A neve nas montanhas não serve apenas para cobrir o terreno no inverno. Ela funciona como um reservatório natural de água. Quando as temperaturas sobem na primavera e no verão, o degelo alimenta rios e riachos que abastecem florestas, propriedades rurais e cidades.
No estado de Washington, o lado leste das Cascade Mountains é uma peça central desse equilíbrio. Só que a mudança climática já começa a desorganizar esse sistema. Os invernos estão ficando mais quentes, o volume de neve acumulada diminui, e as florestas passam a ficar mais expostas a incêndios.
Agora, quem faz a gestão florestal precisa enfrentar dois desafios ao mesmo tempo: reduzir o risco de fogo e, simultaneamente, preservar a neve que sustenta a oferta de água da Yakima River Basin.
Com isso em mente, pesquisadores da University of Washington e da The Nature Conservancy decidiram avaliar se práticas de manejo poderiam contribuir para as duas frentes.
O estudo indica que um desbaste florestal bem planejado diminui a vulnerabilidade a incêndios e também facilita que mais neve chegue ao solo.
Água armazenada na neve das montanhas
As Cascade Mountains guardam grandes volumes de água que abastecem o centro de Washington. Durante o inverno, a neve se acumula nas áreas elevadas e, depois, derrete aos poucos na primavera. Esse degelo gradual sustenta rios e córregos por muitos meses.
A Yakima River Basin depende intensamente desse armazenamento natural. Cerca de 75% da água da região tem origem na neve das montanhas, e agricultores, comunidades e a vida silvestre contam com esse suprimento.
A neve também é importante para as florestas e para os ecossistemas. Ela ajuda a manter o solo úmido, favorece o crescimento das plantas e contribui para que os cursos d’água mantenham uma vazão mais constante, condição necessária para a sobrevivência de peixes e outros animais aquáticos.
A mudança climática vem reduzindo essa neve. Com invernos mais amenos, cai mais chuva e neva menos.
Cientistas consideram que a neve acumulada na Cascade Range pode cair para aproximadamente metade nas próximas sete décadas. Com menos neve, haverá menos água disponível durante os meses secos do verão.
A atividade de incêndios florestais está aumentando
Nos Estados Unidos ocidentais, os incêndios florestais estão mais extensos e mais frequentes. Temperaturas mais altas e florestas ressecadas tornam o fogo mais fácil de iniciar e mais difícil de controlar.
A expectativa dos cientistas é que a atividade de incêndios continue crescendo no futuro. Estudos climáticos indicam que, nas próximas décadas, a área queimada por incêndios florestais nessa região pode aumentar bastante.
O fogo também interfere na neve. Depois de um incêndio, cinzas escuras e resíduos de material queimado costumam se depositar sobre a superfície. Por serem mais escuros do que a neve limpa, esses materiais absorvem mais luz solar, o que acelera o derretimento.
Ao mesmo tempo, quando há menos neve, a floresta perde umidade, fica mais seca e tende a pegar fogo com mais facilidade. Por isso, incêndios e perda de neve podem se retroalimentar e agravar um ao outro.
O desbaste florestal diminui o risco de incêndio
Gestores florestais já aplicam diferentes técnicas para reduzir o perigo de grandes incêndios. Uma das abordagens mais usadas é o desbaste florestal.
Nessa prática, parte das árvores é removida para que a mata não fique excessivamente densa. Outra estratégia é a queima controlada, feita de forma segura para eliminar vegetação seca.
Essas intervenções reduzem a quantidade de material vegetal disponível como combustível para incêndios de grande porte. Além disso, contribuem para que as florestas se aproximem de condições mais naturais.
Apesar disso, ainda não havia clareza completa sobre como esses tratamentos alteram o acúmulo de neve. Como as árvores influenciam a neve de maneiras complexas, os pesquisadores precisavam examinar essa relação com mais detalhe.
Estudo no lado leste das Cascades
Os pesquisadores analisaram áreas florestais na Cle Elum Ridge, no lado leste das Cascades. A região fica nas cabeceiras da Yakima River Basin e tem papel relevante no armazenamento de neve.
A equipe realizou desbaste em aproximadamente 60,7 hectares de floresta. Em alguns trechos, a intervenção foi leve; em outros, a remoção de árvores foi maior. Assim, foram criadas diferentes condições florestais para comparação.
Em seguida, os especialistas mediram a neve durante o inverno de 2023 e compararam os resultados com os níveis registrados antes do desbaste.
