Estacionar em áreas urbanas - e até em cidades menores - virou um desafio cada vez maior. Com o passar dos anos, dá a impressão de que as vagas ficaram menores. Na prática, o que mudou mesmo foi o porte dos carros.
Segundo um estudo recente da Transport & Environment (T&E), desde o começo do século o comprimento médio dos automóveis novos vem aumentando 1,2 cm por ano. No mesmo período, a altura e a largura médias avançam meio centímetro por ano.
O estudo relaciona esse crescimento ao apetite cada vez maior por SUV na Europa. Apenas nos cinco primeiros meses do ano, foram vendidos mais de dois milhões de SUV (segmentos B e C) no continente, enquanto as vendas de utilitários e compactos recuaram 1,7% e 15,2%, ficando em pouco mais de 1 milhão de unidades.
Para ter uma referência: em 2000, o comprimento médio dos carros era de cerca de 4,09 metros e a largura, de 1,69 metros. Já em 2025, essas médias passaram para 4,38 metros e 1,82 metros, respetivamente.
Com essas tendências, a T&E calcula que, se não houver mudanças, as cidades podem perder entre 8,5% e 14% das vagas totais de estacionamento na via pública até 2040. Essa diferença varia conforme o tipo de rua e também conforme a disposição dos motoristas de manobrar em espaços cada vez mais apertados.
E em Portugal?
Em Portugal, as dimensões-padrão de uma vaga para veículos leves - excluindo as destinadas a mobilidade condicionada - são de 5 metros de comprimento (abaixo da média da UE: 5,20 metros) e 2,30 metros de largura.
Ao cruzar essas medidas com os números do estudo, fica claro que a folga nas cidades portuguesas está diminuindo rapidamente. Com largura média de 1,82 metros (sem considerar os espelhos), um carro atual deixa pouco mais de 20 centímetros livres de cada lado ao estacionar numa vaga padrão em Portugal.
O tamanho ideal
Para a T&E, conter a escalada das dimensões dos automóveis é decisivo para proteger o espaço urbano. Se os modelos novos continuarem com medidas parecidas com as dos carros que saem de circulação, o tamanho médio da frota tende a se manter relativamente estável - sem criar pressão extra sobre o espaço disponível nas cidades. A entidade aponta 4,25 metros de comprimento e 1,77 metros de largura como referência para um automóvel com dimensões adequadas.
Se a tendência não for revertida, a queda no número de vagas pode levar prefeituras a transformar ainda mais espaço público em áreas de estacionamento, reduzindo o que sobra para calçadas, ciclovias, áreas verdes e outros usos coletivos.
Outras consequências
O efeito não se limita ao estacionamento. O estudo chama atenção para o fato de que carros maiores - especialmente com capôs mais altos - aumentam o risco para os utilizadores mais vulneráveis da via pública.
Mantido o ritmo atual, a T&E projeta cerca de 2600 mortes adicionais de pedestres, ciclistas e motociclistas até 2040, sendo 79 crianças. Até lá, a mortalidade infantil em atropelamentos pode ficar 40% acima daquela observada num cenário em que os carros voltassem às dimensões de 2015.
O consumo de energia também piora. Veículos maiores exigem mais energia para se deslocar e, num contexto de eletrificação crescente da frota, isso significa mais pressão sobre a rede elétrica.
O estudo estima que, até 2040, a Europa precisará de mais 22,5 TWh por ano - equivalente à produção de cerca de 1500 turbinas eólicas adicionais -, o que adicionaria cerca de 7 mil milhões de euros por ano às contas de energia das famílias.
Para a organização, a solução passa por medidas coordenadas em vários níveis: limites máximos de dimensões para carros novos em âmbito europeu, mudanças fiscais nos impostos de registro e circulação, e tarifas de estacionamento progressivas conforme o tamanho do veículo. Algo que já acontece em algumas cidades:
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