A videovigilância impulsionada por inteligência artificial pode estar prestes a virar algo concreto na França. Um senador do partido Horizons apresentou uma proposta de lei para abrir esse caminho.
A hipótese de transformar a videovigilância com IA em prática comum no país ganhou força depois de ter sido utilizada nos Jogos Olímpicos de 2024. Agora, o senador do departamento de Aisne, Pierre-Jean Verzlen (Horizons), quer que essa abordagem deixe de ser apenas uma exceção. Segundo revelou o jornal Le Parisien, ele protocolou um texto para enquadrar a medida em lei.
O legado dos Jogos Olímpicos de 2024 e os limites atuais
Na prática, a proposta pretende reabilitar e enquadrar a chamada videomonitorização algorítmica (VSA). O experimento aplicado nos Jogos Olímpicos foi encerrado em 2025 e, atualmente, qualquer novo uso é proibido - assim como a tecnologia de reconhecimento facial.
Com a iniciativa de Pierre-Jean Verzlen, a intenção é colocar novamente esse tipo de solução “dentro das regras” legais, permitindo o retorno do mecanismo sob um arcabouço específico.
Como funcionaria a VSA com inteligência artificial
A lógica seria usar IA para tornar a VSA mais eficiente no dia a dia. As imagens captadas de forma contínua por câmeras seriam processadas em tempo real por um software de inteligência artificial, com o objetivo de identificar situações consideradas de risco.
Entre os exemplos citados de ocorrências a serem detectadas estão furtos, agressões e incivilidades. Em vez de depender apenas de monitorização humana, o sistema apontaria eventos suspeitos à medida que acontecem.
Custos, software e soberania nacional
Nas páginas do Le Parisien, o senador argumenta que a VSA já é utilizada tanto no exterior - como na Bélgica e no Reino Unido - quanto no setor privado. Para ele, legalizar esse uso seria uma forma de a França não ficar para trás nesse segmento.
Outro ponto destacado é o custo: segundo Pierre-Jean Verzlen, a adoção não exigiria grandes investimentos em hardware, já que muitas das câmeras instaladas recentemente já seriam compatíveis. O desafio central estaria no software, que, na visão dele, deveria ser desenvolvido na França.
O argumento é de soberania nacional: a pergunta colocada é se faz sentido entregar esse tipo de dado a empresas chinesas ou norte-americanas.
Os prefeitos são a favor dessa medida?
A videovigilância com IA, sobretudo em escala municipal, não é um tema novo no debate público. De acordo com um estudo realizado pelo instituto Qorum no fim de 2025 (portanto, antes das eleições municipais de março passado), quase 95% dos prefeitos entrevistados apoiam o uso da tecnologia no próprio município.
Em cidades pequenas, onde gestores locais por vezes se dizem sem recursos diante da insegurança, a VSA é vista como uma forma eficaz de localizar rapidamente delitos que acabam ficando sem punição. Os usos mencionados são bem objetivos: combater descarte irregular de lixo, vandalismo contra património público e princípios de incêndio.
A monitorização via IA - e, de modo mais amplo, o uso de inteligência artificial - tende a tornar-se um tema político fortemente discutido a um ano da eleição presidencial. A VSA demonstrou eficácia durante os Jogos Olímpicos de Paris, mas permanece a dúvida sobre a necessidade do sistema fora de um contexto excepcional. Também surge a questão da segurança dos dados, num momento em que os ataques e invasões digitais se intensificam. E, ainda, até que ponto se quer que as autoridades recolham dados biométricos?
Ao mesmo tempo, a tecnologia poderia ajudar a reduzir incivilidades em municípios que muitas vezes são apanhados de surpresa. É um debate social que está apenas a começar.
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