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Resiliência estratégica, transformação digital e a presença da Força Aérea do Chile no RUSI

Militar em uniforme faz apresentação com mapa-múndi digital, ao lado de bandeiras do Chile e Reino Unido.
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Nessa mesma linha, Londres sediou o seminário "Resiliência estratégica: dissuasão, modernização e resiliência estratégica na América Latina", realizado em parceria pelo Royal United Services Institute (RUSI) e pelo Department of War Studies do King’s College London, uma das escolas mais influentes do mundo em estudos estratégicos. O encontro reuniu pesquisadores, acadêmicos, representantes da indústria de defesa e oficiais de diferentes países para discutir como inteligência artificial, sistemas autônomos, guerra eletrônica, transformação digital e integração multidomínio vêm alterando o caráter da guerra. > **Você pode se interessar** > > - Em imagens – Um MH-60M Black Hawk da Força Aérea do Chile oferece apoio vital em tarefas de recuperação de infraestrutura crítica > - Escudo de Aquiles: a Grécia destinará até 3.400 milhões de euros para estruturar seu novo sistema de defesa aérea ## Resiliência estratégica e as lições da guerra entre Rússia e Ucrânia Desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, um conceito ganhou tração especial: **resiliência estratégica**. Durante décadas, as forças armadas ocidentais investiram pesadamente em plataformas cada vez mais sofisticadas, apostando que a superioridade tecnológica seria suficiente para assegurar a vitória. O conflito na Ucrânia, porém, evidenciou que essa leitura não bastava. Passou a ser tão relevante quanto a tecnologia a habilidade de sustentar o esforço militar por longos períodos, manter cadeias logísticas operando sob ataque, proteger redes de comunicação, garantir a produção industrial, resistir a campanhas de desinformação e repor perdas de meios e de efetivos com rapidez. Em termos práticos, resiliência deixou de ser apenas um termo ligado à gestão de crises e passou a ocupar um lugar central no poder militar. Isso significa que a defesa nacional já não depende somente das Forças Armadas: entram na equação infraestrutura crítica, indústria, telecomunicações, cibersegurança, sistema energético, setor espacial e até a capacidade do Estado de manter serviços essenciais funcionando durante um conflito. Não por acaso, esse tipo de debate acontece justamente no RUSI, entidade que nos últimos anos se consolidou como um dos principais laboratórios intelectuais da OTAN para interpretar as lições deixadas pela Ucrânia. Um dos pontos mais significativos do seminário foi, justamente, a leitura das mudanças observadas no conflito ucraniano. A guerra acelerou ciclos tecnológicos que, em condições normais, provavelmente levariam décadas para se firmar. Drones deixaram de atuar apenas como suporte tático e passaram a figurar entre os protagonistas do campo de batalha. A inteligência artificial começou a ser usada para tratar volumes massivos de dados vindos de sensores, satélites e veículos não tripulados. A guerra eletrônica recuperou um protagonismo que muitos consideravam superado após as campanhas ocidentais das últimas décadas. Além disso, a integração quase instantânea entre sensores e sistemas de armas encurtou de forma drástica os tempos de decisão - e a transformação digital saiu do campo administrativo para virar exigência operacional. Tudo isso está redesenhando a forma como as forças militares do futuro são concebidas. Hoje, não basta comprar uma aeronave de última geração: a vantagem competitiva real está em conectar sensores, plataformas e sistemas de comando em uma mesma arquitetura, com capacidade de operar em tempo real. ## O que a presença da Força Aérea do Chile (FACh) no RUSI indica O fato de oficiais chilenos estarem conduzindo pesquisas exatamente nessas áreas permite enxergar uma tendência que a Força Aérea do Chile vem consolidando há alguns anos. Historicamente, a instituição preservou uma forte orientação para incorporar tecnologias cedo, algo favorecido pela natureza altamente tecnológica do poder aéreo. O cenário atual, contudo, demanda ir além da simples chegada de novos meios. As pesquisas desenvolvidas por oficiais chilenos em temas como sistemas aéreos não tripulados, transformação digital, inovação tecnológica e resiliência estratégica apontam diretamente para essa nova etapa. O desafio não se resume a incorporar drones ou inteligência artificial. O ponto decisivo é inseri-los em uma doutrina operacional coerente, capaz de extrair plenamente suas vantagens. Nesse sentido, a formação acadêmica em instituições como o RUSI funciona como uma via de acesso direto ao debate doutrinário que está moldando as capacidades militares ocidentais do futuro. ### Transformação digital como mudança cultural Um equívoco recorrente é tratar a transformação digital apenas como adoção de novos sistemas de TI. Na prática, ela envolve uma