Para investigar a área, o grupo combinou várias ferramentas. Câmeras de time-lapse acompanharam a profundidade da neve ao longo do inverno.
Os cientistas também recorreram ao lidar, uma tecnologia de mapeamento a laser que gera modelos tridimensionais detalhados da floresta e da neve. Com esse conjunto de instrumentos, foi possível entender melhor como a estrutura da vegetação influenciou o acúmulo de neve.
As árvores podem bloquear ou proteger a neve
As árvores interferem na neve principalmente de duas formas. Os galhos podem reter a neve que está caindo antes que ela chegue ao chão. A neve que fica presa nos ramos tende a derreter mais rápido ou a se transformar em vapor de água.
Por outro lado, a presença de árvores pode prolongar a permanência da neve ao oferecer sombra. A sombra reduz a incidência direta do sol e desacelera o derretimento.
“Árvores interceptam a neve e, por isso, podem reduzir o acúmulo no solo, mas também fazem sombra sobre a neve e, assim, podem manter esse acúmulo”, disse a autora sênior do estudo, Jessica Lundquist, professora de engenharia civil e ambiental na University of Washington.
“O efeito predominante depende das temperaturas do inverno, e a crista das Cascades perto de Cle Elum fica exatamente na faixa de transição em que o efeito muda: de as árvores diminuírem a neve para as árvores ajudarem a conservar a neve.”
Como a vegetação pode tanto impedir quanto proteger a neve, a forma e a densidade da floresta têm grande influência sobre quanto desse acúmulo permanece no solo.
O desbaste nas florestas aumentou a neve acumulada
Os resultados mostraram que o desbaste elevou a quantidade de neve armazenada no chão.
Em encostas voltadas ao norte, o acúmulo de neve subiu cerca de 30%. Em encostas voltadas ao sul, o aumento foi de aproximadamente 16%.
Mais neve chegou ao solo porque as aberturas na copa permitiram que a precipitação atravessasse com menos bloqueio.
Os pesquisadores também estimaram quanto de água essa neve representou. O desbaste acrescentou cerca de 15.172 m³ de água por 40,5 hectares em encostas voltadas ao norte e aproximadamente 6.291 m³ de água por 40,5 hectares em encostas voltadas ao sul.
Esses ganhos ajudam a sustentar a umidade do solo, os cursos d’água e os ecossistemas da região.
Pequenas clareiras na floresta funcionam melhor
O estudo mostrou que o espaçamento entre árvores muda o resultado. O maior acúmulo de neve ocorreu em aberturas na floresta com cerca de 4 a 16 metros de largura.
Essas clareiras de tamanho intermediário deixam a neve alcançar o solo, enquanto as árvores próximas ainda fornecem sombra. Em áreas muito densas, a copa barra neve demais; em espaços excessivamente abertos, o derretimento pode se acelerar.
Esse equilíbrio entre exposição ao sol e sombreamento foi o que criou as melhores condições para manter a neve armazenada.
É preciso melhorar a comunicação
A pesquisa também apontou que gestores florestais e especialistas em neve costumam analisar as florestas com abordagens diferentes.
“Uma coisa que todos nós aprendemos foi que o pessoal da neve e o pessoal das árvores falam línguas diferentes”, disse Lumbrazo.
“Especialistas diferentes olham para variáveis totalmente distintas para decidir se devem ou não derrubar uma única árvore. Então, um objetivo importante é fazer todo mundo falar a mesma língua. E acho que este artigo é um passo em direção a uma comunicação melhor.”
Uma colaboração mais próxima entre essas áreas pode ajudar a construir planos de manejo florestal que protejam, ao mesmo tempo, a floresta e a água.
Uma solução, dois problemas
Os achados trazem um sinal positivo. O desbaste florestal pode diminuir o risco de incêndios e, ao mesmo tempo, aumentar o armazenamento de neve.
“Em essência, esta pesquisa mostra que reduzir o risco de incêndios florestais e proteger os recursos hídricos não precisam ser metas concorrentes”, afirmou Lumbrazo.
À medida que a mudança climática continua afetando ambientes de montanha, estratégias de manejo florestal que preservem tanto as florestas quanto a oferta de água tendem a se tornar ainda mais importantes.
Um desbaste cuidadoso pode contribuir para manter a neve acumulada, sustentar rios e reduzir os danos dos incêndios em toda a região.
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