Uma igreja antiga acima do Mar da Galileia trouxe à luz algo inédito para a arqueologia: dois espaços destinados ao batismo dentro de uma única catedral.
Essa configuração muda o que se imaginava sobre como o batismo podia ocorrer numa mesma comunidade, sugerindo ritos paralelos ou práticas que se transformaram ao longo do tempo no mesmo ambiente sagrado.
Salas soterradas ganham voz
Ao retirar os escombros deixados pelo terremoto de 749, os escavadores revelaram, nas dependências ao sul da catedral, pisos de pedra, divisórias de mármore e duas pias batismais.
Enquanto avançava por entre o desabamento, o arqueólogo Dr. Michael Eisenberg, da Universidade de Haifa, relacionou a pia instalada num canto a uma segunda sala de batismo.
Como o conjunto já possuía um batistério ao norte, a descoberta tornou Hippos a única catedral antiga conhecida com duas salas batismais.
Essa duplicidade rara não esclarece, por si só, o motivo da criação do segundo ambiente, mas faz com que cada objeto encontrado ao redor passe a ter um peso interpretativo maior.
Cidade acima da Galileia
Situada a cerca de 2 km a leste do Mar da Galileia, Hippos passou de fundação selêucida a cidade cristã.
No século VI, pelo menos sete igrejas existiam dentro das muralhas, o que fazia de Hippos o único centro cristão do lago.
A catedral era a maior entre essas igrejas; escavações de resgate nos anos 1950 expuseram elementos importantes, porém sem uma publicação completa.
Depois da conquista islâmica em 635 d.C., a cidade entrou em declínio por décadas, até o terremoto de 18 de janeiro de 749 d.C.
Primeiro espaço de batismo
Muito antes da abertura da nova trincheira, os pesquisadores já tinham certeza de que a catedral possuía um photisterion, uma sala destinada ao batismo.
A água chegava à pia do norte por uma tubulação e era escoada em seguida, favorecendo um rito com água corrente, não uma imersão em água parada.
Inscrições em grego datam a última reforma conhecida desse ambiente em 590/1 d.C., evidenciando mudanças anteriores ao surgimento da bacia menor.
Com esse padrão estabelecido pelo conjunto mais antigo, a pia do sul parece uma adição deliberada, e não um arranjo casual.
Surge a bacia do canto
Além do limite da basílica, a ala sul reunia dois salões e um cômodo a leste, onde uma pia menor foi encontrada posicionada num canto.
Colocada sobre o piso de pedras talhadas da catedral, a bacia dá a impressão de ter sido instalada após a fase mais recente de reformas.
Diferentemente da pia do norte, esta não apresentava dreno; por isso, os responsáveis provavelmente a enchiam e esvaziavam manualmente.
Essa diferença sugere uma função distinta - seja para bebês, para um rito separado ou para cerimónias específicas daquele espaço.
O bloco de pedra
Próximo da pia menor estava um bloco de mármore com três cavidades idênticas, sem qualquer paralelo arqueológico conhecido.
Com 42 cm de comprimento e cerca de 23,5 kg, a peça era robusta demais para ser tratada como simples descarte.
A primeira hipótese foi compará-la a uma mensa ponderaria, mesa pública usada para medir mercadorias, mas essa interpretação foi descartada.
“À primeira vista, o bloco se parece com uma mensa ponderaria (mesa pública de medição); no entanto, as cavidades são idênticas e não têm saídas na parte inferior”, afirmou o Dr. Eisenberg.
Conjunto de objetos rituais
Espalhados ao lado da bacia, outros achados indicaram que o espaço do canto abrigava mais do que um único equipamento litúrgico.
Um relicário - recipiente para restos associados a santos - apareceu nas proximidades, junto de um candelabro de bronze e um bloco de suporte esculpido.
Pesando cerca de 42 kg, o relicário de mármore parece ter sido feito para permanecer no lugar, em vez de circular entre cerimónias.
Em conjunto, esses elementos apontam que a sala unia batismo e veneração de santos, e não atuava como uma simples capela lateral.
Óleo e água
Nos ritos cristãos antigos, era frequente o batismo ser acompanhado por óleo, assinalando preparação antes da imersão e bênção após ela.
Colocado junto à pia, o bloco de três cavidades se encaixa de modo particularmente convincente nessa sequência, sobretudo se aplicações repetidas tivessem importância.
“A dupla unção, antes e depois do batismo, é bem conhecida como parte dos ritos cristãos antigos, por isso a ideia de que o bloco guardava óleos é muito plausível”, disse Eisenberg.
Ainda assim, os escavadores não conseguiram determinar se as cavidades continham óleos diferentes ou um único óleo usado três vezes.
Por que duas câmaras
Uma interpretação é prática: duas pias poderiam permitir batismos simultâneos, atendendo grupos diferentes ao mesmo tempo.
Outra possibilidade se apoia no tamanho: a piscina maior do norte seria mais adequada a adultos, enquanto a bacia menor do sul pode ter servido melhor a bebês.
Uma terceira via considera a função anterior do espaço como um martyrion, isto é, um santuário associado a um santo.
Nenhuma dessas hipóteses resolve o enigma, mas todas sugerem que a segunda bacia respondia a uma necessidade ritual concreta.
O que ainda está enterrado
Como apenas uma parte da ala sul foi aberta, o desenho completo do conjunto continua desconhecido.
É possível que um cômodo contíguo tenha funcionado como área de espera para quem seria batizado, mas isso ainda não passa de incerteza.
A infraestrutura moderna do parque hoje impede a abertura de trincheiras maiores, e o projecto mantém escavações mais amplas a cada temporada.
Essa limitação deixa a catedral parcialmente sem resolução, ao mesmo tempo que preserva a possibilidade de que futuras escavações esclareçam melhor o quadro.
Repensando uma única catedral
O que permanece em Hippos não é apenas um plano arquitectónico incomum; trata-se de um registo raro de ritual em prática.
As duas pias, os objectos concentrados no mesmo ambiente e a pedra sem explicação indicam que cristãos locais incorporaram flexibilidade ao batismo sem deixar instruções por escrito.
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