Na França, a adoção da inteligência artificial dentro das empresas ainda é irregular. Entre o uso raso de ferramentas voltadas ao grande público e os desvios de segurança, a distância entre a empolgação do discurso e a operação do dia a dia continua enorme. Para entender esse descompasso, o Presse-citron conversou com Tristan Duranté, cofundador da Studeria, uma consultoria especializada em IA generativa. O diagnóstico dele é direto: para muita gente, ainda é preciso recomeçar do zero.
Na prática, a implementação da tecnologia esbarra num paradoxo evidente: dinheiro para investir existe, mas o retorno sobre investimento (ROI) raramente acompanha. “Quando a gente olha a situação na França, as torneiras de financiamento estão totalmente abertas, seja pelo plano França 2030, pelo CPF ou pelos OPCO para pagar as formações. Todos os sinais orçamentários estão verdes”, afirma Tristan Duranté.
Mesmo assim, ao entrar de fato nas organizações, o entusiasmo cai rápido. O especialista descreve um cenário sem suavizar: “No terreno, existem duas possibilidades: ou a empresa está descobrindo a IA generativa e está tudo por fazer, ou ela já fez formações e, na maioria dos casos, está tudo por refazer”.
Parte do problema, segundo ele, vem da falta de referências claras no mercado. “Como ainda não existe um referencial para certificar especialistas, a gente vê uma onda de autodidatas que se autoproclamam especialistas”, lamenta o cofundador da Studeria. “Consequentemente, existe um fosso enorme entre o que é ensinado no papel e o que é realmente implementado no cotidiano”, completa.
No fim, o medo de “ficar para trás” não se converte, na mesma proporção, em resultado econômico. Como ele resume, “apenas uma parcela ínfima dos projetos de inteligência artificial leva a uma adoção contínua e a um verdadeiro retorno sobre investimento”.
Usos irresponsáveis
Um dos principais nós está na confusão entre usar, de maneira recreativa, um produto popular e ter uma estratégia real de integração. Muitas organizações acreditam ter virado a página da modernidade quando, na prática, só passam por cima do tema. “Usar ChatGPT ou Claude sozinho, no seu canto, não é integrar soluções que realmente ajudam. Isso não é fazer IA”, crava Tristan Duranté.
A esse autoengano se soma outro problema recorrente: o shadow IT, ou seja, o uso de ferramentas digitais sem o aval da área de TI. Para exemplificar, o cofundador da Studeria relata uma situação marcante vivida com um grupo de altos executivos: “Todas e todos já tinham recebido sensibilizações sobre IA generativa. Mas, nos usos, não havia ao mesmo tempo nada de concreto e nada de responsável”.
Sem terem visto demonstrações de casos de uso realmente tangíveis, esses líderes não criam reflexos produtivos aplicáveis à rotina. Pior: acabam expondo suas organizações a riscos relevantes. “Eles vão colocar dado profissional confidencial numa IA generalista com acesso pessoal”, recorda o especialista. Para ele, trata-se de uma postura “ao mesmo tempo perigosa porque irresponsável, e inútil porque ineficaz”.
Vale lembrar que uma grande parte das ferramentas de IA voltadas ao grande público é americana: assim, a quantidade enorme de dados que elas ingerem acaba indo para o outro lado do Atlântico - inclusive os mais sensíveis.
O impacto real no emprego
Outro tema que concentra tensões em torno da inteligência artificial é o futuro dos trabalhadores. A conjuntura recente ajuda a alimentar a preocupação: gigantes de tecnologia como a Meta emendaram cortes de pessoal, enquanto um estudo da Coface estima que um em cada cinco empregos pode estar ameaçado até 2030 na França.
Ainda assim, no “Hexágono”, a situação não replica automaticamente a dinâmica da Silicon Valley. “No mercado francês, composto em grande parte por microempresas, pequenas e médias empresas e empresas de médio porte, a IA não vai necessariamente destruir vagas. Ela vai, antes, permitir buscar crescimento sem precisar contratar imediatamente”, avalia Tristan Duranté.
O foco, para ele, é elevar a produtividade para dar conta de uma carga de trabalho em expansão. “As tarefas que a IA vai eliminar são as de baixíssimo valor agregado”, que, de todo modo, não interessam a ninguém. “Eu vejo mais essa transição como uma alavanca de valorização das competências no longo prazo”, interpreta o cofundador da Studeria.
Nessa lógica, a IA deveria servir sobretudo para “liberar cérebro humano” e realocá-lo em missões mais estratégicas, como relacionamento com clientes ou desenvolvimento comercial. Por enquanto, porém, ainda é difícil antecipar o impacto real no longo prazo.
A abordagem da Studeria
Nesse cenário, a Studeria, criada em 2021, ajuda organizações a adotar a tecnologia de forma mais consistente e sem atritos. “A gente gosta de dizer que somos o pequeno médico que vem tirar as pedrinhas do sapato das equipes”, resume Tristan Duranté. “Não vamos instalar ChatGPT só porque você tem vontade de colocar ChatGPT. Primeiro, partimos das suas dores operacionais e dos seus problemas de negócio para responder da forma mais simples”, continua.
A proposta tem mostrado resultado. Hoje instalada perto da estação Saint-Lazare, em Paris, a empresa tem 15 funcionários e conta com uma rede de 40 consultores para apoiar a transformação de companhias francesas. Com a intenção de reforçar sua posição num mercado que ainda está se estruturando, a jovem empresa também prepara uma captação de recursos para acelerar o crescimento.
Enquanto isso, segue “evangelizando” o mercado do seu jeito, inclusive com webinários gratuitos para ajudar profissionais a transformar, enfim, a IA em uma alavanca real de crescimento.
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