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Entrevista com Stéphane Priami: Credibom, Crédit Agricole e a virada da CA Consumer Finance (CACF) no setor automóvel

Homem explicando gráficos de crescimento em tablet durante reunião com mulher em escritório moderno.

O encontro aconteceu durante a apresentação anual do Credibom - subsidiária portuguesa do Crédit Agricole - ocasião em que conversámos com Stéphane Priami, CEO adjunto do Crédit Agricole e CEO da CA Consumer Finance (CACF).

Apesar de rápida, a entrevista foi carregada de ideias: o executivo falou sobre as mudanças que estão a redesenhar o setor automotivo e sobre como o sistema bancário pode atuar como motor (e não apenas como coadjuvante) dessa virada. Para Stéphane Priami, essa transformação não se limita ao aspecto mais óbvio e visível: o carro elétrico.

Para compreender essa alteração de paradigma no que ele chamou de «motor da economia» europeia, Stéphane Priami pediu que fôssemos além do produto e “olhar além dos automóveis”.

Uma transformação silenciosa

No último Salão de Paris - no qual a Razão Automóvel esteve presente - houve um sinal claro de mudança. Para além dos holofotes sobre os lançamentos e das marcas tradicionais, existia outro tipo de destaque no evento.

De um lado, o brilho crescente das marcas chinesas - mais numerosas e cada vez mais competitivas. Do outro, uma presença que saltava aos olhos: bancos e serviços de financiamento ocupando espaço entre os expositores.

A razão para esse protagonismo é direta. Em um setor que acelera a passagem do modelo de propriedade para o modelo de assinatura, o know-how financeiro acumulado por décadas - com instrumentos como o leasing - deixa de ser apenas suporte e se transforma em oportunidade e vantagem competitiva relevante.

É nesse “tabuleiro de xadrez” que Stéphane Priami pretende colocar a CA Consumer Finance (CACF) na dianteira até 2025. “O setor automóvel já representa 40% da nossa atividade, até 2025 pretendemos chegar aos 50%”, revelou.

Levando essa meta para números, na condição de parte da joint venture com a Stellantis, o CACF quer alcançar uma frota de 1 milhão de automóveis até 2026. Já a aquisição de 100% do FCA Bank deverá corresponder a “uma atividade no valor de 10 mil milhões de euros”, disse o executivo, ligado ao Crédit Agricole desde 1987.

Os riscos e oportunidades da eletrificação

Logo no começo da conversa, Stéphane Priami sugeriu mudar o foco: deixar o automóvel em segundo plano e colocar o usuário no centro. “É aqui que vamos encontrar as grandes transformações”, afirmou. E, dentro desse movimento, a eletrificação aparece como um dos grandes catalisadores.

Essa evolução, garante, deve continuar: “Há dois anos não acreditaria que seria possível comprar um Tesla de 80 mil euros num processo 100% digital, sem intervenção humana. Hoje é possível. Mas se formos ainda mais longe, muitas pessoas questionam-se se precisam do carro 100% do tempo. A resposta é não. Ou seja, há uma clara oportunidade no que diz respeito aos serviços de subscrição”.

É nesse contexto que ele define como “disruptivo e excitante” que entra o FCA Bank - agora controlado integralmente por este banco francês - para acelerar o passo. Presente em 18 países, o FCA Bank deve se tornar o «braço armado» do CACF nas diferentes frentes do universo automotivo e da mobilidade sustentável: da partilha de carros elétricos às assinaturas de veículos, passando pelo aluguel em todas as durações e, naturalmente, pelo financiamento.

Vale lembrar que mais de um quarto da atividade do FCA Bank vem de acordos com fabricantes e grupos de distribuição - e isso não fica restrito ao ecossistema de marcas da Stellantis. É justamente nesses territórios que, nas palavras de Stéphane Priami, está a segunda grande transformação do setor automóvel para os próximos anos.

A ofensiva chinesa e a concorrência interna

Projeções do setor automotivo indicam que, em cinco anos, 30% dos automóveis deverão ser comprados online. Essa migração está mexendo com as forças do mercado e levando concessionárias a repensarem sua estratégia e sua relação com as montadoras.

Dentro desse cenário, o que se depreende das declarações do dirigente do Crédit Agricole é que o setor financeiro pode funcionar como um fator de «contrapeso», ajudando a reequilibrar a relação entre marcas, importadores e concessionárias.

Ao mesmo tempo, novos players estão chegando ao mercado europeu - em especial marcas chinesas e americanas. Stéphane Priami acredita que elas podem pressionar a indústria europeia no curto prazo: “aquilo que assistimos há 40 anos com as marcas japonesas, vai voltar a acontecer, mas a uma velocidade acelerada”.

Segundo o executivo francês, a explicação para essa aceleração está na eletrificação:

Aposta forte no financiamento verde

Na apresentação de resultados e do plano do Credibom para os próximos três anos, além da digitalização e da mudança de hábitos, outra expressão apareceu repetidamente: financiamento verde. “Queremos ser líderes no financiamento de soluções que acelerem a transição energética em curso”.

Para Stéphane Priami, o avanço dos veículos elétricos pode abrir espaço para o crescimento da banca nos próximos anos: “os consumidores vão precisar de preparar as suas vidas para a utilização de veículos elétricos. Queremos participar nessa mudança, não só através do financiamento automóvel, mas também de todas as necessidades agregadas: do carregamento doméstico à subscrição de serviços”.

No caso do mercado português, depois de um 2022 com resultados positivos, ele se diz confiante em relação ao Credibom: “Somos líderes no financiamento ao consumo e no mercado automóvel temos uma fatia muito forte. Nos próximos anos queremos reforçar esta posição”.

Uma parcela desse plano passa pelo portal Pisca Pisca, o buscador de carros usados, que, nas palavras de Stéphane Priami, “terá muitas novidades em 2023”, concluiu.

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