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Híbrido raro de gaio-azul e gaio-verde no Texas revela sobreposição causada pelas mudanças climáticas após 7 milhões de anos

Homem observa pássaro azul no quintal usando binóculos e celular, com caderno aberto na mesa.

Um híbrido de gaio-azul e gaio-verde aparece no Texas

Um pássaro incomum visto no quintal de uma casa no Texas é, segundo um novo estudo, o filhote de duas espécies aparentadas de forma distante - separadas por cerca de 7 milhões de anos de evolução - cujas áreas de distribuição só recentemente passaram a se sobrepor por causa das mudanças climáticas.

Os pesquisadores identificaram que a ave descende de um gaio-azul (Cyanocitta cristata), nativo do leste e do centro dos Estados Unidos, e de um gaio-verde (Cyanocorax luxuosus), tradicionalmente encontrado na América Central, no México e no sul do Texas.

"Achamos que é o primeiro vertebrado observado que se hibridizou porque duas espécies, ao mesmo tempo, ampliaram suas áreas de ocorrência devido, ao menos em parte, às mudanças climáticas", afirma o ecólogo Brian Stokes, da University of Texas at Austin.

Expansão de áreas por mudanças climáticas leva ao encontro das espécies

Híbridos de vertebrados já foram registrados na natureza, muitas vezes impulsionados por ações humanas - como a introdução de espécies invasoras em novos ambientes - ou quando a expansão de uma espécie invade a área de outra, a exemplo de ursos-pardos avançando para o norte e cruzando com ursos-polares.

Ainda assim, este gaio híbrido parece ser o primeiro caso conhecido de descendente gerado por duas espécies parentais distintas cujas áreas, ambas, se expandiram e convergiram em resposta a padrões meteorológicos em transformação.

Os gaios-verdes são corvídeos de coloração marcante, associados sobretudo a regiões tropicais e subtropicais, com distribuição ampla que vai de Honduras ao sul do Texas. Já os gaios-azuis ocupam uma faixa enorme do leste da América do Norte, mas, historicamente, sua presença não avançava além das porções orientais do Texas.

Até pouco tempo atrás, era raro que as duas espécies se encontrassem.

Com o aumento das atividades humanas, porém, ambas passaram a se aproximar. A elevação das temperaturas vem ampliando as zonas climáticas tropicais e subtropicais, por exemplo, o que favorece o avanço do gaio-verde para latitudes mais ao norte, onde antes o frio limitava sua sobrevivência.

Em paralelo, desde meados do século XX, o gaio-azul tem ampliado sua distribuição tanto para o norte quanto para o oeste, impulsionado pelas mudanças climáticas e por diferentes transformações no uso do solo, das quais a espécie conseguiu tirar proveito. Um desses movimentos foi um avanço em direção ao oeste através do Texas.

Stokes e colegas observam que as expansões dos dois gaios vêm convergindo na região da cidade de San Antonio.

Captura, genética e o retorno do pássaro em 2025

Stokes acompanha com frequência fóruns de observadores de aves na internet em busca de registros curiosos na área, e foi assim que o gaio azul-esverdeado - talvez um “grue” ou “bleen”, como brincou - chamou sua atenção.

Em 2023, um observador de aves de um subúrbio de San Antonio publicou a foto de um indivíduo estranho: corpo predominantemente azul, face preta e peito branco. Interessado, Stokes pediu autorização para visitar o quintal e tentar ver o animal mais de perto.

"No primeiro dia, tentamos capturá-lo, mas ele não colaborou nem um pouco", conta Stokes. "Mas, no segundo dia, demos sorte."

A equipe conseguiu apanhar o gaio com uma rede de neblina, feita de malha fina de nylon, difícil de ser percebida por uma ave em voo.

Antes de soltá-lo, Stokes recolheu uma amostra de sangue e colocou uma anilha na perna, para que o indivíduo pudesse ser reconhecido caso fosse observado novamente.

Depois disso, o gaio não foi visto por alguns anos, mas em junho de 2025 reapareceu de forma repentina exatamente no mesmo quintal.

"Não sei o que foi, mas pareceu uma espécie de acaso aleatório", diz Stokes. "Se ele tivesse ido para duas casas abaixo, provavelmente nunca teria sido registrado em lugar nenhum."

De acordo com o estudo, o animal é um híbrido macho, filho de um pai gaio-azul e de uma mãe gaio-verde.

Isso não é totalmente inédito: na década de 1970, pesquisadores cruzaram deliberadamente as duas espécies em cativeiro e obtiveram um filhote de aparência semelhante à deste novo híbrido. A diferença, agora, é que as duas espécies aparentemente também estão cruzando por conta própria na natureza.

"A hibridização provavelmente é muito mais comum no mundo natural do que os pesquisadores sabem, porque existe muita dificuldade de relatar essas coisas quando acontecem", afirma Stokes.

"E provavelmente isso pode ocorrer em muitas espécies que simplesmente não vemos, porque elas estão fisicamente separadas umas das outras e, assim, não têm a oportunidade de tentar acasalar", acrescenta.

O estudo foi publicado em Ecology and Evolution.

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