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SALITRE 2026: o debut internacional do F-39E Gripen da FAB e a guerra aérea em rede

Avião de caça prata estacionado em pista com piloto subindo pela escada e equipamentos de monitoramento na frente.
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Exercício Multidomínio SALITRE 2026 e o debut internacional do F-39E Gripen da FAB

Poucos exercícios militares realizados na América do Sul oferecem um cenário tão fértil para observar tendências da aviação de caça quanto o Exercício Multidomínio SALITRE 2026. Mais do que um treinamento combinado entre forças aéreas do continente, ele consolidou, ao longo de cerca de duas décadas, um espaço em que diferentes doutrinas, tecnologias e filosofias de emprego podem ser analisadas sob a mesma moldura operacional.

A edição de 2026 trouxe um peso adicional. Pela primeira vez, o F-39E Gripen da Força Aérea Brasileira (FAB) foi utilizado em uma operação multinacional fora do território brasileiro. Isso marcou não apenas o debut internacional do novo vetor de combate da FAB, como também a primeira oportunidade concreta de observar, na prática, como a transformação impulsionada pelo Programa Gripen reposiciona o Brasil dentro do equilíbrio militar regional.

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À primeira vista, poderia parecer apenas mais uma participação brasileira em um exercício no exterior. Mas reduzir SALITRE 2026 a esse enquadramento é deixar de lado um deslocamento mais profundo: o encontro, no mesmo espaço aéreo, de diferentes gerações de aviação de combate. Operaram lado a lado aeronaves concebidas em períodos muito distintos, representando escolhas de projeto separadas por mais de quatro décadas de evolução tecnológica. Enquanto parte dos vetores presentes reflete o ápice de modernizações em plataformas nascidas na Guerra Fria, o F-39E Gripen foi desenhado para uma realidade essencialmente diferente - a digitalização do campo de batalha, a guerra centrada em redes e a integração de informação em tempo real.

Nessa diferença de concepção está, provavelmente, o ponto mais relevante - mais importante do que comparações do tipo “supertrunfo”, em que velocidade máxima, alcance ou carga bélica parecem resumir a discussão.

Guerra centrada em redes e superioridade informacional

A partir da “Operação Tempestade no Deserto”, em 1991, campanhas aéreas passaram a evidenciar que o paradigma da superioridade aérea mudou de forma decisiva. Por grande parte do século XX, atributos cinemáticos eram tratados como o principal diferencial: velocidade, alcance, teto, manobrabilidade.

A experiência da coalizão liderada pelos Estados Unidos no Golfo - e, depois, os aprendizados nos Bálcãs, no Oriente Médio e, mais recentemente, na guerra entre Rússia e Ucrânia - indicaram outro fator como determinante: a capacidade de obter, processar, compartilhar e explorar informação antes do adversário. Em outras palavras, o combate aéreo moderno deixou de ser somente uma disputa entre aeronaves e passou a ser uma competição entre sistemas de informação.

Esse raciocínio é conhecido como guerra centrada em redes (Network-Centric Warfare). Nele, cada caça deixa de agir como uma plataforma isolada e passa a fazer parte de uma arquitetura ampla de sensores, enlaces de dados e comando e controle. O piloto já não depende apenas do que seus próprios sensores detectam: ele opera como um nó de uma rede, recebendo dados de outras aeronaves, radares em solo, plataformas AEW&C, satélites e centros de comando. A superioridade não fica necessariamente com quem voa mais rápido ou com o “melhor sensor” individual, e sim com quem constrói primeiro uma consciência situacional superior.

O salto conceitual do Gripen E: arquitetura, sensores e ciclo OODA

É nesse cenário que o Gripen E precisa ser entendido. O debate público frequentemente se concentra em velocidade máxima, raio de combate ou quantidade de pontos de fixação para armamentos. Esses parâmetros continuam tendo importância, mas já não são o principal divisor de águas entre sistemas de combate modernos. O avanço real do Gripen está na arquitetura que sustenta a aeronave: desde a origem, o projeto foi concebido como um sistema digital, com uma filosofia de emprego distinta daquela vigente quando plataformas como F-16, Mirage 2000 ou MiG-29 foram originalmente desenhadas.

