposição ao mercúrio varia fortemente conforme a região, a dieta e o estilo de forrageio - e que alguns locais que imaginamos conhecer bem podem exigir uma segunda análise.
No mínimo, fica o lembrete de que o oceano não é apenas química em uma planilha. Ele é um sistema em movimento, e os animais que vivem nele talvez sejam o registro mais claro que temos do que está acontecendo de verdade.
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