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Estudo revela que a microglia pode iniciar placas do Alzheimer

Mulher cientista analisando holograma do cérebro e DNA enquanto faz anotações em caderno em laboratório moderno.

Um novo estudo indica que as células imunes do cérebro podem contribuir para a formação das placas pegajosas associadas ao mal de Alzheimer - e não apenas atuar para removê-las.

A constatação derruba uma das premissas mais persistentes da área e torna mais complexa a ideia de estimular essas células para que virem “faxineiras” mais agressivas.

Onde as placas começam

Em placas de cultura com células imunes humanas e a proteína capaz de formar placas, surgiram fibras semelhantes a placas do lado de fora das células, em vez de se montarem sozinhas no meio.

Ao rastrear esse efeito, o professor Joost Schymkowitz, do instituto de biotecnologia VIB, na Bélgica, demonstrou que as células imunes do cérebro conseguem iniciar ativamente a formação de placas.

O resultado ajuda a entender que o crescimento dessas placas pode começar enquanto o cérebro ainda está acionando uma resposta que, à primeira vista, parece protetora.

Com isso, aparece uma pergunta mais difícil: em que momento essas células estão defendendo o tecido cerebral - e quando passam a alimentar o dano.

Por que a defesa dá errado

Durante anos, grande parte da pesquisa em Alzheimer tratou a microglia - células de defesa que patrulham o tecido cerebral e engolem detritos - como um sistema de limpeza.

Diversas abordagens experimentais com anticorpos já tentam potencializar essas células, na expectativa de que uma “limpeza” mais forte melhore a forma como elas lidam com a amiloide.

Só que, segundo o estudo, a mesma resposta também pode reorganizar proteína solta e criar novos pontos de partida para o acúmulo.

Esse achado chega em um cenário no qual cerca de 55 milhões de pessoas vivem com demência.

Como o acúmulo se espalha

Dentro das células, beta-amiloide solta - um fragmento proteico ligado ao crescimento das placas - foi remodelada e transformada em filamentos rígidos.

Depois de liberados, esses filamentos fizeram com que mais proteína passasse a grudar nas proximidades, em vez de permanecer dissolvida de forma inofensiva.

Nesse modelo, as fibras produzidas pela célula desencadearam mais acúmulos “imitadores” e também empurraram a tau - proteína que forma emaranhados dentro dos neurônios - para agregados.

Assim, uma forma nociva de proteína pode favorecer outra, reforçando a ligação entre as placas iniciais e os danos que aparecem mais tarde.

Mais perto dos pacientes

As fibras geradas pelas células também se pareceram mais com o material cerebral obtido de pacientes do que com as fibras que pesquisadores costumam produzir em pequenos frascos.

“Por muito tempo, estudamos as placas de amiloide no laboratório, onde elas se formam espontaneamente em pequenos frascos”, disse Schymkowitz.

Como as estruturas derivadas de pacientes variam em forma e comportamento, uma correspondência mais fiel pode deixar mais precisos os testes sobre o início da formação das placas.

Com isso, o novo modelo passa a servir não só para explicar mecanismos, mas também para avaliar ideias de medicamentos em fases mais iniciais.

Quando a tau entra em cena

Outro risco apareceu quando as fibras produzidas pelas células induziram a tau a formar seus próprios aglomerados dentro das células nervosas.

Como ambas surgem à medida que a doença avança, o acúmulo de placas e os emaranhados de tau normalmente caminham junto com o aumento do dano cerebral e da perda de memória.

Ao conectar os dois eventos ao mesmo comportamento das células imunes, o estudo reduz a distância entre gatilhos precoces e o declínio posterior.

Ainda assim, os experimentos não chegam a provar que toda placa em um cérebro vivo se inicia dessa maneira.

Genes aumentam o risco

Alterações em um gene que ajuda as células imunes do cérebro a perceber e responder a danos tornaram o acúmulo de placas mais intenso.

Em famílias que carregam variantes raras, essas mudanças já estão entre os fatores genéticos mais fortes conhecidos para o mal de Alzheimer.

Quando esse gene não funciona adequadamente, as células imunes do cérebro têm mais dificuldade para sobreviver, remover detritos e se deslocar até áreas problemáticas.

À luz do novo achado, essa fragilidade parece menos um mecanismo de proteção e mais uma brecha para o acúmulo prejudicial.

Sinais de alarme precoces

Antes de placas densas ocuparem a cultura, as células ativaram a inflamação - uma resposta molecular de alerta observada na doença.

Muito antes de as placas se acumularem por completo, essa reação lembrava estados celulares descritos em modelos humanos de Alzheimer.

Em vez de esperar por grandes depósitos, a resposta imune pareceu se alterar assim que as células começaram a lidar com a proteína.

Nessa janela mais precoce, a prevenção pode ter a melhor chance de funcionar, desde que os pesquisadores consigam mirar o alvo com segurança.

Planos de terapia mudam

Estratégias de medicamentos baseadas em aumentar a atividade da microglia agora encaram uma realidade mais difícil, porque mais atividade nem sempre significa mais proteção.

Algumas tentativas ainda podem ajudar, sobretudo se forem direcionadas a fases tardias, quando as células de fato limpam as placas.

O momento da intervenção pode decidir se esse impulso beneficia, não faz diferença ou adiciona combustível nas etapas mais iniciais.

Para desenhar tratamentos mais seguros, pode ser necessário entender quando a microglia protege o tecido e quando passa a estimular o crescimento das placas.

O que ainda é desconhecido

Células humanas em cultura ajudam a revelar mecanismos, mas não reproduzem todo o fluxo de um cérebro vivo.

Circulação sanguínea, neurônios ao redor e meses ou anos de envelhecimento podem mudar como esses iniciadores precoces de placas se comportam.

Os pesquisadores também testaram macrófagos - células imunes que patrulham o restante do corpo - junto com microglias, para comparar comportamentos compartilhados.

Essas limitações não anulam o resultado, mas impedem que ele seja tratado como a palavra final.

O que vem a seguir

O estudo desenha um cenário em que as placas do Alzheimer podem ser produzidas, por acidente, pelos próprios defensores do cérebro enquanto tentam manter o equilíbrio.

Se esse quadro se confirmar em pacientes, tratamentos mais precoces e com timing mais preciso podem ser tão importantes quanto o próprio alvo.


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