Em diferentes regiões do Brasil, muitas mulheres descrevem noites fragmentadas, ondas de calor inesperadas, sudorese forte e a impressão de que o próprio corpo “desregula” durante o climatério. Em meio a promessas “naturais”, fórmulas manipuladas e orientações sem comprovação, cresce a pressa por uma solução imediata. Nesse cenário, a aprovação do fezolinetanto pela Anvisa coloca no radar uma alternativa não hormonal para sintomas vasomotores de moderados a intensos.
“\“O avanço é importante porque oferece uma nova rota de cuidado para mulheres que sofrem com fogachos e suores noturnos, mas ele não deve ser tratado como solução universal. A menopausa exige avaliação clínica, escuta e indicação precisa. Nenhum medicamento, mesmo não hormonal, deve ser usado sem prescrição e acompanhamento\”, alerta a ginecologista e pesquisadora Fabiane Berta.”
O que é o fezolinetanto (Veoza) e o que muda com a Anvisa
O fezolinetanto, vendido com o nome Veoza, age no sistema nervoso central, em uma área do cérebro relacionada ao controle da temperatura do corpo. Na menopausa, a redução do estrogênio mexe nesse equilíbrio e facilita crises de calor súbito e suor. A proposta do medicamento é bloquear de forma seletiva o receptor NK3, diminuindo a atividade que desencadeia esses episódios.
Ao contrário da terapia hormonal clássica, esse tratamento não fornece estrogênio nem progesterona. O alvo é a sinalização da neurocinina B, associada aos neurônios KNDy, no hipotálamo. Em termos práticos, a intenção é ajudar o organismo a “recalibrar” o termostato interno e, com isso, reduzir tanto a frequência quanto a intensidade das crises que atrapalham a rotina e o descanso.
“\“Nem toda mulher precisa da mesma conduta. Algumas se beneficiam da terapia hormonal, outras têm contraindicações, receios ou perfis clínicos que pedem caminhos diferentes. A chegada de uma opção não hormonal amplia a conversa médica, desde que a decisão considere histórico, exames, medicamentos em uso e intensidade dos sintomas\”, afirma a médica.”
Evidências dos estudos de fase 3: números e início do efeito
Os estudos de fase 3 usados como base para a aprovação incluíram mais de 3 mil participantes. Em uma das análises, a dose de 45 mg diminuiu a frequência dos sintomas vasomotores em 64% na semana 12. O conjunto de dados também registra efeito percebido desde o primeiro dia de uso.
Suores noturnos, sono e impacto na qualidade de vida
Para além dos calorões, os suores noturnos costumam comprometer sono, rendimento e bem-estar. O programa clínico aponta melhora em indicadores ligados ao descanso, às atividades do dia a dia e ao trabalho - aspectos muitas vezes subestimados quando a menopausa é tratada apenas como uma etapa inevitável. Para várias pacientes, conseguir dormir melhor se traduz em retomar energia, foco e autonomia.
“\“Quando uma mulher deixa de dormir por causa dos suores noturnos, ela não perde apenas horas de descanso. Ela perde disposição, memória, desempenho profissional e estabilidade emocional. Tratar esses sintomas com seriedade é devolver qualidade de vida e até a produtividade, mas sempre com responsabilidade, porque segurança também faz parte do cuidado\”, reforça Fabiane.”
O medicamento é oferecido em comprimido de 45 mg, tomado uma vez ao dia, e existem contraindicações que precisam ser respeitadas. O estudo menciona hipersensibilidade ao princípio ativo, gravidez confirmada ou suspeita e uso concomitante com inibidores moderados ou fortes do CYP1A2, como fluvoxamina. Entre os eventos adversos mais frequentes, são citadas diarreia e insônia.
“\“A novidade chega a um debate marcado por desinformação, medo da terapia hormonal e normalização do sofrimento feminino. Ao mesmo tempo, reforça que a menopausa precisa de diagnóstico, acompanhamento e opções terapêuticas baseadas em evidência. A aprovação amplia possibilidades, mas não substitui a consulta médica nem autoriza automedicação para cada mulher\”, finaliza a especialista.”
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