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Garrafas plásticas em redes de pesca reduzem a captura acidental de golfinhos

Homem em barco prepara recipientes perto de golfinho no mar ao pôr do sol.

Todos os anos, golfinhos e toninhas acabam entrando em redes de pesca que não conseguem perceber a tempo. Esse tipo de equipamento é feito de nylon fino, quase invisível na água e praticamente silencioso para animais que se orientam no oceano pelo som.

Essa captura não intencional tem nome: captura acidental (bycatch) - e é a maior causa de morte de golfinhos, toninhas e baleias em todo o mundo.

Durante décadas, a principal forma de defesa foram alarmes a bateria conhecidos como pingers. Eles funcionam em alguns locais, mas custam muito mais do que muitos pescadores artesanais conseguem pagar.

E é aí que mora o problema: nas pescarias costeiras, onde a maior parte da captura acidental acontece, quem depende da renda de uma temporada não consegue investir uma fortuna para equipar cada rede com dispositivos eletrónicos.

O problema das redes invisíveis

As redes de emalhe ficam suspensas no mar como cortinas compridas, algumas chegando a quase 3,2 km de extensão.

Quando um golfinho “varre” o caminho à frente com a ecolocalização, quase não recebe retorno daquela malha fina.

O eco é fraco demais e, quando o animal finalmente percebe a rede, muitas vezes já está enroscado. Foi por isso que um grupo de investigadores mudou a pergunta: e se fosse possível tornar a rede mais fácil de ouvir?

Transformando lixo em aviso

A ideia surgiu com Per Berggren, professor de conservação de megafauna marinha na Newcastle University.

Ele observou que garrafas vazias de vidro e de plástico de bebidas aparecem na areia justamente nas mesmas zonas costeiras onde essas pescarias ocorrem.

Em vez de tratar esse material como lixo, Berggren propôs fixar as garrafas nas redes para que elas funcionassem como um alerta, afastando os golfinhos.

Como as garrafas “falam”

Uma garrafa plástica mantém uma bolsa de ar, e o ar é um dos mais fortes refletores de som na água do mar.

Quando o clique de um golfinho atinge essa bolsa, um eco intenso volta, e uma rede que antes “sumia” passa a se destacar claramente.

Já a garrafa de vidro atua produzindo ruído. Cada uma leva um parafuso metálico preso por uma corda no interior; assim, sempre que uma onda balança a rede, o parafuso oscila e bate, reproduzindo um toque regular semelhante ao de um pinger comercial.

Testes em laboratório, num tanque acústico, reforçaram a hipótese: uma única garrafa plástica tornou a rede entre 100 e 1.000 vezes mais fácil de detetar - um salto enorme para um animal que depende de retornos muito fracos.

Três pescarias, uma pergunta

A equipa levou as garrafas para três áreas de pesca bem diferentes.

Em Zanzibar e no Peru, os pescadores usam redes de deriva que flutuam perto da superfície. Já no sul do Brasil, as redes ficam assentadas no fundo do mar.

Mais de 1.600 lançamentos de rede foram acompanhados por observadores a bordo e comparados com redes comuns, sem garrafas.

A comparação mostraria se garrafas baratas poderiam, de facto, mudar as probabilidades para um golfinho.

Um resultado promissor no Brasil

Foi no Brasil que surgiu o sinal mais claro de esperança. Nas redes de fundo equipadas com garrafas plásticas, não houve sequer um caso de captura de golfinho, enquanto as redes de controlo (sem adaptação) continuaram a matá-los.

Para os pescadores, o resultado foi ainda melhor: o peso de peixe desembarcado aumentou.

Uma das espécies sob risco nessa região, a franciscana, está classificada como Vulnerable pela International Union for Conservation of Nature (IUCN).

Onde as garrafas não funcionaram

Nas pescarias de superfície, o desempenho foi dececionante. Nem as garrafas de vidro nem as de plástico reduziram a captura de golfinhos, toninhas ou tartarugas no Peru ou em Zanzibar.

Ainda assim, houve um lado positivo: nesses mesmos locais, as garrafas plásticas aumentaram a captura de atum e de outros peixes-alvo - aliviando um receio comum de que mexer no equipamento possa diminuir o rendimento.

Os “pingers” de vidro também trouxeram um efeito próprio. No Peru, eles alteraram a proporção de tubarões e raias que acabavam nas redes.

Isso indica que um dispositivo criado para ajudar golfinhos pode provocar mudanças no restante da captura.

Por que a profundidade pode importar

O contraste entre redes no fundo e redes perto da superfície aponta para um provável fator explicativo.

Em águas mais profundas, o ambiente é mais escuro e mais calmo; assim, os golfinhos tendem a depender mais da ecolocalização e conseguem captar com mais nitidez os ecos gerados pelas garrafas.

The difference we saw in the success of the bottom set nets compared to the nets near the surface, may be that the surface water is a noisier environment reducing the efficacy of the plastic bottle reflectors,” disse Berggren.

Uma solução simples para os golfinhos

O primeiro teste no Brasil foi animador, mas ainda não definitivo - então a equipa continuou. O estudo foi ampliado e passaram a acompanhar 318 viagens de pesca, novamente comparando redes com garrafas a redes padrão.

Desta vez, o efeito foi marcante: redes com garrafas plásticas reduziram a captura acidental de golfinhos em 88%, e a captura de peixes com valor comercial manteve-se estável.

This is a good news story and something that we strive for – a simple solution which benefits both dolphins and the fishers who use the gear,” afirmou Berggren.

Attaching plastic bottles to fishing nets can reduce dolphin bycatch globally and is something that every fisher can afford.

It’s also rewarding to know that we are using some of the plastic waste that spoils our oceans.

Berggren acrescentou que as garrafas ficaram bem presas às redes e que nenhuma garrafa plástica se perdeu durante os ensaios.

O que vem a seguir

O atrativo do método é o custo praticamente nulo.

Uma garrafa vazia não custa nada, o que coloca a solução ao alcance de pescadores que não conseguem comprar um pinger eletrónico.

Neste momento, já existem testes em andamento no Camboja e no Congo, para avaliar até onde a ideia pode chegar.

We are excited to share this method and spread the word and work with governments and agencies around the world to encourage the adoption of this low-cost mitigation method to reduce marine mammal mortalities in fisheries,” disse Berggren.

This is genuinely recycling that rescues dolphins.

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