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Túmulo de 2.850 anos na Sérvia expõe massacre em Gomolava

Arqueólogo escavando e estudando dois esqueletos humanos em cova arqueológica ao ar livre ao entardecer.

Um túmulo com 2.850 anos, na Sérvia, revelou um massacre que parece ter mirado deliberadamente mulheres e crianças, em vez de simplesmente eliminar um único grupo local.

Esse padrão muda o enquadramento do episódio: a matança teria buscado desmontar comunidades no seu núcleo, e não apenas vencer adversários num confronto.

Dentro da sepultura

Numa casa semi-subterrânea desativada em Gomolava, arqueólogos encontraram 77 corpos comprimidos num espaço que antes servira como moradia.

A partir desses restos, Barry Molloy, do College Universitário de Dublin, ajudou a desmontar a versão antiga de que se tratava de uma epidemia.

As análises genéticas identificaram apenas um núcleo familiar próximo - uma mãe e as suas duas filhas - no meio de vítimas, em grande parte, sem parentesco entre si.

Essa combinação afasta a hipótese de doença e aponta mais para um ataque ou uma captura em massa que alcançou uma rede bem mais ampla.

Quem foi morto

Entre os mortos havia 40 crianças entre 1 e 12 anos, 11 adolescentes e 24 adultos. Das 72 pessoas cujo sexo pôde ser determinado, 51 eram do sexo feminino, incluindo 21 dos 24 adultos.

Os dentes dos mais jovens também indicaram muitas meninas, ampliando um desequilíbrio que vai muito além do que sepulturas europeias mais antigas costumam mostrar.

Com números assim, fica difícil ler o enterro como perda colateral, porque a seleção das vítimas foi marcante.

Evidências de violência

Muitas mortes foram causadas por golpes na cabeça, e pelo menos uma vítima ergueu um braço para se defender.

Nos ossos, os agressores atingiram com mais frequência a parte de trás, o topo e o lado direito, um padrão compatível com perseguição, desequilíbrio ou emboscada.

Como cortes e perfurações em tecido mole muitas vezes não deixam marcas no esqueleto, o nível real de violência provavelmente foi maior.

Danos microscópicos no interior dos ossos também indicaram que os corpos foram enterrados pouco depois da morte, nas proximidades de Gomolava.

Para além de uma única aldeia

Vestígios químicos conhecidos como isótopos - marcadores associados à água e aos alimentos locais - mostraram que algumas vítimas passaram a infância bem longe de Gomolava.

Cerca de 35% das pessoas amostradas cresceram a dezenas de quilómetros dali, ou até mais distantes.

Os indícios de dieta também se distribuíram de forma ampla, sugerindo que essas mulheres e crianças vieram de vários assentamentos, e não de um grupo único e fechado.

Antes dessas novas evidências, os restos tinham sido interpretados como famílias de uma só aldeia que teria sido atacada.

Enterrados com respeito

Adornos pessoais, cerâmica, ossos de animais e sementes queimadas transformaram o poço em algo mais intencional do que um simples descarte.

Em vez de retirar os objetos de valor, quem enterrou os mortos acrescentou oferendas e sinalizou o local para a lembrança.

“As vítimas em Gomolava foram enterradas às pressas numa casa semi-subterrânea desativada”, disse Molloy, ao descrever o sepultamento.

Um enterro cuidadoso não ameniza os assassinatos, mas indica que memória e violência estiveram conectadas desde o início.

Como esta sepultura difere

Outras valas comuns europeias mais antigas já haviam mostrado que a violência pré-histórica podia atingir comunidades inteiras, e não apenas homens adultos armados.

Em Potocani, na Croácia, as vítimas eram sobretudo sem parentesco e estavam divididas de forma quase equilibrada entre mulheres e homens.

Koszyce, na Polónia, apresentou outro retrato: ali, as vítimas pertenciam a uma família extensa organizada por vínculos de parentesco.

Essa combinação torna Gomolava incomum mesmo dentro de um registo pré-histórico violento que já inclui várias sepulturas coletivas.

Terra e deslocamento

Na região do rio Sava, no norte da Sérvia, antigos redutos voltaram a ser usados à medida que comunidades reivindicavam terras e reconstruíam poder local.

Ao mesmo tempo, recém-chegados e pastores móveis circulavam pelo mesmo território, elevando o peso das disputas por acesso.

Erguer ou recuperar fortificações podia endurecer reivindicações sobre a terra e intensificar conflitos com grupos que utilizavam aqueles espaços de outras maneiras.

Visto assim, o massacre parece ter sido uma forma de controlo voltada tanto ao território quanto às pessoas.

Quebrando laços sociais

Matar mulheres e crianças foi mais do que eliminar quem não combatia, porque isso atravessou lares, casamentos e nascimentos futuros.

Em redes formadas entre assentamentos, a perda de meninas e mães podia romper ligações por onde circulavam trabalho, cuidado e alianças.

Essas funções também as tornavam valiosas tanto para as suas próprias comunidades quanto para inimigos que, de outro modo, poderiam tê-las escravizado.

Assim, o assassinato seletivo passa a parecer uma estratégia para cortar vínculos regionais, e não apenas derrotar adversários numa única luta.

Visão da violência antiga

Gomolava desloca o foco da violência pré-histórica de simples contagens de corpos para perguntas mais difíceis sobre quem foi escolhido.

Também sugere que alguns agressores já não se prendiam a limites mais antigos que muitas vezes poupavam mulheres e cativos mais jovens.

Como se trata de um único sítio numa única região, ele não pode representar todos os conflitos da Idade do Ferro.

Ainda assim, a sepultura mostra como um breve surto de mortes podia remodelar, ao mesmo tempo, memória, poder e comunidade.

Perguntas que permanecem

Nos ossos, nos objetos e nos indícios de parentesco, a sepultura regista um massacre construído sobre seleção, deslocamento e memória pública.

Os arqueólogos ainda não conseguem identificar os autores, mas as vítimas mostram como o poder na Europa antiga podia ser exercido por meio do aniquilamento.

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