A prática regular de atividade física é uma das medidas mais importantes que podemos adotar para proteger a nossa saúde.
Mesmo assim, em vários países, muita gente se movimenta menos do que o recomendado.
Aproximadamente 1 em cada 3 adultos não atinge os níveis sugeridos de atividade física, e 4 em cada 5 crianças entre 11 e 17 anos não chegam à média recomendada de 60 minutos por dia.
Por que a atividade física em família importa
A falta de atividade física aumenta o risco de condições de longo prazo, como o diabetes tipo 2. Ela também pode prejudicar a função cognitiva - os processos mentais que nos permitem aprender, memorizar, manter a concentração e tomar decisões.
No caso das crianças, essas capacidades estão fortemente associadas ao desempenho escolar e às oportunidades futuras.
Para mães, pais e responsáveis, manter-se ativo pode ser especialmente difícil.
As exigências do dia a dia com a família costumam deixar pouco tempo para se exercitar, e a chegada de um filho pode tornar mais difícil sustentar atividades físicas de intensidade moderada a vigorosa.
Como a inatividade física afeta as duas gerações, famílias se tornam um foco relevante para intervenções voltadas a melhorar saúde e bem-estar.
Obstáculos e inspirações
Em uma pesquisa recente, entrevistámos 24 famílias para entender o que facilita ou atrapalha a atividade física e se essas vivências mudavam conforme o contexto socioeconómico.
Vários entraves eram previsíveis. Muitas famílias apontaram o custo de atividades organizadas e a falta de tempo livre como obstáculos para se movimentarem juntas.
Entre famílias com menos recursos, também apareceu com frequência a dificuldade de acesso a instalações locais de desporto e lazer. Já em famílias com mais recursos, esses espaços próximos foram muitas vezes vistos como um apoio importante para continuar ativo.
As crianças, de forma consistente, disseram que ver os pais em movimento as incentivava a participar. Mas essa influência não acontecia apenas num sentido.
Pais e mães de contextos menos favorecidos relataram muitas vezes que os próprios filhos funcionavam como modelos, explicando que o entusiasmo das crianças por se mexer as motivava a tornar-se mais ativas.
Isso indica que a atividade física dentro de casa não é apenas algo que adultos “passam” às crianças. Pais e filhos podem inspirar-se mutuamente, criando hábitos positivos que beneficiam a família inteira.
Por que usamos o rúgbi de fitas
A partir desses resultados, desenvolvemos um programa de atividade física voltado à família, pensado para ajudar adultos e crianças a praticarem exercício juntos.
Optámos pelo rúgbi de fitas porque é uma modalidade divertida, flexível e sem contacto, o que permite que pessoas de idades diferentes participem ao mesmo tempo.
Em seguida, quisemos verificar se uma única sessão de 45 minutos seria capaz de gerar benefícios de curto prazo, mensuráveis, tanto para a saúde física quanto para a função cognitiva.
Benefícios para o cérebro e para o corpo
Participaram do estudo 16 famílias. Em uma ocasião, as famílias fizeram uma sessão de 45 minutos de rúgbi de fitas com aquecimento, atividades de habilidades e jogos curtos. Em outra ocasião, realizaram uma sessão de comparação com descanso sentado.
Antes e depois de cada sessão, os participantes completaram uma série de tarefas em computador para avaliar a função cognitiva, incluindo memória de trabalho, atenção e processamento de informações.
Também analisámos como o organismo reagia a um almoço padronizado, acompanhando os níveis de glicose no sangue e de insulina.
A insulina é um hormónio que ajuda o corpo a regular a glicose. Depois da sessão de rúgbi de fitas, os pais apresentaram concentrações de insulina mais baixas após a refeição do que após a sessão de descanso, embora as respostas de glicose no sangue tenham sido semelhantes.
Isso sugere que o organismo conseguiu lidar com a refeição usando menos insulina.
Encontrámos ainda melhorias de curto prazo na função cognitiva. As crianças tiveram melhor desempenho numa tarefa de memória de trabalho imediatamente após o exercício.
Nos pais, houve melhora no processamento de informações logo depois da sessão, e os efeitos continuaram por até 45 minutos.
Esses resultados precisam ser avaliados com cautela. O estudo incluiu um número relativamente pequeno de famílias e observou os efeitos de apenas uma sessão de exercício. Não é possível concluir se os benefícios se manteriam ou se se acumularem caso as famílias participassem regularmente.
Ainda assim, os dados oferecem um ponto de partida útil. Seja ao aprender na escola, manter a concentração no trabalho ou lidar com as rotinas familiares, dependemos de memória, atenção e processamento de informações ao longo do dia.
Uma forma de exercício que a família consiga aproveitar em conjunto pode também ser mais fácil de sustentar do que uma atividade que acrescente novas exigências a pais e mães já sobrecarregados.
Os nossos achados indicam que a atividade física em família pode ser uma alternativa prática para apoiar a saúde física e o desempenho cognitivo, ao mesmo tempo em que cria uma oportunidade para pais e filhos passarem tempo juntos de forma agradável.
Num mundo em que muitos adultos e crianças têm dificuldade para se manter suficientemente ativos, ampliar oportunidades acessíveis para que famílias se movam juntas merece mais atenção.
Scarlett Fountain, Pesquisadora, Atividade Física e Saúde, Universidade Nottingham Trent; e Karah Dring, Professora Sênior de Exercício e Saúde, Universidade Nottingham Trent
Este artigo foi republicado de A Conversa sob uma licença Commons Criativas. Leia o artigo original.
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