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Papagaios, linguagem e comunicação: eles entendem a semântica?

Papagaio verde em cadeira de madeira interagindo com pessoa ao redor de mesa com caderno e brinquedos.

Afirmar que papagaios “falam” é uma simplificação; dizer que eles “comunicam” chega bem mais perto do que acontece. E, quando essa comunicação passa por elementos do nosso idioma, isso se deve em parte ao fato de que eles nos enxergam como integrantes do próprio círculo social.

Em muitos animais, a domesticação tende a favorecer uma disposição mais “natural” para aprender a interagir conosco - como vemos com cães e gatos. Ainda assim, os papagaios fogem do padrão. No vínculo que constroem com seus tutores, a linguagem humana - ou, mais precisamente, a sua imitação - vira o jeito preferido de se comunicar e de interagir.

Quando a imitação vira estratégia

Diante de sons que lembram de perto os contornos da fala humana, o nosso cérebro tende a projetar significado e intenção quando um papagaio vocaliza. Só que há um descompasso entre o que percebemos e o que de fato ocorre: por mais inteligentes que sejam, essas aves não entendem palavras do mesmo modo que nós entendemos.

O hiato entre a nossa percepção e a deles

Ainda assim, elas compreendem muito bem as consequências dos sons que reproduzem. Para um papagaio, a “fala” funciona como uma cadeia de causa e efeito à qual ele se agarra para conquistar algum controle sobre o próprio ambiente. Mas será que saber empregar uma palavra sem saber por que ela existe basta para considerá-los capazes de semântica?

Papagaios e linguagem: uma relação de mão única?

No habitat natural, papagaios são animais altamente sociais: vivem em bandos e mantêm uma comunicação sofisticada com outros indivíduos da mesma espécie. Há inclusive dialetos associados a regiões ou colónias específicas. Para nós, porém, isso permanece inacessível: são vocalizações de ave e, mesmo com um repertório bastante avançado, o nosso ouvido capta apenas uma melodia sem sintaxe.

Quando estão em cativeiro e deixam de ter semelhantes com quem interagir, a direção da comunicação muda - eles passam a mirar em nós. Do ponto de vista deles, fazemos parte do grupo e, por mimetismo, ajustam o próprio comportamento vocal ao nosso para criar conexão. “É a forma dele dizer: você é o meu humano, e eu vou aprender a sua língua”, explica Annie Colbert, editora-chefe da Popular Science e tutora de uma fêmea de papagaio muito falante, chamada Polly.

Esse tipo de conduta é relativamente incomum entre aves e aparece apenas em uma minoria de espécies: papagaios, corvídeos (gralhas e corvos), mainás e estorninhos. Todas elas têm dois traços em comum: contam com uma arquitetura neuronal especializada em aprender e produzir sequências sonoras complexas e também com um órgão fonatório específico, a siringe (syrinx).

Localizada na caixa torácica e, de forma surpreendente, mais sofisticada do que a nossa laringe, a siringe permite um controle muito fino do fluxo de ar que sai dos brônquios e das vibrações das suas membranas. O resultado é a capacidade de gerar uma gama de sons extraordinariamente ampla.

Dentro desse leque, as frequências e os timbres da fala humana são apenas mais um conjunto de sons - e eles os reproduzem com tanta fidelidade que conseguem enganar o nosso ouvido.

Ainda assim, conseguir repetir uma palavra não significa captar o seu sentido. Quando um papagaio diz “oi!” ou até expressões mais elaboradas, como “feliz aniversário!”, ele não está necessariamente a cumprimentar nem a parabenizar. O que ele aprendeu é que essas sequências sonoras produzem consequências previsíveis e repetíveis no ambiente. Para ele, o vínculo com a linguagem é estritamente funcional - uma lógica muito diferente da nossa - e, apesar disso, eficaz o bastante para manter a ilusão de que estamos a conversar.

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A razão sob as penas

Por exemplo, no vídeo do YouTube mencionado acima, aparece um Papagaio-cinzento-do-Congo (Psittacus erithacus), uma das espécies de papagaios mais inteligentes do mundo. Ele se chama Appollo e é capaz de reconhecer os objetos que o tutor lhe mostra - e até identificar a cor e o material. Nesse ponto, já não estamos diante de simples mimetismo.

Os Papagaios-cinzentos-do-Congo foram estudados de forma intensa e quase se tornaram um caso à parte: hoje sabemos, com bastante segurança, que eles conseguem categorizar objetos pelas suas propriedades físicas e manipular conceitos abstratos.

É verdade que papagaios frequentemente imitam sem compreender; porém, alguns parecem ter atingido um patamar acima em cognição e comunicação animal. Além do Papagaio-cinzento-do-Congo, outras espécies exibem capacidades impressionantes: a arara-canindé (Ara ararauna) pode demonstrar uma forma de empatia em certos contextos; o kea (Nestor notabilis) se destaca ao resolver problemas em grupo; e o cacatua-de-Goffin (Cacatua goffiniana) chega a fabricar ferramentas e a solucionar quebra-cabeças.

O panorama é tão amplo que pode até colocar em xeque a própria relevância da pergunta central deste texto. Entendam ou não as palavras que pronunciam, a forma como os papagaios se relacionam com o mundo é suficientemente complexa para que a questão da semântica, isoladamente, pareça em retrospecto quase secundária.


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