O Canadá voltou a questionar quantos F-35 realmente precisa comprar - e, nesse espaço, o grupo sueco Saab entrou com um pacote alternativo de grande porte, centrado no caça Gripen e no jato de vigilância GlobalEye.
A oferta da Saab: um segundo caminho para a força aérea do Canadá
A Saab apresentou formalmente a Ottawa uma proposta para fornecer 72 caças multifunção Gripen E e 6 aeronaves de alerta aéreo antecipado e controlo (AEW&C) GlobalEye.
A iniciativa chega no momento em que o Canadá reavalia a dimensão do plano já existente de adquirir 88 F-35 da Lockheed Martin - contrato assinado em 2022 e que, agora, é estimado em mais de $27 bilhões.
A Saab afirma que o pacote combinado Gripen–GlobalEye poderia sustentar, de forma direta ou indireta, cerca de 12,600 empregos no Canadá, desde que os dois tipos de aeronave sejam comprados.
Mais do que vender aeronaves, a empresa sueca está a oferecer um acordo industrial: a proposta prevê que uma parte relevante do trabalho aconteça em território canadiano, com montagem final e suporte concentrados em Ontário e Quebec.
O que a Saab está a colocar na mesa
O caça Gripen E
O Gripen E é frequentemente classificado como um caça de 4,5ª geração - concebido para ser uma alternativa flexível e relativamente mais acessível a jatos de quinta geração, como o F-35.
Entre os pontos destacados pela Saab estão:
- Velocidade máxima por volta de Mach 2
- Operação pensada para pistas curtas e pouco preparadas
- Dez pontos externos de fixação para armas e tanques de combustível
- Radar avançado Raven ES-05 e sensor infravermelho de busca e rastreio (IRST)
- Enlaces de dados para partilha rápida de informações com outras aeronaves e unidades em terra
A lógica de logística do Gripen é operar a partir de bases dispersas, com equipas de solo reduzidas e tempos curtos de rearmamento e reabastecimento - algo que a Saab diz combinar com aeródromos remotos no norte do Canadá e com a extensa faixa costeira do país.
O avião também pode empregar uma ampla gama de armamentos padrão da OTAN, incluindo mísseis ar-ar além do alcance visual, bombas guiadas de precisão e mísseis antinavio, o que lhe daria margem tanto para missões de defesa continental como para operações no exterior.
A Saab sustenta que o Gripen seria capaz de executar a defesa aérea sobre o vasto território canadiano, ao mesmo tempo em que se integra a parceiros da OTAN e do NORAD por meio de enlaces de dados e padrões de armamento já estabelecidos.
A plataforma AEW&C GlobalEye
A segunda parte do pacote, o GlobalEye, foi posicionada para cobrir uma necessidade diferente: vigilância aérea de longo alcance.
Montado sobre o jato executivo Bombardier Global 6500 - fabricado no Canadá -, o GlobalEye reúne vários sensores para acompanhar, em simultâneo, alvos aéreos, marítimos e terrestres.
As capacidades citadas incluem:
- Radar Erieye ER instalado sobre a fuselagem, com alcances de deteção de aproximadamente 450 km ou mais quando em altitude
- Radar marítimo Seaspray 7500E para navios e contactos de superfície
- Autonomia de até cerca de 11 horas em missão
- Fusão multissensor para formar um quadro tático único para os comandantes
No caso canadiano, a Saab descreve o GlobalEye como um meio de ampliar a monitorização do Ártico e das aproximações pelo Atlântico Norte e pelo Pacífico - áreas em que radares no solo ficam limitados pela distância, pela curvatura da Terra e por condições ambientais severas.
Uma frota dedicada de AEW&C daria ao Canadá uma “linha de radar voadora” persistente, deslocável para onde for mais necessária, em vez de depender principalmente de sensores fixos e de aeronaves de aliados.
Empregos, fábricas e pressão política
Para além do desempenho operacional, a Saab mira um tema que costuma decidir contratos de defesa em Ottawa: a indústria local.
A empresa repete que o seu pacote criaria ou manteria até 12,600 empregos no Canadá, mas ressalva que esse total está condicionado à compra conjunta de Gripen e GlobalEye - não de apenas um deles.
O plano industrial propõe construir aeronaves no Canadá tanto para consumo interno quanto para clientes de exportação, com dois polos principais:
| Província | Papel previsto |
|---|---|
| Ontário | Montagem final do Gripen, testes, suporte |
| Quebec | Integração do Gripen, trabalho do GlobalEye com a Bombardier |
A Saab aponta parceiros como IMP Aerospace, GE Aviation, CAE e Peraton numa rede de fornecedores distribuída pelo país, com a Bombardier como elemento central do GlobalEye por causa da plataforma Global 6500.
O discurso também se encaixa no timing: o Canadá prepara-se para elevar o gasto em defesa em cerca de $82 bilhões nos próximos cinco anos e procura formas de manter uma parcela maior desse montante dentro do próprio país.
A Lockheed Martin, por sua vez, defende que manter o pedido completo de 88 F-35 resultaria em cerca de $15 bilhões em trabalho para empresas canadenses, apoiado por acordos já existentes de participação industrial.
F-35, frota mista e a questão do NORAD
O plano canadiano para o F-35 não foi cancelado. As primeiras 16 aeronaves continuam previstas para entrega a partir deste ano. O que está a ser revisto é a quantidade total e se faria sentido incorporar um segundo tipo de caça no inventário.