alteração profunda na maneira de decidir. Organizações militares contemporâneas precisam encurtar o intervalo entre detectar uma ameaça, processá-la, decidir e executar a resposta. Isso requer processos amplamente digitalizados, troca constante de informações e sistemas capazes de integrar múltiplas fontes de inteligência - mas também exige mudança cultural. Estruturas excessivamente hierarquizadas, com rotinas lentas e formatos rígidos tendem a sofrer mais para se ajustar a ambientes em que decisões precisam ser tomadas quase em tempo real. É justamente aí que a experiência internacional ganha ainda mais peso. Entre os temas pesquisados por oficiais da FACh, destacam-se os **Sistemas Aéreos Não Tripulados (UAS)**. A experiência da Ucrânia confirmou que esses meios já não são uma capacidade acessória. Hoje, eles cumprem papéis que vão de reconhecimento estratégico, inteligência e vigilância até aquisição de alvos, ataque de precisão, guerra eletrônica e até logística. A evolução tecnológica vem derrubando custos dessas plataformas ao mesmo tempo em que amplia sua autonomia e sua aptidão para atuar em ambientes complexos. Tudo aponta para forças aéreas futuras operando com uma combinação de aeronaves tripuladas e não tripuladas, integradas em um mesmo sistema de combate. A discussão, portanto, não é substituir pilotos por drones. O desafio de fato é criar uma arquitetura na qual os dois tipos de sistemas atuem de forma colaborativa. Outro tema tratado no seminário foi o aumento do peso do espaço como dimensão operacional. Observação por satélite, comunicações seguras, sistemas de navegação e monitoramento permanente do território são hoje capacidades críticas para qualquer força militar moderna. O Chile começou a avançar nesse campo por meio do **Sistema Nacional Satelital** e de diferentes iniciativas associadas à observação da Terra. Para a Força Aérea, a integração entre capacidades espaciais, sensores terrestres, radares, aeronaves e sistemas não tripulados configura um dos principais desafios tecnológicos da próxima década. Outro ponto que merece atenção especial é o valor de vínculos acadêmicos como esses. Parcerias entre instituições militares e centros de pensamento dão acesso a pesquisas, metodologias e análises que dificilmente seriam desenvolvidas de modo isolado. O RUSI mantém relações estreitas com governos, forças armadas, universidades e indústria de defesa, o que o torna um espaço privilegiado para antecipar tendências estratégicas antes que elas se convertam em programas concretos de modernização. Para uma força aérea de porte relativamente limitado como a chilena, esse tipo de cooperação funciona como um importante multiplicador de capacidade intelectual. Ainda que a América Hispânica não esteja hoje diante de conflitos interestatais comparáveis aos vistos no Leste Europeu, isso não significa que a região possa ficar à margem dessas mudanças. As novas tecnologias têm natureza transversal. Inteligência artificial, automação, ciberdefesa, espaço e sistemas autônomos tendem a ser incorporados gradualmente por todas as forças armadas, independentemente do nível de ameaça enfrentado. Por isso, participar desde cedo dos ambientes onde essas doutrinas estão sendo construídas ajuda a reduzir a distância tecnológica e doutrinária em relação às principais potências militares. ### Um investimento em conhecimento A presença de oficiais da Força Aérea do Chile como pesquisadores visitantes no RUSI vai além de um aperfeiçoamento profissional: trata-se de um investimento institucional em capital intelectual. As capacidades militares do futuro não dependerão apenas de orçamento ou de aquisições, mas também da habilidade de compreender como a guerra evolui e de ajustar, no tempo certo, doutrina, organização e processos. Nesse cenário, a experiência adquirida em Londres deve permitir a incorporação de novas perspectivas sobre resiliência estratégica, transformação digital, integração multidomínio e sistemas autônomos - conhecimentos que provavelmente influenciarão os próximos ciclos de modernização institucional. A guerra na Ucrânia mostrou que inovação já não é um caminho linear, nem exclusivamente tecnológico. Acima de tudo, ela é uma capacidade organizacional de aprender, adaptar-se e evoluir com rapidez. Nesse ambiente, a formação avançada de oficiais em centros de excelência como o RUSI não apenas amplia competências individuais, como também contribui para preparar a Força Aérea do Chile para um quadro estratégico cada vez mais dinâmico, interconectado e incerto. Porque, no fim, a principal lição do cenário internacional atual é que as guerras do futuro começarão muito antes do primeiro disparo: na capacidade de antecipar, inovar e construir resiliência. Esse parece ser, precisamente, o valor mais profundo da presença chilena em um dos principais centros de pensamento estratégico do mundo. *Fotografia de capa usada apenas a título ilustrativo.*

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