Proteger a natureza significa o quê, na prática? Basta colocar mais território no mapa como “protegido” ou é preciso resguardar os lugares certos?
A Austrália avançou muito na ampliação de parques nacionais e reservas. Ainda assim, uma pesquisa recente da Universidade de Queensland indica que esse crescimento nem sempre beneficiou as espécies e os ecossistemas que mais precisam de conservação.
Crescimento das áreas protegidas na Austrália
Desde 2010, a Austrália quase dobrou a extensão de terras sob proteção. A parcela total passou de cerca de 12.8 percent para 22.3 percent até 2022, dentro do Sistema Nacional de Reservas, que reúne parques nacionais e outras áreas protegidas.
O artigo científico detalha que essa expansão acrescentou mais de 700,000 quilômetros quadrados de território protegido.
À primeira vista, o resultado parece uma vitória. O país, inclusive, atingiu uma meta global anterior de proteger pelo menos 17 percent das áreas terrestres. Porém, o estudo indica que olhar apenas para a área total não revela o quadro completo.
Um problema mais profundo
“Apesar de milhares de quilômetros quadrados de terra serem colocados sob proteção, os lugares que são as maiores prioridades para resultados de conservação simplesmente não estão sendo selecionados”, disse o professor James Watson, da Universidade de Queensland.
Os dados mostram que, com frequência, as áreas protegidas crescem onde é mais fácil proteger - e não onde a biodiversidade corre maior risco. Com isso, surge um descompasso entre o esforço feito e o impacto real.
O estudo também lembra que as metas globais nunca se resumiram a proteger grandes extensões. Elas incluem, igualmente, resguardar áreas importantes para a biodiversidade, fortalecer serviços ecossistêmicos e conectar habitats para aumentar as chances de sobrevivência das espécies.
Espécies ameaçadas ainda sem proteção suficiente
Mesmo com a expansão das áreas protegidas, muitas espécies seguem vulneráveis. Aproximadamente 160 espécies ameaçadas ainda têm quase nenhuma proteção dentro do sistema de reservas.
A pesquisa aponta que mais de 11 percent das espécies ameaçadas têm menos de one percent de sua distribuição protegida. Em outras palavras, várias delas vivem majoritariamente fora das áreas protegidas.
“Das espécies encontradas no sistema de reservas, apenas 20 percent podem ser consideradas adequadamente representadas”, disse o professor Watson.
Isso ocorre porque algumas espécies dependem de habitats específicos que não foram incluídos nas zonas protegidas. Aumentar apenas a área total, por si só, não garante a sobrevivência delas.
Ecossistemas e habitats também ficam para trás
O desafio não se limita às espécies: ecossistemas inteiros também seguem com proteção insuficiente.
Segundo o estudo, a maioria dos ecossistemas ameaçados teve apenas um aumento pequeno de proteção ao longo de 12 anos. Só poucos ecossistemas atingiram o patamar necessário para uma conservação adequada.
Por outro lado, algumas das áreas naturais mais intactas passaram a ter proteção maior. A proporção de terras altamente intactas dentro das reservas quase dobrou, saindo de cerca de 23 percent para mais de 46 percent.
Isso é positivo, mas muitos habitats decisivos continuam fora das áreas protegidas.
“Nós crescemos rápido, mas não crescemos de forma inteligente”, disse o professor Watson.
Crescimento rápido, mas pouco inteligente
Uma parte relevante das novas áreas protegidas foi criada em regiões que já tinham cobertura anterior. O estudo mostra que biorregiões com maior proteção em 2010 receberam mais expansão, enquanto regiões com baixa proteção tiveram pouca mudança.
“Biorregiões são grandes áreas definidas por ecossistemas e espécies semelhantes e a expansão das áreas protegidas tendeu a ocorrer em áreas que já tinham cobertura relativamente alta”, disse o Dr. Ruben Venegas Li, coautor do estudo.
Esse crescimento desigual deixa ecossistemas e espécies importantes mais expostos.
Meta futura precisa de foco melhor
A Austrália busca agora a meta global chamada “30 por 30”, isto é, proteger 30 percent do território terrestre até 2030.
Essa meta faz parte de um plano global de biodiversidade que enfatiza não apenas quantidade, mas também qualidade. Ela envolve proteger áreas-chave para a biodiversidade, sustentar serviços ecossistêmicos como o armazenamento de carbono e garantir que os habitats estejam conectados.
Para o professor Watson, o objetivo segue ao alcance. “A boa notícia é que esta análise fornece os dados para identificar com precisão os lugares mais importantes para a natureza”, disse.
“Se mudarmos para uma proteção estratégica, a Austrália pode construir um sistema de reservas que realmente interrompa extinções e apoie a recuperação de espécies e ecossistemas.”
Priorizando os locais certos
O estudo aponta um caminho direto para os próximos passos. A proteção precisa se concentrar em habitats onde vivem espécies ameaçadas e também incluir ecossistemas que correm risco de colapso.
A pesquisa ainda mostra que certos ecossistemas armazenam grandes quantidades de carbono. Proteger esses ambientes ajuda no enfrentamento das mudanças climáticas ao mesmo tempo em que preserva a biodiversidade.
Outra ideia central é a conectividade. As áreas protegidas não devem ficar isoladas; quando habitats se conectam, os animais conseguem se deslocar com mais segurança e os ecossistemas tendem a permanecer mais saudáveis.
Por fim, o estudo reforça que o sucesso não deve ser medido apenas pela quantidade de terra protegida, mas também por como a natureza está, de fato, respondendo.
A Austrália já apresentou um avanço expressivo na ampliação de áreas protegidas. Agora, precisa dar o próximo passo: proteger a natureza não é só adicionar mais território - é escolher o território certo no momento certo.
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