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# Cratera de Chicxulub: o sistema hidrotermal durou pelo menos oito milhões de anos

Cientista com capacete examina pedra brilhante em plataforma perto do mar com buraco gigante e microscópio.

A gente costuma guardar na memória o asteroide que matou os dinossauros como um único dia horrível - um instante de fogo e devastação que encerrou uma era. Em geral, a narrativa termina ali, no fim.

Só que, por baixo dos destroços, algo continuou. Dentro da cratera soterrada existe rocha que se formou devagar, ao longo de um período comprido o bastante para redefinir o que os cientistas achavam possível.

Calor sob a cratera de Chicxulub

O choque escavou uma cratera de cerca de 200 km de diâmetro no que hoje é a Península de Yucatán, no México - a marca que os geólogos chamam de cratera de Chicxulub. O material lançado pelo impacto escureceu o céu e impulsionou a extinção em massa registrada por pesquisas desde então.

Esse calor todo, aprisionado ao encontrar água subterrânea e água do mar infiltrando-se pela rocha fraturada, deu origem a um sistema hidrotermal sob o piso da cratera.

No subsolo, fluidos quentes circularam pelas rachaduras por eras, e, ao esfriar, deixaram para trás minerais característicos.

Decifrar esses minerais foi a tarefa da Dra. Annemarie Pickersgill, pesquisadora da Universidade de Glasgow, que há anos trabalha com a cratera. As argilas e os cristais alterados nas rochas registram um sistema de fluidos que seguiu ativo muito depois do impacto.

Perfurando o anel de pico

Para alcançar esse registro, foi preciso perfurar. Em 2016, uma equipa internacional perfurou o anel de pico da cratera - a faixa de rocha que se eleva no centro de um grande impacto - e recuperou testemunhos a mais de 610 m abaixo do fundo do mar.

Nesses testemunhos havia rocha intensamente alterada, “cozida” e retrabalhada quimicamente por fluidos que já não existem. Entre os materiais apareceu um feldspato rico em potássio, mineral que cristalizou diretamente a partir da água quente enquanto o sistema estava em funcionamento.

Esse feldspato revelou-se o achado-chave. Como ele só se forma enquanto fluidos quentes atravessam a rocha, a idade de cada cristal fixa um momento em que a água aquecida provavelmente ainda estava a fluir.

A leitura do relógio mineral

Para extrair datas desses cristais, o grupo aplicou a datação argônio-argônio. O método funciona porque uma pequena fração de potássio radioativo no mineral, com o tempo, transforma-se em gás argônio e permanece preso ali: quanto mais argônio, mais antigo é o cristal.

As idades do feldspato não convergiram para um único ponto no tempo. Em vez disso, formaram uma faixa extensa: do impacto, há 66 milhões de anos, até aproximadamente 58 milhões de anos.

Até aqui, a duração do sistema subterrâneo de água quente da cratera apoiava-se em modelos de computador e em indícios indiretos, sem medições cristal por cristal. Essa distribuição de idades é o cerne da descoberta.

Quatro vezes mais tempo

Trabalhos anteriores indicavam que o sistema teria durado por volta de dois milhões de anos. Esses valores vinham de modelos computacionais desenvolvidos no início dos anos 2000, e até os próprios autores os classificavam como conservadores.

A nova estimativa leva o mínimo para pelo menos oito milhões de anos - quatro vezes mais - e aponta o sistema desse tipo mais duradouro já documentado na Terra. Os cristais mais jovens ainda se formavam quando a superfície já tinha arrefecido e o cenário lá em cima parecia silencioso.

Como verificação, a equipa refez os modelos de computador usando medições reais das rochas recuperadas. A simulação que melhor se ajustou indicou que os fluidos só pararam perto da marca de oito milhões de anos - exatamente o que os cristais já tinham mostrado.

Uma janela para a vida

O tempo é essencial quando a pergunta é se algo poderia viver ali. Calor e água, circulando por rocha fraturada e protegida, criam um refúgio do tipo que micróbios amantes do calor conseguem ocupar.

“Onde quer que na Terra você encontre água morna a fluir, você encontra vida”, disse Pickersgill.

Na Terra atual, esses micróbios concentram-se em torno de fontes hidrotermais no fundo do mar e em nascentes vulcânicas, obtendo energia da química em vez de luz solar - um cenário discutido há muito tempo numa revisão sobre como a vida começou.

Quanto mais tempo esse calor se mantém, mais oportunidade a química tem para o trabalho lento de construir vida - e para organismos iniciais se espalharem. Evidência direta de micróbios dentro de uma cratera de impacto é rara, mas existe.

Pistas para outros mundos

A Terra apagou quase todos os vestígios dos grandes impactos que castigaram o Sistema Solar jovem, reciclando essa crosta antiga de volta para o interior do planeta com o passar do tempo. Ficou, em grande parte, uma página em branco. A cratera bem preservada serve como substituta desses cataclismos perdidos.

Marte surge como o próximo candidato óbvio. O planeta conservou incontáveis crateras, muitas escavadas quando ainda havia água a correr na superfície. Algumas podem ter abrigado sistemas ocultos próprios, muito parecidos com aquele que um estudo recente identificou numa cratera mais próxima de casa.

Abrigos subterrâneos assim podem sobreviver por mais tempo do que as condições brutais na superfície. Por isso, crateras antigas tornam-se alvos atraentes para missões que procuram sinais de vida passada. Pickersgill destacou mundos sem a atmosfera espessa da Terra, onde impactos como esses se acumularam repetidamente.

O que muda daqui em diante

É isso que as rochas agora deixam claro: o sistema subterrâneo de água quente que se seguiu ao impacto que matou os dinossauros persistiu por pelo menos oito milhões de anos, quatro vezes acima da estimativa antiga, e por mais tempo do que qualquer outro sistema impulsionado por impacto já registado.

Ao medir essa duração diretamente - em vez de inferir apenas a partir de modelos -, redefine-se por quanto tempo os cientistas podem esperar que um lugar assim permaneça habitável após um grande impacto. Isso altera tanto onde procurar vida para além da Terra quanto a forma de interpretar crateras noutros mundos.

Há ainda sinais de que o sistema pode ter ido além. Amostras antigas, recolhidas há décadas num furo de sondagem a quilómetros de distância, apresentam idades ainda mais jovens, sugerindo a possibilidade de o calor ter persistido mais perto de 16 milhões de anos - uma linha de investigação que a equipa considera valer a pena perseguir em seguida.

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