Pessoas sepultadas num túmulo da Idade da Pedra perto de Paris antes e depois de 3000 a.C. pertenciam, em grande medida, a duas populações diferentes, segundo um estudo recente.
O achado indica que uma comunidade local entrou em colapso e, mais tarde, foi substituída por recém-chegados.
O túmulo megalítico ficava próximo a uma comuna do norte da França, a cerca de 48 km ao norte de Paris, chamada Bury. Uma das câmaras de pedra reuniu enterros de dois períodos bem distintos, separados por um intervalo de silêncio.
Colapso populacional na Idade da Pedra
Uma equipa liderada por Frederik V. Seersholm, do Globe Institute da Universidade de Copenhaga (UCPH), examinou o DNA preservado nos dentes de 132 pessoas.
Os resultados indicaram que os indivíduos sepultados antes e depois desse hiato não tinham uma ligação de ancestralidade próxima.
Os mais antigos se aproximavam geneticamente de grupos agrícolas da Idade da Pedra do norte da França e da Alemanha, enquanto os enterramentos posteriores mostravam vínculos mais fortes com o sul da França e com a Península Ibérica.
Essa separação transforma o túmulo num registo de substituição populacional, mas mantém em aberto a questão mais difícil: o que provocou a rutura inicial.
DNA sem continuidade
Com o DNA antigo, os investigadores puderam comparar os restos humanos sem depender da disposição das sepulturas. Eles atribuíram 74 amostras à fase mais antiga e 51 à fase posterior ao período de pausa.
“Vemos uma rutura genética clara entre os dois períodos”, disse Seersholm, um dos principais autores do estudo.
Como não houve parentes próximos atravessando o hiato, a interrupção provavelmente refletiu perda populacional em Bury, e não uma simples mudança familiar ao longo do tempo.
Raízes do sul chegam
A comunidade mais recente apresentava as ligações genéticas mais próximas com o sul da França e a Península Ibérica, hoje em grande parte Espanha e Portugal.
Nesse conjunto, mais de 80% da ancestralidade foi rastreada até a Ibéria, ao passo que o grupo anterior parecia mais misto.
Por volta de 2900 a.C., essa ancestralidade meridional avançou para norte, alcançando a Bacia de Paris e substituindo parcialmente linhagens locais.
Os recém-chegados não apagaram de imediato todos os vestígios das populações anteriores, mas a evidência do sítio não sustenta uma continuidade completa.
Padrões familiares no túmulo
As regras de sepultamento determinam quem passa a integrar um túmulo ao longo do tempo, e a análise mostrou uma mudança marcada nos padrões de parentesco.
Na fase inicial, 55 de 72 pessoas analisadas tinham um parente próximo enterrado ao seu lado dentro da câmara.
Nos enterramentos posteriores, havia apenas 21 indivíduos aparentados entre 53, e uma linhagem masculina destacou-se com mais força do que antes.
Assim, a seleção de quem era sepultado ali refletia também poder social, e não só biologia, porque muitas mulheres nunca foram colocadas na câmara.
Doenças identificadas nos ossos
A doença ofereceu mais uma pista - embora a peste também já tenha sido encontrada em pelo menos 17% dos indivíduos de sepulturas da Idade da Pedra na Escandinávia.
A triagem detetou patógenos, microrganismos capazes de causar doença, incluindo a bactéria da peste Yersinia pestis e a bactéria da febre recorrente Borrelia recurrentis.
Em Bury, a peste apareceu em três amostras antigas e numa amostra tardia - números baixos demais para um veredito simples sobre o colapso.
“Podemos confirmar que a peste estava presente, mas a evidência não a apoia como a única causa do colapso populacional”, afirmou o professor Martin Sikora, autor sénior do estudo.
Mortes jovens sugerem sinais de crise
Os padrões etários tornaram a fase inicial ainda menos parecida com um retrato “normal” de cemitério da região.
Crianças e jovens morreram em proporções invulgarmente altas, algo que muitas vezes aponta para guerra, fome ou doença epidémica.
Por si só, porém, esse tipo de mortalidade não identifica a causa, porque um crescimento populacional rápido também pode distorcer a distribuição de idades observada em sepulturas.
Além disso, um túmulo preserva apenas uma parte dos mortos; a comunidade viva pode ter sofrido perdas para além das paredes de pedra.
As florestas regressaram entre os enterros
O pólen da Bacia de Paris acrescentou um sinal ambiental ao intervalo entre as duas fases de enterramento em Bury.
De 2900 a 2500 a.C., as florestas voltaram a crescer onde áreas abertas de pastoreio e campos provavelmente tinham diminuído.
Esse regresso das árvores é relevante porque menos agricultores, menos animais e menos queimadas costumam permitir que a mata retome terreno anteriormente usado na paisagem.
Como os campos podem desaparecer dos registos de pólen por várias razões, o conjunto de dados sugere pressão e instabilidade, sem apontar um único gatilho.
A construção de monumentos terminou
A edificação de túmulos coletivos no noroeste da Europa também abrandou por volta do mesmo período amplo em que os enterros foram interrompidos.
Em muitas regiões, os megálitos - grandes monumentos de pedra - reuniram os mortos durante gerações antes de deixarem de ser utilizados.
Em Bury, quem construiu e usou primeiro o monumento não foi o mesmo grupo que regressou mais tarde.
Assim, o fim das obras pode refletir menos comunidades capazes de organizar trabalho coletivo, e não apenas uma mudança de gosto.
Um padrão europeu mais amplo
Outros dados europeus agora situam Bury dentro de um declínio populacional mais amplo em grande parte do noroeste da Europa.
Mais tarde, grupos do Campaniforme, associados a um estilo de cerâmica difundido, levaram nova ancestralidade ao noroeste europeu.
Alguns séculos depois, pessoas com raízes em grupos pastoris das estepes orientais misturaram-se às linhagens locais.
Bury, portanto, regista um momento anterior, quando comunidades agrícolas do sul avançaram para norte antes dessas chegadas posteriores.
Bury não pode falar por toda a Europa, mas torna o colapso mais palpável em termos humanos. A lição é cautelosa: o DNA mostra substituição, enquanto as causas precisam ser perseguidas nos ossos, nos microrganismos, nas paisagens e no tempo.
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