Um novo estudo mostrou que filhotes de chapim-azul criados em ninhos que continham bitucas de cigarro exibem indicadores sanguíneos de saúde mais fortes do que aqueles criados em ninhos sem esse material.
A descoberta faz com que filtros de cigarro descartados sejam vistos como uma ferramenta potencial - embora imperfeita - que algumas aves urbanas usam para proteger os filhotes contra parasitas prejudiciais.
Bitucas de cigarro nos ninhos
Em caixas-ninho próximas a Lodz, na Polónia, o efeito apareceu diretamente nos filhotes em desenvolvimento que cresceram dentro desses ambientes de nidificação alterados.
Michał Glądalski, da Universidade de Lodz, observou que ninhos com bitucas de cigarro deram origem a filhotes com condição sanguínea mensuravelmente melhor do que os de ninhos não tratados.
Considerando as ninhadas acompanhadas, os ninhos esterilizados apresentaram os maiores ganhos, enquanto os ninhos com bitucas registraram melhorias mais discretas, porém constantes.
Os dados sugeriram que o benefício existia, mas não era completo - sinal de um efeito protetor limitado, que precisava ser examinado com mais atenção.
O sangue revela mudanças precoces
Filhotes criados em ninhos com bitucas de cigarro apresentaram sangue com maior capacidade de transportar oxigénio para os corpos em crescimento.
Os cientistas avaliaram a hemoglobina, componente do sangue responsável por carregar oxigénio, e encontraram aumentos claros nesses filhotes.
Também foi identificada uma proporção maior de glóbulos vermelhos, indicando que, no geral, as aves estavam em melhor condição física.
Os níveis de açúcar no sangue permaneceram praticamente estáveis, o que sugere que a principal vantagem veio de uma menor sobrecarga no organismo, e não de uma alteração ampla de stresse.
Por que os parasitas importam
Ninhos quentes e húmidos oferecem a pulgas, ácaros e moscas-varejeiras um local protegido para se reproduzirem ao lado de filhotes que não conseguem escapar.
Biólogos chamam esses organismos de ectoparasitas: parasitas externos que se alimentam de sangue vivendo sobre o corpo, e que retiram nutrientes a cada picada.
Quando essa perda de sangue se acumula ao longo dos dias, os filhotes podem ficar anémicos, crescer mais lentamente e gastar mais energia com reparos.
Por isso os ninhos mais limpos ajudaram mais - e por isso até um efeito repelente moderado pode fazer diferença numa estação de nidificação curta.
Filtros de cigarro associados a menos parasitas
Anos antes do experimento na Polónia, aves na Cidade do México já associavam filtros de cigarro a menores níveis de parasitas, muitas vezes entrelaçando de oito a 10 bitucas nos ninhos.
Um estudo registrou menos pragas nos ninhos de tentilhões-domésticos e pardais-domésticos quando aumentava a quantidade de fibras de bitucas fumadas.
Mais tarde, fêmeas passaram a adicionar ainda mais bitucas depois que carrapatos surgiram nos ninhos - um sinal de que o comportamento respondia a um problema, em vez de ocorrer ao acaso.
Esse trabalho anterior fez com que o resultado na Polónia parecesse menos um acaso e mais um padrão que se repete entre espécies e cidades.
Benefícios com custos escondidos
A proteção veio acompanhada de um preço, porque filtros fumados trazem muito mais do que nicotina e cinzas presas nas fibras.
Uma revisão aponta que bitucas de cigarro podem libertar nicotina, arsénio, metais pesados e cerca de 4.000 substâncias químicas.
Outro estudo observou aumento de dano genotóxico - lesões no ADN dentro das células - no sangue de tentilhões-domésticos à medida que cresciam as fibras de bitucas.
Ajuda de curto prazo e possível prejuízo de longo prazo podem coexistir no mesmo ninho, o que impede que esse comportamento pareça totalmente benéfico.
Aproveitando estratégias antigas de defesa
Os chapins-azuis (Cyanistes caeruleus) não partem do zero: em alguns locais, os ninhos já incluem pedaços de ervas frescas.
Essas folhas libertam compostos voláteis - substâncias que evaporam com facilidade - e o odor pode tornar os ninhos menos atrativos para parasitas.
Ao usar lixo urbano que carrega substâncias repelentes semelhantes, aves das cidades podem estar a copiar uma defesa antiga com materiais novos.
Sob essa perspetiva, filtros de cigarro deixam de ser apenas lixo descartado e passam a funcionar como um substituto grosseiro das plantas que os chapins-azuis evoluíram para usar.
As cidades reescrevem escolhas
As cidades inundam as aves com materiais que não existiam em habitats antigos, de cordões e plásticos a filtros de tabaco queimados.
Os chapins-azuis parecem particularmente propensos a explorar cavidades moldadas por pessoas, o que pode ajudar a explicar ninhos construídos em cinzeiros ao ar livre.
Visto assim, o comportamento parece menos um erro e mais uma solução improvisada para o ambiente urbano.
“As aves são inteligentes”, disse Glądalski. Ser inteligente não significa ser seguro, mas significa que a fauna urbana consegue improvisar mais rápido do que as pessoas costumam perceber.
Por que os ganhos foram modestos
Os níveis de parasitas nunca despencaram nos ninhos com bitucas de cigarro; no conjunto, os ninhos esterilizados continuaram muito mais limpos, com menos ácaros, pulgas e moscas-varejeiras.
Como os pesquisadores colocaram apenas dois filtros usados em cada ninho, o tratamento pode ter sido fraco demais para impregnar o revestimento.
“É muito difícil obter amostras grandes com aves no campo”, disse Bush. Isso tornou o estudo convincente sem torná-lo definitivo, sobretudo quanto à quantidade de tabaco que as aves precisariam adicionar para ganhar proteção.
Próximos passos para a pesquisa
A seguir, os cientistas precisam acompanhar as aves para além da fase em que os jovens deixam o ninho, quando custos ocultos ou benefícios tardios podem finalmente aparecer.
Um seguimento mais longo pode revelar se os ganhos sanguíneos precoces se traduzem em sobrevivência, reprodução futura ou em danos que só se manifestam meses depois.
Os pesquisadores também precisam testar diretamente ninhos em cinzeiros, porque tanto a conveniência quanto o controlo de parasitas podem levar as aves aos mesmos locais.
Até lá, o caso continua a ser um exemplo claro de adaptação sob pressão - e não um motivo para deixar lixo tóxico no ambiente.
Chapins-azuis urbanos parecem estar a trocar um resto humano sujo por uma defesa pequena, mas real, durante os dias mais vulneráveis dos seus filhotes.
A pesquisa mostra como a vida selvagem nas cidades pode resolver um problema ao entrar diretamente noutro, com consequências que os cientistas ainda precisam medir.
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