Uma frota mista levanta obstáculos práticos, como:
- Duas linhas paralelas de formação para pilotos e técnicos
- Peças de reposição, ferramentas e contratos de suporte separados
- Mais complexidade no planeamento de missões e na logística
- Custos indiretos maiores para sustentar a operação no longo prazo
Quem defende uma combinação de F-35 com Gripen argumenta que o Canadá poderia juntar uma plataforma furtiva e de alto nível para ataque e inteligência com um caça mais barato e simples de manter para o policiamento aéreo do dia a dia.
Os críticos alertam que dividir recursos financeiros e pessoal entre duas novas frotas de caça pode sobrecarregar a Força Aérea Real Canadense e atrasar a plena prontidão operacional.
Além disso, há o tema da integração com o NORAD, o comando conjunto de defesa aeroespacial entre EUA e Canadá. O F-35 já nasce ligado a redes norte-americanas. O Gripen tem credenciais sólidas na OTAN, mas alguns analistas em Ottawa levantaram dúvidas sobre quão fácil seria integrar um sistema de origem sueca a infraestruturas dos EUA altamente classificadas, caso o Canadá opere menos F-35 do que estava inicialmente previsto.
A opinião pública está a afastar-se de uma frota apenas de F-35
Compras militares raramente decidem eleições, mas o debate atual ganhou contornos claros para o público.
Uma sondagem da Ekos citada em reportagens no Canadá indica preferência pelos aviões da Saab - isoladamente ou em conjunto com o F-35:
- 43% apoiaram uma frota apenas de Gripen
- 29% defenderam uma frota mista de Gripen e F-35
- 13% preferiram uma frota apenas de F-35
O apoio à opção exclusiva de Gripen foi mais elevado na Colúmbia Britânica, com 49%. Quebec registou o maior apoio a uma frota mista, com 35%, enquanto o entusiasmo por uma solução apenas com F-35 foi o mais baixo nessas mesmas duas províncias.
A inclinação também varia por partido. Eleitores conservadores mostraram maior probabilidade de apoiar uma frota única de F-35, ao passo que apoiantes do Partido Liberal, do NDP e do Partido Verde tenderam a preferir o Gripen ou uma solução combinada.
Esses números dão margem política ao governo caso decida ajustar a compra de F-35, acrescentar Gripen, ou fazer as duas coisas - uma possibilidade que parecia praticamente encerrada em 2023, quando o Canadá selecionou o F-35 ao fim de um processo competitivo.
Procura global e ambição de exportação
A Saab não está a tratar o Canadá como um caso isolado. A empresa procura montar um ecossistema mais amplo de produção e suporte, com o Canadá como ponto-chave.
A Ucrânia sinalizou interesse em mais de 100 aeronaves Gripen, embora qualquer transferência dependa de aprovações políticas e de financiamento. Já o GlobalEye tem clientes potenciais ou existentes em países como Egito, França e Alemanha, segundo declarações públicas da Saab.
Ao montar Gripen e GlobalEye no Canadá para exportação, a Saab argumenta que Ottawa poderia conquistar um papel de longo prazo no fornecimento e na modernização de frotas usadas por aliados - e não apenas da sua própria força aérea.
O que “alerta aéreo antecipado” significa na prática
Siglas como AEW&C podem soar abstratas, mas elas influenciam operações reais. Em termos diretos, uma aeronave AEW&C como o GlobalEye funciona como um posto de comando a grande altitude, equipado com sensores potentes.
Uma missão típica poderia ser assim: um GlobalEye decola de uma base no sul do Canadá, sobe até altitude e começa a varrer uma grande órbita sobre o Ártico. Os radares acompanham aeronaves, navios e até alguns veículos em terra muito além do alcance de radares terrestres. A equipa a bordo monta um mapa em tempo real de tudo o que se movimenta naquela área e partilha as informações instantaneamente com caças, navios e centros de comando.
Para um país com uma costa tão extensa quanto a do Canadá, um recurso desse tipo altera a velocidade com que aeronaves ou embarcações desconhecidas podem ser detetadas e identificadas, e antecipa o alerta para decisores diante de ameaças ou emergências - de aviões hostis a situações de busca e salvamento.
Pontos a acompanhar enquanto a revisão avança
Alguns fatores práticos devem pesar na escolha canadense:
- Calendário: as entregas do F-35 já estão programadas, enquanto Gripen e GlobalEye exigiriam negociar um novo contrato e criar linhas de produção no Canadá.
- Estabilidade orçamental: o aumento do gasto em defesa está planeado, mas uma queda económica ou mudança política pode impor trocas entre tamanho da frota e benefícios industriais.
- Capacidade de formação: a força aérea precisa formar pilotos, técnicos e controladores para aeronaves de quinta geração e, possivelmente, para um segundo caça e uma nova frota de AEW&C.
- Risco operacional: introduzir dois novos tipos principais de aeronaves ao mesmo tempo pode pressionar unidades de manutenção e suporte já exigidas, se a transição não for bem faseada.
Defensores da proposta da Saab dizem que a montagem local e um controlo maior sobre sobressalentes e modernizações reduziriam a dependência de fornecedores estrangeiros em crises. Já os defensores de uma frota exclusivamente de F-35 respondem que focar num único tipo avançado simplifica a logística e coloca o Canadá mais alinhado às tendências de poder aéreo dos EUA e da OTAN.
Por enquanto, Ottawa está a testar tanto os argumentos operacionais quanto as promessas sobre empregos e resiliência industrial de longo prazo. A decisão não vai definir apenas quais aeronaves voarão sobre o céu canadiano, mas também onde milhares de canadenses poderão trabalhar e quanta autonomia estratégica o país manterá sobre o seu poder aéreo no futuro.
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