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Por que os mosquitos picam algumas pessoas e ignoram outras

Homem coçando braço com insetos enquanto mulher aplica repelente sentado em banco ao ar livre.

Você pode ter testado de tudo para escapar dessa praga: citronela, pulseiras “repelentes”, aquelas espirais fumegantes de cheiro ruim ou até a dieta sem açúcar sugerida pelo seu cunhado. Só que não dá para adoçar: foi dinheiro e tempo jogados fora. O que faz diferença, em grande parte, é a sua pele - e isso não é tão simples de trocar.

Preferências dos mosquitos: não é lenda urbana

Um dos grandes desaforos do verão é este: num churrasco animado ou numa noite abafada, seu antebraço vira uma “calculadora” de vergões enquanto o vizinho passa ileso. Não é mito: os mosquitos, sim, têm preferências. Como explica Frédéric Simard, diretor de pesquisa no Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD): “Nós não somos todos iguais diante” [do] “apetite” […] deles.

Ainda assim, ele ressalta que essa atratividade não é constante: nem sempre somos igualmente “interessantes” para eles. A razão é que a capacidade do mosquito de perceber a nossa presença depende de microvariações físicas e gasosas que passam totalmente despercebidas por nós.

Então, por que esses “vampiros” de seis patas e zumbido insuportável elegem algumas pessoas como alvo prioritário e deixam outras em paz, mesmo quando o lugar e a situação não parecem mudar nada?

A culpa é da sua pele

Existe mesmo uma preferência por certos tipos sanguíneos? Por cor de cabelo, dos olhos ou do tom de pele? Não. Essas ideias aparecem com frequência, mas são crenças populares: não há comprovação científica para isso.

CO₂, luz e movimento: o primeiro rastreio

Quando as fêmeas saem em busca de sangue, elas conseguem “marcar” a próxima vítima a dezenas de metros. Elas detectam bem luz e movimento, mas enxergam de forma imprecisa; por isso, compensam essa limitação com uma excelente capacidade de identificar o dióxido de carbono (CO₂) liberado pelo corpo humano.

Como produzimos CO₂ o tempo todo - pela respiração e também pelos poros -, para elas somos, antes de tudo, enormes faróis olfativos.

Ao chegarem a algo como dez metros, entram em cena os odores da pele. E, quando estão bem próximas, o calor e a umidade que a pele emite viram os sinais finais, guiando-as para pousar exatamente onde o sangue está mais próximo da superfície.

Microbiota, odores e a “sopa de moléculas”

Em média, liberamos entre 300 e 1.000 compostos cheirosos diferentes, que se combinam num “perfume” corporal único. Nas palavras do entomologista sueco Rickard Ignell, trata-se de “uma sopa de moléculas produzida pela nossa microbiota, mais ou menos apetitosa dependendo do indivíduo”.

As bactérias que vivem na pele consomem nossas secreções e, como resultado, geram um coquetel de moléculas voláteis. Os mosquitos “leem” esse conjunto em poucos milissegundos para encontrar a fonte de sangue mais fácil de acessar.

Há ainda outro elemento que pesa: o 1-octen-3-ol, um composto que aparece na degradação do sebo e é produzido em maior quantidade por mulheres grávidas no segundo trimestre. Os mosquitos são particularmente atraídos por ele; poucos nanogramas já bastam para ativar o sistema nervoso deles e direcionar o voo até a origem dessa emissão.

Saia coberto e sóbrio

Se você gosta de cerveja, a notícia não ajuda: diversos estudos indicam que a bebida pode tornar você mais interessante para o mosquito - de forma indireta, claro. O álcool, no geral, tende a elevar a temperatura corporal, o que facilita a vida desses especialistas em detecção térmica.

Além disso, depois de beber, a respiração costuma acelerar um pouco, aumentando a liberação de CO₂, e a composição dos compostos voláteis da pele também muda. Resultado: seu “perfil” de cheiro fica mais atrativo para o sistema sensorial do adversário.

Não existe, até agora, um consenso científico que confirme que algumas pessoas são para sempre mais atrativas para mosquitos do que outras. É um fenômeno multifatorial, com dezenas de aspectos ainda pouco documentados.

Repelentes e barreiras: o que realmente ajuda contra mosquitos

Mesmo assim, você consegue agir em alguns pontos para se proteger dos ataques: use roupas mais compridas se for ficar muito tempo ao ar livre (mais fácil falar do que fazer, ainda mais com o verão chegando), instale mosquiteiros em casa quando possível e aplique com cuidado repelentes sintéticos em spray devidamente autorizados, como DEET, icaridina ou IR3535.

Se a preferência for por uma alternativa de origem natural, vale buscar o citriodiol, um extrato do óleo essencial de eucalipto-citriodora, também muito eficaz.

Para fechar, dois conselhos práticos: opte por refeições leves nos períodos mais quentes e talvez reduza um pouco a frequência do “levantar o cotovelo”. De todo modo, álcool deve ser consumido com moderação - mas cabe a você decidir se os mosquitos realmente merecem esse sacrifício.

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