Se a sua rotina envolve mais estrada de terra do que asfalto - pense em chuva pesada, lama até onde dá vista e trechos em que “rodovia” é só uma ideia - o Toyota Land Cruiser faz todo sentido. Ele foi feito para aguentar o tranco quando o terreno manda, não quando a prioridade é rodar liso e silencioso.
Em países como o Reino Unido, onde asfalto é a regra, isso joga contra. Só que o Land Cruiser é vendido em 188 países, e a maioria desses mercados não está nem aí para o comportamento em estrada. Por isso, em vez de seguir a onda recente dos SUVs mais “urbanos”, a Toyota dobrou a aposta na capacidade fora de estrada.
A prova está na construção bem tradicional com chassi sobre longarinas (body-on-frame), perfeita para o barro e o uso pesado. O mesmo pensamento aparece nas dimensões: o novo Land Cruiser mantém a mesma distância entre-eixos e o mesmo balanço traseiro do anterior. Hoje em dia, muitos carros crescem bastante de uma geração para outra - mas, se você alonga demais, ele perde facilidade para subir e descer morro e encarar trilhas apertadas.
O outro lado da moeda é que o Land Cruiser deixa a desejar no asfalto. O novo modelo vem com um diesel 4 cilindros 3,0 litros de 171 bhp e 302 lb ft (cerca de 409 Nm), mas com quase 2,5 toneladas ele não tem força de sobra. Até vai bem quando já está embalado na estrada, porém qualquer ultrapassagem vira um exercício de paciência. O Land Rover Discovery com o 3,0 TDV6 pesa 2583 kg, mas entrega 241 bhp e 442 lb ft (aprox. 599 Nm) - não precisa dizer muito mais. O refinamento do Land Cruiser também não chega perto do Disco: basta encostar no acelerador para o motor chacoalhar e fazer barulho demais para um diesel moderno.
O chassi de longarinas também não ajuda a tirar essa sensação meio “pré-industrial”. Mesmo nesta versão topo de linha LC5 com suspensão traseira a ar, o rodar é ruim e nunca parece se acomodar. Há três ajustes de suspensão, mas a diferença entre eles é mínima. E nenhum deles é confortável. Em estrada esburacada, o Land Cruiser fica o tempo todo inquieto e não suaviza as imperfeições do piso - perto dele, o Discovery parece um tapete voador.
Também não é um carro envolvente. Você não espera que um 4x4 desse tipo faça você se sentir um piloto, mas em nenhum momento dá aquela sensação de estar realmente conectado ao ato de dirigir e ao caminho até o destino.
O curioso é que, fora de estrada, o LC muda completamente de personalidade. De repente, você vira parte da ação e sente exatamente o que o carro está fazendo. Ele te mantém informado sobre o que está acontecendo nas rodas. Um deslizamento mínimo para a esquerda na lama? Você percebe na hora e corrige. É surpreendentemente intuitivo e deixa claro onde o Land Cruiser se sente em casa.
O motor também brilha nesse cenário, porque o torque em baixa permite avançar devagar, “rastejando”, e sair de situações complicadas. Seguindo o Disco, há diferentes ajustes de motor e câmbio conforme a necessidade. Existe o Multi-terrain Select com quatro modos (mud and sand, loose rock, mogul e rock), além de um modo crawl com cinco velocidades para passar por pedras ou descer morro bem devagar. A Toyota ainda colocou bloqueio de diferencial central e traseiro. E há até quatro câmeras externas para você não precisar descer e olhar o que está prestes a atingir.
Os comandos poderiam ser mais bem organizados. Alguns ficam no volante, outros se escondem atrás dele, e outros ainda estão lá embaixo no console central. No Disco, a lógica é bem mais clara, e o restante do interior do Land Rover segue a mesma linha. No conjunto, ele parece mais moderno e mais à altura do seu dinheiro - algo na casa de 40 mil libras.
Como no Disco, você tem sete lugares de série no LC5 e, de forma incomum, os dois assentos lá atrás são elétricos. Eles sobem e rebatem de forma totalmente automática - até o encosto de cabeça se guarda ao toque de um botão. Dá para levar dois adultos ali por um trajeto curto sem “sofrer amputação”, mas o porta-malas atrás fica bem pequeno com os bancos levantados.
Parece injusto bater no Land Cruiser. Ele é tão bem resolvido para a sua razão de existir que deveria ser a melhor coisa que dirigimos no ano. O problema é que o Disco existe. E, para a maioria das pessoas por aqui - que não mora a quatro semanas de viagem do concessionário mais próximo - o Landy é a escolha óbvia.
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