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Democracia no mundo antigo: além de Atenas e Roma

Equipe de quatro arquitetos analisando maquete de projeto urbano em mesa iluminada com laptop ao lado.

A maioria de nós aprendeu uma versão bem simplificada da história: a democracia teria nascido na Atenas antiga, ganhado forma na Roma republicana e, fora desse eixo, o mundo teria sido dominado por reis ou chefes fortes. Só que essa narrativa pode ser estreita demais.

Um estudo recente indica que formas de governo partilhadas e mais inclusivas eram muito mais comuns no mundo antigo do que costumamos imaginar.

Ao examinar evidências de 31 sociedades distribuídas pela Europa, Ásia e Américas, os pesquisadores concluíram que muitas delas criaram mecanismos para limitar governantes e abrir algum espaço de participação para pessoas comuns.

Esses arranjos não eram democracias no sentido atual, mas com frequência espalhavam a autoridade por diferentes setores da sociedade em vez de concentrá-la apenas no topo. Isso enfraquece a ideia de que a democracia foi uma invenção rara e isolada.

Democracia é mais do que eleições

Com frequência, deixamos de reconhecer a democracia em sociedades antigas porque procuramos traços contemporâneos, como eleições regulares, partidos políticos e constituições escritas.

O problema é que eleições podem coexistir com autoritarismo - e há autocratas que chegaram ao poder pelas urnas. Por isso, o estudo adotou outro caminho.

Gary Feinman lidera o trabalho e é o curador de Antropologia Mesoamericana e Centro-Americana no Field Museum.

“Eleições não são exatamente a melhor métrica para definir o que conta como democracia, então, com este estudo, tentamos nos apoiar em exemplos históricos de organização política humana”, afirmou.

Os cientistas organizaram a análise em duas dimensões amplas. A primeira é o grau de concentração do poder: uma pessoa, ou uma única instituição, dominava as decisões?

A segunda é o nível de inclusão: pessoas comuns conseguiam participar da governança de algum modo relevante, ou a maior parte da população ficava excluída?

Esse enquadramento permite comparar sociedades que deixaram registros escritos com outras que não deixaram - e também abre espaço para sistemas políticos que não se parecem com democracias modernas, mas ainda assim envolvem partilha real de poder.

Lendo o poder no desenho das cidades

Como muitas sociedades antigas não deixaram textos, a equipe recorreu fortemente ao que a arqueologia faz melhor: inferir organização social e política a partir de evidências materiais.

Para Feinman, a maneira como as pessoas construíram seus centros urbanos revela bastante sobre como a autoridade era exercida.

“Acho que o uso do espaço diz muito”, disse ele. “Quando você encontra áreas urbanas com espaços amplos e abertos, ou quando vê edifícios públicos com áreas largas onde as pessoas podem se reunir e trocar informações, essas sociedades tendem a ser mais democráticas.”

Assim, quando uma cidade cria repetidamente grandes locais de encontro público - praças, pátios largos, estruturas de assembleia - isso sugere que se esperava que muita gente se reunisse para conversar, debater ou, ao menos, acompanhar como as decisões eram tomadas.

Isso não comprova, por si só, a existência de democracia. Ainda assim, aponta com força para um cenário em que a política não foi planejada para ocorrer sempre a portas fechadas.

Como a autocracia aparece

Em contrapartida, há padrões arquitetónicos que indicam o movimento oposto.

“Se você vê pirâmides com um espaço minúsculo no topo, ou planos urbanos em que todas as estradas conduzem à residência do governante, ou sociedades em que quase não há espaços onde as pessoas possam se reunir para trocar informações, tudo isso funciona como proxy para casos mais autocráticos”, explicou Feinman.

O grupo também considerou a arte e os sepultamentos. Representações de governantes como figuras gigantescas, quase divinas, ou túmulos monumentais dedicados a líderes individuais, geralmente sinalizam autoridade concentrada.

Já locais em que governantes aparecem raramente - ou em que a imagem pública evita elevar um único indivíduo - tendem a indicar menor centralização do poder.

Acompanhando o poder entre sociedades

Para fazer comparações sistemáticas, os pesquisadores analisaram construções, traçados urbanos, inscrições, sistemas administrativos e indícios de desigualdade de riqueza.