O radar Raven ES-05 de varredura eletrônica ativa (AESA) ilustra bem isso - e vai além de uma simples evolução do radar mecânico. Ao empregar centenas de módulos transmissores e receptores independentes, o sistema consegue acompanhar múltiplos alvos ao mesmo tempo, reduzir de forma significativa a probabilidade de interceptação eletrônica e operar com alta resistência a interferências. Além disso, a antena instalada em um mecanismo móvel amplia a cobertura lateral, permitindo acompanhar alvos fora do eixo da aeronave sem exigir grandes mudanças de atitude. É uma solução incomum até entre caças atuais, aumentando de modo relevante a flexibilidade tática do Gripen em missões de superioridade aérea.

Ainda assim, concentrar a análise apenas no radar seria insuficiente. O que diferencia o Gripen é a integração entre sensores e sistemas: o Skyward-G (IRST), a suíte de guerra eletrônica, o radar AESA, o enlace de dados e a navegação não trabalham como ilhas. Tudo é processado continuamente pela arquitetura computacional de bordo, que entrega ao piloto uma única imagem tática consolidada. Essa fusão de dados é uma das maiores transformações da aviação de combate nas últimas décadas. Em aeronaves mais antigas, o piloto precisa interpretar separadamente cada fonte; no Gripen, a carga cognitiva é reduzida de maneira drástica, liberando a tripulação para a tomada de decisão - e não para a “administração” de sensores.

Na prática, isso encurta o chamado ciclo OODA (Observe, Orient, Decide, Act), conceito desenvolvido pelo estrategista norte-americano John Boyd e amplamente adotado por forças aéreas ocidentais. Quanto menor o tempo para observar uma ameaça, entendê-la, decidir e agir, maiores as chances de sucesso em combate. O Gripen foi projetado justamente para reduzir esse ciclo, com automação, integração e aceleração da resposta do piloto. Em cenários BVR (Beyond Visual Range), em que segundos podem definir quem detecta primeiro o oponente, essa característica pode ser decisiva.

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Comparações regionais: F-16, Su-30MK2, MiG-29SMP, Mirage 2000P e Kfir C10

Ao comparar o Gripen com os principais vetores em operação na América Latina, o salto tecnológico fica ainda mais nítido.

O Chile segue operando uma das forças aéreas mais modernas da região, baseada em F-16 Block 50 e F-16 MLU comprados dos Países Baixos. Essas aeronaves permanecem extremamente capazes e constituem uma referência regional. Seus sistemas de missão foram atualizados repetidas vezes, elevando bastante o desempenho em relação ao projeto original. Ainda assim, a arquitetura continua ancorada em um conceito concebido nos anos 1970, quando processamento distribuído e fusão de sensores não eram prioridades de projeto.

Isso não significa dizer que o Gripen seja simplesmente “superior” ao F-16 em todos os aspectos - essa leitura seria uma simplificação tecnicamente incorreta. O F-16 é uma plataforma muito madura, amplamente testada em combate e modernizada de modo constante. A diferença central está no fato de o Gripen trazer soluções arquitetônicas mais recentes, já desenhadas dentro da lógica da guerra digital. O contraste entre ambos não se resume à qualidade individual de sensores, mas sobretudo à forma como eles se conectam e como a aeronave converte informação em vantagem operacional. É uma distinção muitas vezes invisível ao público, porém representa uma das mudanças mais profundas na aviação de combate desde o fim da Guerra Fria.

A mesma lógica aparece quando o olhar se estende a outros vetores relevantes. O Su-30MK2 venezuelano chama atenção por tamanho, autonomia, capacidade de carga e excelente manobrabilidade. É uma plataforma pensada para missões de longo alcance, capaz de levar uma ampla gama de armamentos ar-ar e ar-superfície. No entanto, sua arquitetura eletrônica reflete conceitos desenvolvidos no final da Guerra Fria. Apesar de modernizações, ela tende a permanecer menos integrada do que projetos concebidos nas últimas duas décadas. Em um ambiente em que guerra eletrônica, fusão de sensores e troca de dados ganham protagonismo, o desempenho “bruto” deixa de ser o único fator determinante para conquistar superioridade aérea.

