O plantio de árvores virou uma das respostas mais populares às mudanças climáticas.
Governos incentivam, empresas financiam, e programas de compensação de carbono frequentemente se apoiam nessa estratégia. E a expectativa não fica apenas no armazenamento de carbono.
Em geral, mais floresta é vista como sinónimo de uma paisagem um pouco mais húmida. Um estudo recente indica que a realidade é bem menos direta.
Os pesquisadores concluíram que uma mesma floresta, plantada no mesmo local, pode tanto aumentar quanto reduzir a disponibilidade de água - e o que decide isso é o quanto o clima aquece.
Uma questão de graus
O trabalho foi conduzido por uma equipa liderada por Tao Tang, cientista do clima no Instituto de Física Atmosférica, que integra a Academia Chinesa de Ciências (CAS).
O objetivo era colocar à prova uma suposição presente em praticamente toda promessa de reflorestamento.
Em vez de discutir quantas árvores plantar, o grupo de Tang pegou um mesmo esforço de plantio em grande escala e o testou em simulações climáticas detalhadas, sob dois futuros possíveis.
Num cenário, a humanidade contém as emissões e o aquecimento permanece moderado. No outro, as emissões continuam a subir e o planeta aquece muito mais.
A métrica usada foi a disponibilidade de água: a chuva que chega a uma região menos a água que volta para a atmosfera por evaporação.
É essa humidade que sobra para rios, lavouras e pessoas. E, entre os dois futuros, os resultados entraram em choque.
O futuro mais ameno
Se o aquecimento ficar em níveis moderados, plantar florestas faz a disponibilidade total de água do planeta subir um pouco. À primeira vista, parece um ganho sem ressalvas. Só que o benefício não se distribui de forma uniforme.
As áreas húmidas ficam com a maior parte do acréscimo, enquanto regiões já secas quase não veem melhoria. O padrão é o mesmo apontado por outros estudos sobre restauração global: as zonas húmidas tendem a ficar ainda mais húmidas, e as secas permanecem secas.
Nesse cenário mais ameno, as árvores adicionais retiram água do solo e a devolvem ao ar pela transpiração; e a atmosfera retorna o suficiente em forma de chuva para gerar um pequeno saldo positivo - embora discreto. Ainda assim, o grosso do ganho concentra-se nas regiões já húmidas.
Um mundo mais quente
Quando a simulação empurra o planeta para um futuro mais quente, o efeito se inverte. As mesmas florestas passam a reduzir a oferta de água, em vez de ampliá-la.
Com mais calor, árvores mais “sedentas” perdem humidade num ritmo que o aumento de precipitação não consegue compensar.
Numa atmosfera mais quente, as folhas libertam água mais depressa. Um estudo sobre mudanças passadas no uso do solo já tinha indicado que esse mecanismo pode engolir qualquer ganho vindo da chuva. O calor vira o balanço para o lado da perda.
Essa queda vem acompanhada de um tipo estranho de “vantagem”. Sob aquecimento intenso, a redução tende a espalhar-se de maneira mais homogénea pelo mapa.
Mas esse também é um futuro mais populoso, com a suposição de muito mais pessoas em 2100. Ou seja: menos água e muito mais gente a disputá-la.
O que provoca a divisão
Para entender para onde a água foi, os autores seguiram o percurso da humidade no próprio ar. Eles somaram quanto vapor entra e sai de cada região, comparando o que cai como chuva com o que os ventos transportam para longe.
O caminho levou à circulação atmosférica - os grandes movimentos do ar que definem onde a humidade se acumula e onde ela se dissipa.
Nas simulações, os padrões de vento deslocaram a humidade sobre as áreas húmidas de formas opostas nos dois níveis de aquecimento. As árvores eram as mesmas; o que mudou foram os ventos.
Por que os ventos reagem de maneira tão diferente à medida que o planeta aquece continua sem resposta.
Nesse ponto, os pesquisadores são cautelosos: eles observam que a causa mais profunda ainda está além do que a análise consegue esclarecer. O padrão aparece com consistência; a sua origem, porém, permanece incerta.
A novidade do estudo
A ciência já reconhecia que o plantio de florestas pode empurrar água para regiões mais húmidas, e que árvores mais “sedentas” num mundo em aquecimento podem retirar mais do que devolvem.
O que ainda não estava bem estabelecido era o quanto o desfecho depende do grau de aquecimento.
Ao repetir o mesmo plantio num futuro mais fresco e noutro mais quente, o efeito não apenas enfraquece ou se intensifica. Ele se reverte. A variável decisiva passa a ser o aquecimento, e não a contagem de árvores.
A mesma muda, plantada no mesmo lugar, pode ajudar a encher um reservatório num cenário e, noutro, contribuir para esvaziá-lo. O que muda entre eles é apenas quanto carbono o mundo continua a queimar.
Onde e quando
Para quem elabora promessas de plantio, o número de árvores não conta toda a história. Um dos autores do estudo, Junji Cao, afirma que a principal lição envolve tanto local e momento quanto escala.
“Reforestation is not a one-size-fits-all solution,” disse Cao. O mesmo esforço que reforça a disponibilidade de água num mundo de baixas emissões pode, de forma silenciosa, drená-la num cenário mais quente.
O que o trabalho ajuda a esclarecer é marcante: o clima em que uma floresta cresce pode inverter o seu efeito sobre a disponibilidade de água, passando de ganho para perda - uma ideia que também aparece em pesquisas mais recentes sobre como a localização direciona o resultado.
Para quem vive a jusante, isso transforma um gesto bem-intencionado numa decisão de planeamento com implicações reais para torneiras e campos.
As próximas florestas talvez sejam escolhidas não só pelo carbono que armazenam, mas também pela água que retêm ou libertam.
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