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Cientistas da UNICAMP e da USP revelam complexo de espécies de Eois russearia no Brasil inspirado nos Orixás

Homem analisando borboletas em placa branca ao ar livre com livro aberto sobre insetos ao lado

Por mais de 200 anos, uma pequena mariposa marrom circulou discretamente sob o mesmo nome. A comunidade científica a tratava como uma única espécie, descrita pela primeira vez em 1818.

À primeira vista, ela parecia comum: a envergadura (de uma ponta da asa à outra) tinha menos de 2,5 cm. Mas, quando os pesquisadores olharam com mais cuidado, a história mudou por completo.

O que por muito tempo foi considerado uma única espécie, na verdade, era um conjunto de várias. Por trás de aparências quase idênticas, havia mariposas distintas, distribuídas por diferentes regiões do Brasil.

A descoberta veio de uma equipe da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e da Universidade de São Paulo (USP), que recorreu a múltiplas linhas de evidência.

Para chegar ao resultado, os cientistas cruzaram análises genéticas, características físicas e informações sobre as plantas usadas pelos insetos ao longo do ciclo de vida.

“Este estudo mostra como integrar diferentes técnicas é importante na descrição de espécies”, afirmou Simeão de Souza Moraes, coordenador do trabalho e pesquisador do Instituto de Biologia da UNICAMP.

“Além disso, o processo de escolha dos nomes tem um caráter anticolonial e anti-imperialista ao batizar as novas espécies com referências da cultura afro-brasileira.”

Nomes das mariposas Eois inspirados nos Orixás

Essas mariposas eram reunidas, até então, sob o nome Eois russearia. O novo trabalho demonstrou que o nome, na prática, encobria um complexo de espécies - com oito agora reconhecidas no Brasil.

Sete das espécies recém-descritas receberam denominações inspiradas em Orixás, figuras centrais das religiões afro-brasileiras Candomblé e Umbanda.

A oitava, Eois stantonae, foi nomeada em homenagem à pesquisadora Mariana Alves Stanton, que morreu em 2024 enquanto contribuía para o estudo.

As espécies identificadas ocupam ambientes bastante diferentes entre si. Algumas ocorrem na Amazónia, nas proximidades de Manaus.

Outras aparecem nas áreas alagadas do Pantanal ou ao longo do rio Mogi Guaçu, numa zona de transição em que a Mata Atlântica encontra o Cerrado.

As pistas que passaram despercebidas

Encontrar espécies “escondidas” não é raro entre insetos. Muitos grupos incluem o que os cientistas chamam de espécies crípticas: animais quase indistinguíveis no aspecto externo, mas geneticamente diferentes.

Neste complexo de mariposas, o desafio foi maior porque até especialistas tinham dificuldade para separá-las apenas pela aparência. Para complicar, várias dessas espécies vivem nos mesmos locais, o que torna a identificação ainda mais confusa.

O avanço veio ao investigar detalhes que costumam receber menos atenção em estudos com mariposas. Um indício decisivo foi a estrutura dos órgãos reprodutores das fêmeas.

Durante décadas, a classificação de insetos dependeu muito da anatomia dos machos, em parte porque as estruturas masculinas são mais fáceis de examinar e de conservar. Outra pista importante surgiu das plantas usadas pelas lagartas.

Uma ligação com plantas de pimenta

Espécies do género Eois depositam os ovos em plantas do grupo Piper, que inclui a pimenta-do-reino. Depois da eclosão, as lagartas alimentam-se das folhas.

A equipa contou com um botânico para identificar quais espécies de Piper estavam associadas a cada mariposa. Com isso, os pesquisadores perceberam que mariposas diferentes preferiam plantas hospedeiras diferentes e se relacionavam com elas de maneiras distintas.

Essas interações são relevantes porque as plantas de Piper produzem compostos químicos naturais.

Alguns insetos conseguem absorver ou processar essas substâncias, e elas chamam a atenção dos cientistas por poderem ter aplicações biotecnológicas no futuro.

“Ao analisar o órgão sexual feminino das mariposas, a diferença é muito grande”, disse Moraes. “Mesmo sem ferramentas moleculares, seria possível diferenciar as espécies com uma precisão considerável combinando a morfologia da genitália feminina com registos das plantas hospedeiras das lagartas.”

Aumentando a contagem de espécies de mariposas

As implicações do estudo vão além de um único grupo. Em trabalhos anteriores, os mesmos cientistas já tinham concluído que o número de espécies do género Eois vinha sendo subestimado.

Pela análise deles, o total real pode ser 176% maior do que o inicialmente pensado.

Este estudo, por sua vez, aponta ainda para a existência de pelo menos mais três tipos de mariposas dentro do complexo analisado.

A análise genética sustenta essa indicação, mas ainda faltam dados suficientes sobre os exemplares físicos e os habitats dessas espécies.

Por décadas, acreditou-se que a diversidade de espécies de todo o grupo de mariposas chamado Larentiinae atingia o pico em temperaturas mais frias e em regiões montanhosas, como os Andes.

Lições das mariposas dos Orixás

A Amazónia, a Mata Atlântica e o Pantanal são regiões tropicais de baixa altitude. O facto de várias espécies próximas entre si viverem nesses ambientes sugere que a biodiversidade dessas paisagens pode ser mais rica do que se reconhecia até agora.

Em vez de ser definida sobretudo pelo clima, essa diversidade pode estar ligada a relações altamente especializadas entre insetos e plantas.

Até distâncias geográficas relativamente curtas podem gerar pressões ecológicas distintas, favorecendo que espécies sigam trajetórias evolutivas separadas.

“Os nossos resultados demonstram que regiões de baixa altitude também abrigam uma diversidade significativa de espécies, provavelmente devido a interações altamente especializadas entre larvas e as suas plantas hospedeiras que criam diferentes pressões seletivas mesmo em distâncias geográficas curtas”, concluem os pesquisadores.

O estudo reforça que muitas espécies permanecem ocultas à vista de todos. Em alguns casos, as maiores descobertas não vêm de encontrar algo totalmente novo, mas de perceber que aquilo que parecia uma coisa só, na verdade, era muitas.

O trabalho completo foi publicado na revista Scientific Reports.

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