Cientistas identificaram, no sudoeste da Inglaterra, um fóssil de árvore com 377 milhões de anos que sugere que as primeiras árvores também cresceram em ilhas vulcânicas.
A descoberta contraria a ideia, mantida por muito tempo, de que as rochas antigas da região registravam apenas formas de vida abaixo de mares tropicais.
Fóssil de árvore em Devon
Em Saltern Cove, na costa sul de Devon, no sudoeste da Inglaterra, o fóssil oferece um raro vislumbre de uma árvore que teria ficado de pé acima da arrebentação.
Ao analisar fragmentos de casca e de raízes, o geólogo Dr. Kevin Page, da Universidade de Exeter, relacionou o material a árvores primitivas.
Como essas plantas se desenvolviam em terra firme - e não na lama do fundo do mar - o fóssil aponta para a existência de ilhas expostas em um cenário até aqui conhecido sobretudo por rochas marinhas.
Esse “giro” na interpretação é o que dá força ao achado: um único fragmento já sugere que os penhascos de Torbay podem guardar muito mais evidências de ambientes terrestres.
Repensando o Devon antigo
Durante décadas, geólogos valorizaram as rochas de Torbay porque elas registravam mares tropicais quentes próximos ao equador.
Esses trabalhos descreveram calcários devonianos - rochas formadas muito antes dos dinossauros - junto de recifes, corais, argilitos e material vulcânico.
Esse histórico marinho não preparou a comunidade científica para encontrar, no mesmo trecho estreito de litoral, plantas terrestres enraizadas.
O fóssil, porém, indica que havia solo seco perto o bastante para uma árvore nascer, morrer e permanecer preservada em ambiente terrestre.
Vida das primeiras árvores
Pelos padrões de épocas posteriores, a planta era pequena, atingindo apenas cerca de 4 metros (13 pés) de altura.
Os cientistas a classificam como um licopsídeo, um parente antigo, com porte arbóreo, das licófitas que mais tarde originariam formas muito maiores.
O tronco se sustentava em um sistema de raízes rasas, que ajudava a planta a se prender a um terreno solto e a captar água e nutrientes.
Essa estrutura simples ajuda a entender por que poucos fragmentos preservados ainda conseguem dizer tanto sobre o lugar onde ela cresceu.
Indícios anteriores de florestas
Estudos recentes em Somerset e Devon já tinham recuado as evidências de florestas na Grã-Bretanha até o Devoniano Médio.
Outro fóssil de floresta na China mostrou como pequenas árvores licopsídeas podiam se tornar comuns quando esses ecossistemas iniciais se estabeleciam.
Quando comparado a esses locais, o fóssil de Torbay parece menos uma exceção e mais uma peça que faltava.
Ele sugere que a vida arbórea inicial não ficou restrita a grandes planícies, alcançando também terrenos instáveis de ilhas.
Árvores remodelam a terra
À medida que as árvores se espalharam pelo continente, elas reduziram a velocidade da água, retiveram sedimentos e começaram a modificar os solos com as raízes.
Esse “agarre” físico foi importante porque as raízes quebram rochas, deslocam minerais e deixam matéria orgânica que favorece a formação do solo.
Em longos intervalos de tempo, mudanças desse tipo poderiam se refletir em rios, linhas de costa e até no ar acima deles.
Um fóssil isolado em Torbay não comprova tudo isso no âmbito local, mas se encaixa no quadro mais amplo de paisagens terrestres sendo transformadas.
Por que as ilhas importam
Ilhas vulcânicas são ambientes difíceis para florestas jovens, porque rocha recém-formada seca rapidamente e tempestades removem o material solto.
Uma árvore que crescesse ali precisaria de solo suficiente para ancorar as raízes e de um período de calma entre erupções ou temporais para sobreviver.
Por isso, até um pequeno pedaço de casca ganha relevância: ele registra vida em um cenário que raramente fica preservado.
“Este pode ser potencialmente o primeiro registro de uma ilha deserta do Devoniano com árvores, uma descoberta verdadeiramente notável”, disse Page.
Do penhasco à vitrine
Hoje, o público vê apenas um fragmento no Museu de Torquay, mas achados frágeis muitas vezes desaparecem antes que alguém os estude com atenção.
A equipa do museu colocou a peça em exibição em setembro de 2025, enquanto pesquisadores a preparavam para análises académicas mais detalhadas.
Garantir a sua conservação foi essencial, porque chuva, sal e a erosão dos penhascos podem apagar pormenores muito antes de um fóssil ter nova oportunidade.
Essa história prática de resgate também ajuda a explicar por que a descoberta chegou aos cientistas aos poucos, e não em um único dia dramático.
Limites de um único achado
Um exemplar basta para mostrar que árvores estavam presentes, mas não permite saber qual era o tamanho da ilha.
Ele também não esclarece se havia apenas uma árvore isolada ou se ela fazia parte de um bosque esparso.
Sem mais fósseis da mesma camada, os cientistas ainda não conseguem mapear a linha de costa, os solos ou o clima local.
“Esses fósseis são incrivelmente significativos, pois fornecem informações valiosas sobre o ambiente pré-histórico de Torbay, incluindo a presença de ilhas vulcânicas com árvores crescendo nelas”, disse Page.
O que os cientistas procuram
Novos trabalhos de campo devem concentrar esforços em encontrar mais raízes, mais cascas e as rochas ao redor que as conservaram.
Esses detalhes podem indicar se a planta cresceu após erupções, perto de cursos d’água ou em solos finos sobre detritos vulcânicos.
Os pesquisadores também buscarão uma datação mais precisa, já que o momento exato define se este é, de facto, o registro mais antigo conhecido.
Cada novo fragmento teria impacto para além de Torbay, porque os ecossistemas terrestres iniciais ainda aparecem no registro fóssil apenas em relances.
O que vem a seguir
O fóssil de Torbay ganha importância por transformar um achado num penhasco em evidência de que árvores primitivas conseguiam viver em terreno vulcânico instável.
As próximas descobertas dirão se se tratava de um sobrevivente solitário, de um trecho de mata ou de parte de uma cadeia maior de ilhas.
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