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Novo estudo mapeia répteis da Amazônia: 14 centros locais e 22 regiões distintas

Jovem em área verde usando tablet com mapa térmico ao lado de caderno e equipamento eletrônico sobre madeira.

O mundo acompanha a Amazônia porque a sua enorme diversidade de vida ajuda a estabilizar o clima do planeta, mas ainda não sabemos com precisão onde muitas dessas espécies realmente ocorrem.

Um estudo novo mapeou a distribuição dos répteis amazônicos e identificou 14 centros locais de espécies e 22 regiões distintas para serpentes e lagartos.

O resultado serve de alerta para a conservação: o desenho dessas áreas muda a forma de olhar para a floresta e indica que várias espécies em risco persistem perto das bordas, justamente onde ficam mais expostas, vulneráveis e sem proteção.

Mapeando répteis da Amazônia

Ao reunir dados de coleções de museus e registos de campo em toda a Amazônia, 100,966 registos verificados de répteis revelaram padrões que os mapas mais amplos da floresta não captavam.

Com base nesse arquivo, Marco Antônio Ribeiro-Júnior, biólogo da Universidade de Tel Aviv, demonstrou que serpentes e lagartos seguem limites que muitos mapas em escala de toda a floresta deixam passar.

O conjunto de dados abrangeu répteis escamados - serpentes, lagartos e anfisbenas - distribuídos por 780 espécies conhecidas, incluindo 536 que existem apenas na Amazônia.

Essa divisão obriga quem planeja a conservação a ir além dos blocos florestais mais famosos e a rastrear áreas de distribuição pequenas que ficam “escondidas” dentro deles.

A riqueza conta outra história

As maiores contagens de espécies concentraram-se perto do curso médio do rio Amazonas, dos rios Madeira e Purus no Brasil e do Escudo das Guianas, uma antiga região elevada ao norte.

A vegetação explicou grande parte desse desenho, já que a cobertura florestal densa cria micro-hábitats mais frescos e húmidos, onde os répteis encontram alimento, abrigo e condições para reprodução.

Áreas quentes, húmidas e produtivas reuniram muitas espécies, enquanto contrafortes mais frios e margens externas da floresta apresentaram menos espécies no total.

Por isso, olhar apenas para a riqueza de espécies produz um mapa grosseiro: um local com muitas espécies pode, ainda assim, ignorar espécies raras e restritas que existem noutros pontos.

Rios perdem protagonismo

Durante décadas, os grandes rios amazônicos foram tratados como fronteiras rígidas que isolariam os animais em margens opostas.

Os dados com répteis enfraquecem essa ideia, porque a maioria dos centros locais de espécies atravessou rios ou surgiu perto das cabeceiras, e não alinhada aos canais principais.

Trabalhos anteriores com aves também já tinham indicado que os rios alteram quais espécies convivem nas mesmas áreas, sem “cercar” de forma limpa os centros locais.

Os rios continuam a influenciar quais espécies aparecem juntas, mas, sozinhos, não explicam os centros escondidos identificados no mapeamento.

O endemismo concentra-se em poucos pontos

Os centros locais de espécies destacaram-se sobretudo junto aos Andes, a cadeia montanhosa a oeste da América do Sul, no Escudo das Guianas e em alguns cenários de fronteira mais isolados.

Nessas áreas, o endemismo - a ocorrência de espécies encontradas apenas num lugar - aumentou onde rochas, declive, vegetação, calor e chuva mudam em distâncias curtas.

Alguns centros abrigaram linhagens antigas, enquanto outros concentraram espécies que parecem ter surgido mais recentemente no próprio local.

Essa combinação reforça o risco de proteger apenas as zonas mais “ricas”: espécies de distribuição estreita podem desaparecer nas bordas negligenciadas.

As bordas concentram o risco

O aviso mais forte para os répteis recai hoje sobre as bordas da floresta, em especial no sul da Amazônia e nos contrafortes andinos - as encostas mais baixas ao lado dos Andes.

A desflorestação atingiu algumas das regiões mais afetadas para répteis, onde a perda de floresta subiu para cerca de 18% a 30%.

Uma análise de 2024 sobre a floresta amazônica apontou que 10% a 47% das florestas podem enfrentar distúrbios combinados até 2050.

Locais que já ultrapassaram 20% de perda florestal exigem resposta mais rápida, porque a mortalidade de árvores e o ressecamento podem empurrar os danos para áreas mais afastadas.

A proteção não acompanha as espécies

Algumas dessas áreas de refúgio contam com forte cobertura de unidades protegidas, e uma região remota de terras altas ultrapassa 90% de proteção.

Em contraste, o Vale do Mantaro, no Peru, não tem qualquer cobertura protegida, apesar de os seus répteis formarem um agrupamento local bem definido.

Como uma avaliação global de répteis concluiu que mais de um quinto das espécies está ameaçado, essas lacunas ganham peso à escala mundial.

A proteção insuficiente é mais grave onde as espécies não conseguem simplesmente deslocar-se: quando a floresta desaparece, desaparece também todo o lugar que elas ocupam.

Registos raros fazem diferença

Registos escassos muitas vezes indicam locais onde a ciência mal chegou, e não lugares onde as espécies estão seguramente ausentes.

A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (Lista Vermelha da IUCN), base global sobre risco de extinção, deixou 69 escamados amazônicos com informação insuficiente para um parecer claro.

Outras 125 espécies tinham cinco ou menos registos na Amazônia e não possuíam avaliação no conjunto de dados da equipa.

Esses dossiês frágeis tornam as expedições de campo urgentes, porque uma espécie conhecida apenas numa encosta pode desaparecer antes que alguém consiga observar o declínio.

Reservas conectadas ajudam

Uma rede com foco nas bordas protegeria muitos centros locais e, ao mesmo tempo, atrasaria a perda de habitat antes que ela avance para o interior da floresta.

Corredores ecológicos - faixas protegidas que permitem a continuidade do movimento da fauna e dos processos naturais - podem ligar reservas através de fronteiras políticas.

Diretrizes internacionais sobre corredores indicam que reservas conectadas funcionam melhor do que áreas isoladas em paisagens fragmentadas.

Para répteis com áreas de distribuição pequenas, a conectividade significa menos populações encurraladas e mais oportunidades de juvenis encontrarem habitat adequado.

Limites reforçam a cautela

Mapas muito abrangentes podem esconder erros, e os autores reconheceram limitações ao desenhar áreas de ocorrência numa floresta tão vasta.

Eles utilizaram polígonos convexos mínimos, formas simples traçadas em torno dos pontos conhecidos, porque muitas espécies raras não tinham registos suficientes para modelos mais refinados.

Essa opção pode “alisar” lacunas, mas manteve comparações consistentes entre centenas de serpentes, lagartos e anfisbenas.

Descobertas futuras podem ajustar fronteiras, porém o alerta geral tende a manter-se: a conservação de répteis precisa de registos verificados, não de suposições.

Protegendo todos os répteis da Amazônia

Os répteis amazônicos transformaram registos dispersos de museus num mapa de conservação mais nítido, em que riqueza de espécies, singularidade local e risco florestal já não apontam para os mesmos locais.

Planear com base nesse mapa pode antecipar a proteção de répteis raros, mas também exige mais trabalho de campo nas regiões de fronteira, onde o conhecimento ainda é mais limitado.

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