Essa diferença de concepção também fica clara ao considerar o MiG-29SMP da Força Aérea do Peru. Embora o programa de modernização tenha ampliado capacidades de navegação, comunicações e emprego de armas guiadas, a base continua sendo um projeto desenhado para exigências dos anos 1970. O excelente desempenho em combate aproximado, aliado a uma alta relação empuxo-peso e grande agilidade, segue tornando o Fulcrum um oponente respeitável. Porém, como ocorre com várias aeronaves dessa geração, a evolução encontra limites impostos pela própria arquitetura original: incorporar novos sensores, enlaces de dados e sistemas de missão tende a ser mais complexo e menos eficiente do que em plataformas pensadas desde o início para operar plenamente no ambiente digital.

Situação semelhante se aplica aos Mirage 2000P peruanos e aos Kfir C10 colombianos. Apesar de modernizações importantes ao longo dos anos, esses vetores carregam restrições inerentes ao período em que foram concebidos. Isso não diminui seu valor operacional, mas expõe um ponto-chave da evolução tecnológica: chega um momento em que modernizar deixa de gerar ganhos proporcionais, tornando mais racional adotar uma plataforma completamente nova. Esse cenário ajuda a explicar por que praticamente todas as forças aéreas sul-americanas iniciaram - ou estudam iniciar - programas de renovação de suas frotas de caça.

Efeitos do SALITRE 2026 nos programas de renovação na América do Sul

A decisão da Colômbia de selecionar o Gripen E/F para substituir seus Kfir é, talvez, o exemplo mais simbólico dessa mudança de paradigma. Bogotá analisou diferentes alternativas no mercado internacional e concluiu que uma plataforma nascida dentro da lógica da guerra em rede oferecia melhores perspectivas para as próximas décadas do que seguir investindo em aeronaves cuja arquitetura básica remonta à Guerra Fria. Mais do que uma compra, a escolha colombiana sinaliza uma inflexão doutrinária, aproximando a Força Aeroespacial Colombiana dos conceitos operacionais predominantes nas principais forças aéreas ocidentais.

A repercussão tende a ultrapassar as fronteiras colombianas. Peru, Uruguai e outros países acompanham de perto a evolução dos esforços de modernização de capacidades aéreas. A Argentina, por sua vez, iniciou a incorporação de F-16AM/BM provenientes da Dinamarca - uma solução que representa um salto considerável em relação aos meios anteriormente disponíveis, mas ainda baseada em uma plataforma cuja concepção antecede em décadas a arquitetura digital do Gripen E. Isso não torna o F-16 um caça menos eficaz; apenas evidencia que programas distintos refletem etapas diferentes da evolução tecnológica da aviação de combate.

Dentro desse quadro, o SALITRE 2026 ganhou uma dimensão que vai além do treinamento. Pela primeira vez, o Gripen pôde expor suas capacidades em um ambiente multinacional diante de pilotos, planejadores e observadores vinculados a praticamente todas as forças aéreas relevantes da América do Sul. No setor de defesa, demonstrações operacionais costumam ter mais peso do que apresentações em feiras ou campanhas de marketing. É em exercícios que conceitos doutrinários são confrontados, sistemas são avaliados sob pressão e as capacidades reais de uma plataforma ficam claras para profissionais habituados a medir desempenho operacional.

Logística, disponibilidade operacional e a filosofia de manutenção do Gripen

Um ponto frequentemente subestimado em análises sobre caças diz respeito à logística. A experiência recente mostra que nenhuma força aérea vence uma campanha apenas por operar a aeronave mais sofisticada. É preciso mantê-la voando dia após dia, em ritmo intenso, por semanas ou meses. A própria Tempestade no Deserto, as campanhas no Afeganistão e no Iraque e, mais recentemente, a guerra entre Rússia e Ucrânia indicam como a disponibilidade operacional se tornou um dos principais multiplicadores do poder aéreo.

Foi exatamente com essa lógica que a Saab desenvolveu o Gripen. Desde o início, o projeto priorizou manutenção simplificada, alta disponibilidade, menor tempo entre surtidas e custos de operação reduzidos em comparação com aeronaves de categoria similar. A ideia não é apenas economizar em tempos de paz. Em um conflito de alta intensidade, uma aeronave que demanda menos tempo de manutenção consegue gerar mais surtidas ao longo de uma campanha, elevando de forma significativa a capacidade de combate da força aérea que a opera. Do ponto de vista militar, trata-se de uma vantagem estratégica que raramente aparece em fichas técnicas, mas que com frequência decide campanhas aéreas.

