Reaproximação com a UE sob “linhas vermelhas”
Dez anos depois da saída da UE, o governo trabalhista segue empenhado em se aproximar novamente do bloco. Ainda assim, a estratégia de diminuir atritos econômicos sem abandonar as “linhas vermelhas” já assumidas acaba limitando qualquer entendimento mais ambicioso.
Eleito primeiro-ministro em 2024, Keir Starmer chegou ao cargo com o compromisso de “fazer o Brexit funcionar”, mas reiterando que não pretende retornar à UE, nem ao mercado único, nem à união aduaneira, tampouco restabelecer a livre circulação de pessoas.
"Um governo que pretenda respeitar essas linhas vermelhas não dispõe de grande flexibilidade nem margem de manobra. Cometeu erros e perdeu algum capital político porque foi extremamente lento quando chegou ao poder e não sabia bem o que queria", disse à Lusa a analista Jannike Wachowiak.
Mesmo que Andy Burnham, conhecido por ser pró-europeu, venha a substituir Starmer à frente do Executivo nos próximos dias ou semanas, os obstáculos tendem a se repetir. Entre eles, segundo a analista, está o tempo que as negociações técnicas com a UE inevitavelmente levam.
"Faltam três anos até às próximas eleições gerais. Não é claro o que poderá fazer para alterar substancialmente a relação neste prazo e que produza resultados. Algo mais radical, como voltar a aderir, implicaria um horizonte temporal bastante longo", observou a pesquisadora do centro de estudos “UK in a Changing Europe”.
Objetivos anunciados e o que avançou até agora
O plano apresentado pelo governo foi descrito de forma pouco detalhada. Nele, apareciam ideias como um acordo veterinário para reduzir inspeções nas fronteiras e baixar custos de produtos alimentícios, o reconhecimento mútuo de qualificações profissionais para estimular exportações de serviços e medidas para simplificar viagens de artistas em turnê.
Passados dois anos, essas metas ainda não se concretizaram. Na prática, o que existe é a negociação de um acordo fitossanitário voltado a facilitar a importação e a exportação de bens agroalimentares.
Impacto econômico e opinião pública sobre o Brexit
As estimativas sobre o impacto do Brexit divergem, mas a emissora britânica BBC informou nesta semana que, com base em dados do Banco de Inglaterra, o crescimento econômico teria ficado 6% abaixo.
Uma pesquisa de opinião feita pela YouGov concluiu que 57% dos britânicos consideraram que o Brexit foi um erro, incluindo 23% de eleitores que votaram a favor da saída.
Diversas sondagens também apontaram maioria favorável a um retorno ao bloco, embora muitos imponham condições - como recuperar isenções anteriores em áreas monetárias, de segurança ou de justiça.
Outro levantamento, encomendado pela King’s College London, indicou que a parcela de potenciais eleitores nas próximas eleições parlamentares poderia subir de 31% para 45% caso o Partido Trabalhista incluísse no programa a proposta de um segundo referendo.
A ex-funcionária pública Jill Rutter disse considerar necessário tratar essas intenções “com cautela”, diante da fragilidade econômica do país e do alto custo de vida.
"Uma das razões pelas quais se vê este debate a ser reaberto agora é porque, por quaisquer que sejam as razões, passados dez anos, é evidente que o Brexit não melhorou o nível de vida, como era esperado", considerou.
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