Ao longo da história registada, cabelo e unhas sempre serviram como sinais de identidade e de posição social. Em certo sentido, são um detalhe que distingue o homem das cavernas do homem de negócios.
Por isso, durante os confinamentos da COVID, muita gente passou a valorizar ainda mais cabeleireiros e profissionais de unhas. Até Taylor Swift contou que, no isolamento, ela própria cortou o cabelo.
Mas e se cuidar do cabelo e das unhas deixasse de fazer parte da rotina e a pessoa simplesmente parasse? Cabelo e unhas continuariam a crescer sem parar?
Sim. Em média, o cabelo na cabeça cresce 1 centímetro por mês, enquanto as unhas das mãos aumentam pouco mais de 3 milímetros no mesmo período.
Quando não são aparados, ambos podem atingir comprimentos impressionantes. Aliia Nasyrova, conhecida como a Rapunzel ucraniana, tem o recorde mundial do maior comprimento de cabelo em uma mulher viva: 257.33 cm.
Já no caso das unhas, o recorde pertence a Diana Armstrong, dos Estados Unidos, com 1,306.58 cm.
Ainda assim, a maioria de nós corta o cabelo e apara as unhas com regularidade - algumas pessoas com mais frequência do que outras. Então, por que o cabelo e as unhas de certas pessoas parecem crescer mais depressa?
Relembre: do que eles são feitos?
Tanto o cabelo quanto as unhas são formados sobretudo por queratina. Os dois se desenvolvem a partir de células da matriz, abaixo da pele, mas seguem padrões diferentes de divisão celular.
As unhas crescem de forma contínua graças às células da matriz localizadas sob a pele, na base da unha. Essas células se dividem e empurram as mais antigas para a frente. À medida que avançam, as células novas deslizam sobre o leito ungueal - a área plana sob a unha que parece rosada por causa do abundante suprimento de sangue.
O cabelo também começa a crescer a partir de células da matriz, até formar a parte visível - a haste. A haste se desenvolve a partir de uma raiz situada sob a pele e envolvida por uma estrutura em forma de saco chamada folículo piloso.
Esse folículo possui inervação (o que explica por que dói arrancar um fio), glândulas produtoras de óleo que lubrificam o cabelo e um músculo pequeno que faz os pelos se eriçarem quando está frio.
Na base do folículo fica o bulbo capilar, que contém a importante papila capilar - responsável por levar sangue ao folículo.
Perto da papila, as células da matriz se dividem e geram novas células de cabelo, que depois endurecem e formam a haste. À medida que essas células novas surgem, o fio é empurrado para fora, acima da pele, e o cabelo cresce.
Além disso, a papila tem um papel central no controlo dos ciclos de crescimento: ela envia sinais às células-tronco para se deslocarem até a base do folículo e formarem a matriz capilar. Em seguida, as células da matriz recebem sinais para se dividir e dar início a uma nova fase de crescimento.
Ao contrário das unhas, o cabelo cresce em ciclos
Pesquisadores identificaram quatro fases no crescimento do cabelo:
- anágena, ou fase de crescimento, que dura entre dois e oito anos
- catágena, ou fase de transição, quando o crescimento desacelera, durando cerca de duas semanas
- telógena, ou fase de repouso, em que não há crescimento. Em geral, dura de dois a três meses
- exógena, ou fase de queda, quando o fio cai e é substituído por um novo cabelo que cresce a partir do mesmo folículo. A partir daí, o ciclo recomeça.
Ciclo de crescimento do cabelo. (Iv__design/Getty Images)
Ao longo da vida, cada folículo passa por esse ciclo de 10–30 vezes.
Se todos os folículos crescessem no mesmo ritmo e entrassem nas mesmas fases ao mesmo tempo, haveria momentos em que todos ficaríamos carecas. Isso normalmente não acontece: em qualquer instante, apenas um em cada dez fios está na fase de repouso.
Embora percamos por volta de 100–150 fios por dia, a pessoa média tem 100,000 fios na cabeça, então essa queda natural quase não é percebida.
Então, o que interfere na velocidade de crescimento?
A genética é o fator mais relevante. Embora a taxa de crescimento do cabelo varie de uma pessoa para outra, ela costuma ser parecida entre familiares.
As unhas também sofrem influência genética, já que irmãos - especialmente gémeos idênticos - tendem a apresentar velocidades de crescimento semelhantes.
Mas não é só isso.
A idade também altera o crescimento de cabelo e unhas, mesmo em pessoas saudáveis. Em geral, pessoas mais jovens apresentam taxas maiores, porque o metabolismo e a divisão celular desaceleram com o envelhecimento.
Mudanças hormonais podem pesar nesse processo. A gravidez frequentemente acelera o ritmo de crescimento de cabelo e unhas, enquanto a menopausa e níveis elevados do hormónio do stress cortisol podem reduzir essa velocidade.
A nutrição também afeta a resistência e a rapidez do crescimento. Apesar de serem compostos sobretudo por queratina, cabelo e unhas também contêm água, gorduras e diversos minerais. Como continuam a crescer, esses minerais precisam ser repostos.
Por isso, uma alimentação equilibrada, com nutrientes suficientes para dar suporte ao cabelo e às unhas, é essencial para manter a saúde de ambos.
Deficiências nutricionais podem favorecer queda de cabelo e quebra das unhas ao desorganizar o ciclo de crescimento ou enfraquecer a estrutura. Deficiência de ferro e de zinco, por exemplo, já foi associada tanto à queda de cabelo quanto a unhas quebradiças.
Isso ajuda a entender por que, durante muito tempo, cabelo espesso e unhas fortes e bem cuidadas foram ligados à perceção de boa saúde e de status elevado.
No entanto, nem toda perceção corresponde à realidade.
Não, cabelo e unhas não crescem após a morte
Existe um mito persistente - possivelmente relacionado às lendas de vampiros - de que cabelo e unhas continuariam a crescer depois que morremos.
Na prática, é só aparência. Após a morte, o corpo desidrata e a pele retrai, fazendo com que cabelo e unhas pareçam mais compridos.
Profissionais de tanatopraxia conhecem bem esse efeito, e alguns aplicam preenchimento tecidual nas pontas dos dedos da pessoa falecida para reduzir a impressão de alongamento.
No fim, ao que tudo indica, vivos ou mortos, não há como fugir do cuidado contínuo com cabelo e unhas.
Michelle Moscova, Professora Associada Adjunta, Anatomia, UNSW Sydney
Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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