Essa filosofia aproxima o Gripen de tendências presentes nas principais forças aéreas ocidentais. Embora seja comum a comparação com o F-35, ela precisa ser feita com cautela. O F-35 integra a quinta geração e incorpora baixa observabilidade (stealth), fusão avançada de sensores e integração multinível, compondo outra categoria de capacidades. Não é tecnicamente correto afirmar que ambos estejam no mesmo patamar em todos os aspectos. Ainda assim, quando o foco recai sobre conceitos como arquitetura aberta, guerra em rede, atualização contínua via software, integração de sensores e redução da carga cognitiva do piloto, percebe-se que o Gripen compartilha princípios operacionais típicos das plataformas ocidentais mais modernas.

Uma aproximação mais adequada, nesse sentido, é com aeronaves como o F-15EX Eagle II e o F/A-18E/F Super Hornet Block III. Assim como esses caças norte-americanos de geração 4,5, o Gripen E combina alta capacidade de processamento, conectividade, guerra eletrônica e flexibilidade para receber atualizações tecnológicas futuras. Em outras palavras, a vantagem competitiva deixa de estar apenas no desempenho da célula e passa a residir na capacidade de evolução constante da plataforma. Em cenários de mudança tecnológica acelerada, isso pode ter peso comparável - ou superior - a qualquer especificação de desempenho disponível hoje.

Programa Gripen no Brasil: base industrial, transferência de tecnologia e doutrina

Esse tema ganha relevância particular quando observado a partir da perspectiva brasileira. O Programa Gripen nunca teve como único objetivo substituir os F-5EM da FAB. Seu escopo sempre foi mais ambicioso: transformar a Base Industrial de Defesa, absorver tecnologias críticas, desenvolver competências nacionais e criar condições para que o Brasil participe do desenvolvimento futuro de sistemas aeronáuticos complexos. A transferência de tecnologia associada ao programa contribuiu para formar engenheiros, integrar empresas brasileiras ao desenvolvimento da aeronave e ampliar de modo significativo a capacidade nacional de atuar em projetos de alta complexidade.

O exercício no Chile indicou que essa estratégia começa a gerar resultados também no plano operacional. A FAB não levou somente um novo caça; levou uma nova maneira de combater. A integração entre sensores, enlaces de dados, guerra eletrônica e comando e controle expõe uma transformação doutrinária profunda, aproximando a aviação de caça brasileira dos conceitos operacionais adotados pelas principais forças aéreas da OTAN.

Ao mesmo tempo, a presença do Gripen no SALITRE reforça o posicionamento do Brasil em um momento especialmente relevante para a América Latina. O continente vive o maior processo de renovação de capacidades de combate aéreo desde o fim da Guerra Fria. Na próxima década, diversas forças aéreas precisarão optar entre seguir modernizando plataformas concebidas há mais de quarenta anos ou investir em sistemas projetados para enfrentar os desafios do século XXI. Nesse contexto, o desempenho observado do Gripen durante o SALITRE fortalece sua posição não apenas como vetor de alta capacidade operacional, mas também como uma das principais referências tecnológicas disponíveis para países que buscam renovar suas frotas.

Ainda assim, talvez a principal conclusão sugerida pelo exercício não esteja no desempenho individual do Gripen, e sim na evolução do próprio conceito de superioridade aérea. Por décadas, o debate girou em torno de velocidade, teto operacional, raio de combate e quantidade de armamento. Conflitos contemporâneos indicam que esses parâmetros continuam importantes, mas já não bastam para definir o vencedor. Superioridade aérea passou a significar superioridade informacional: quem detecta primeiro, compartilha dados com mais rapidez, protege melhor seus próprios sistemas e acelera seu ciclo de decisão obtém vantagem decisiva antes mesmo do início do engajamento.

Foi exatamente isso que o SALITRE 2026 tornou possível observar. O debut internacional do Gripen E não representa apenas a entrada em serviço de uma aeronave nova, mas a consolidação de uma mudança geracional na Força Aérea Brasileira e, por consequência, no equilíbrio tecnológico da aviação de caça sul-americana. Em um continente que iniciou uma renovação ampla de suas capacidades militares, o Brasil passa a operar um sistema de armas concebido para o ambiente operacional do século XXI, elevando de modo significativo sua dissuasão e estabelecendo um novo referencial tecnológico regional. Mais do que um exercício multinacional, o SALITRE marcou o momento em que a guerra aérea em rede deixou de ser uma promessa futura e passou a ser uma realidade operacional na América do Sul.


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