A França anunciou um reforço de 1 bilhão de euros para a área de computação quântica, numa tentativa de não ser ultrapassada por Estados Unidos e China. O que está em jogo é a soberania tecnológica - e, no tabuleiro, a Europa não pretende ceder espaço.
O anúncio de Emmanuel Macron em Bruyères-le-Châtel
Na sexta-feira, 22 de maio, Emmanuel Macron foi a Bruyères-le-Châtel, no departamento de Essonne, para visitar um centro de supercomputação e oficializar uma nova dotação de 1 bilhão de euros dedicada ao setor quântico. Trata-se de um aporte de grande porte, que se soma aos 2,3 bilhões de euros já mobilizados desde 2021 nessa frente.
No mesmo pronunciamento, o presidente também detalhou mais 550 milhões de euros para semicondutores, dentro de um programa europeu.
Por que acelerar agora
O recado do governo é direto: a França - e, por extensão, a Europa - já não pode se dar ao luxo de ficar para trás. “A velocidade dos nossos competidores nos obriga a passar para uma marcha acima”, afirmou o presidente, defendendo a necessidade de “mudar de escala” nos investimentos.
A pressão externa se intensificou no mesmo dia, quando o Departamento de Comércio dos Estados Unidos comunicou mais de 2 bilhões de dólares em aportes públicos destinados a empresas privadas de tecnologia quântica.
Mas por que tanto entusiasmo por essa tecnologia?
As promessas da computação quântica são tamanhas que as principais potências passaram a disputar, em ritmo acelerado, uma corrida para evitar qualquer atraso estratégico. Enquanto um computador clássico trabalha com bits, um computador quântico opera com qubits, capazes de existir em múltiplos estados ao mesmo tempo.
Esse efeito - conhecido como superposição - permite lidar com volumes de dados gigantescos em prazos muito menores. As possibilidades apontadas são amplas: acelerar a descoberta de novos medicamentos, transformar a ciência dos materiais e também quebrar - e reforçar - sistemas de criptografia que protegem nossos dados.
Startups francesas e a ambição de industrializar o quântico
Nesse cenário, a França aparece em uma posição relativamente favorável, apoiada por startups consideradas de ponta. A Alice & Bob, que recebeu no mesmo dia o anúncio de investimento por parte da NVIDIA, aposta em uma abordagem própria baseada nos chamados qubits “de gato”.
A Pasqal, cofundada pelo Nobel de Física Alain Aspect, trabalha com átomos neutros e se prepara para uma dupla abertura de capital, no Nasdaq e na Euronext Paris.
Já a C12 concentra esforços em nanotubos de carbono para desenvolver qubits mais estáveis e mais eficientes. São três caminhos técnicos distintos, guiados por um objetivo comum: transformar o quântico em uma realidade industrial.
Uma questão de soberania
“As dependências tecnológicas vão se tornar cada vez mais dependências industriais e estratégicas”, alertou Emmanuel Macron. O presidente defende um ecossistema quântico europeu “concebido, construído e operado por empresas europeias”, livre de legislações com alcance extraterritorial - uma referência pouco disfarçada aos grandes grupos dos Estados Unidos e às suas obrigações legais perante Washington.
O momento, segundo ele, favorece esse tipo de virada. Em meio ao esforço das capitais europeias para diminuir a dependência de fornecedores americanos de IA e de nuvem, Macron incentiva uma Europa que “investe massivamente ainda mais” e que ajusta sua política de concorrência para viabilizar o surgimento de campeões continentais.
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