A partir disso, a equipe montou um “índice de autocracia”, posicionando cada caso ao longo de um espectro que vai de altamente autocrático a fortemente coletivo.

O resultado mais chamativo é que, quando Atenas e Roma deixam de ser tratadas como os únicos modelos possíveis, aparece uma distribuição muito mais ampla de sistemas políticos no mundo antigo.

“Entre arqueólogos, existe uma ideia arraigada de que Atenas e a Roma republicana foram as únicas duas democracias do mundo antigo, e que, na Ásia e nas Américas, a governança era tirânica ou autocrática”, afirmou Feinman.

“Essas descobertas mostram que tanto a democracia quanto a autocracia eram difundidas no mundo antigo”, acrescentou o coautor do estudo, David Stasavage, professor da Universidade de Nova York.

Os pesquisadores enfatizam que isso pode soar inesperado para muita gente. Segundo eles, diversas sociedades encontraram maneiras de partilhar poder e promover inclusão, o que revela raízes históricas profundas e amplas para a democracia.

O verdadeiro motor da autocracia

Uma das conclusões mais interessantes diz respeito ao que não explica a autocracia. De acordo com a equipe, nem o tamanho populacional nem o número de “níveis” políticos ajudaram a prever se uma sociedade acabaria dominada por líderes fortes.

Isso contraria a suposição comum de que sociedades maiores, por natureza, exigiriam uma autoridade mais centralizada.

No lugar disso, Feinman afirma que o melhor preditor foi a forma como governantes financiavam o próprio poder. Sociedades em que líderes controlavam grandes fontes de receita - como minas, comércio de longa distância, trabalho escravizado ou saque de guerra - tinham maior probabilidade de se tornar autocráticas.

Quando governantes têm acesso direto a riqueza que não depende de cooperação ampla, eles podem evitar negociações com os cidadãos e concentrar autoridade. Em contraste, sociedades sustentadas por impostos abrangentes ou por trabalho partilhado tendiam a distribuir mais o poder.

Se líderes dependem de muitos lares para obter recursos, governar apenas pela força fica mais difícil. Consentimento, negociação e responsabilização passam a ser mais necessários. A lição soa muito atual: a origem do dinheiro influencia a forma como o poder se organiza.

Quando a partilha de poder reduziu a desigualdade

O estudo também identificou que sociedades com governança mais inclusiva, em geral, exibiam níveis menores de desigualdade económica.

“Essas descobertas desafiam a ideia de que autocracia e grande desigualdade são resultados naturais ou inevitáveis da complexidade ou do crescimento”, disse Feinman.

“A história mostra que pessoas no mundo todo criaram sistemas políticos inclusivos - mesmo em condições difíceis.”

Isso não significa que sociedades inclusivas fossem utopias. Ainda assim, o padrão sugere que partilha de poder e desigualdade extrema nem sempre caminham juntas. Também indica que sociedades complexas podem crescer sem, automaticamente, escorregar para o domínio de uma pequena elite.

Lições para o mundo de hoje

Os autores são bastante claros sobre por que consideram o tema relevante agora. Atualmente, muitos países enfrentam maior concentração de riqueza e polarização política, e alguns colocam normas democráticas à prova.

Compreender os “sinais de alerta” históricos da autocracia - e as condições que sustentam a partilha de poder - não é apenas um exercício académico.

“Quando você faz arqueologia, está procurando padrões que contenham lições potenciais para o mundo de hoje”, disse Feinman.

“Nossas descobertas neste estudo nos dão uma perspetiva e uma orientação que não tínhamos antes, e elas são extremamente relevantes para as nossas vidas.”

A mensagem mais ampla chega a ser tranquilizadora: a democracia nas sociedades não é um milagre raro que aconteceu uma única vez no Mediterrâneo. Em muitos lugares e sob condições variadas, seres humanos inventaram maneiras de limitar o poder e incluir mais gente na governança.

Se há algo que o mundo antigo sugere é que sistemas políticos são flexíveis - e que pessoas comuns, repetidas vezes, encontraram meios de exigir voz, mesmo quando a tendência “padrão” parecia puxar para a hierarquia.

A pesquisa foi publicada na revista Avanços da Ciência.

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