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Decathlon enfrenta greve nacional inédita em 6 de junho na França

Grupo de pessoas em protesto segurando cartazes coloridos e assoprando apitos em frente a prédio.

Pela primeira vez desde que existe, a Decathlon vai encarar uma greve de alcance nacional. Neste sábado, 6 de junho de 2026, os 324 pontos de venda na França são atingidos por um chamado à mobilização conduzido em bloco por CFDT, CFTC, CGT, CFE-CGC e Unsa.

O caráter inédito do movimento está justamente na unidade: todas as organizações sindicais da Decathlon decidiram, juntas, convocar os funcionários a se mobilizarem neste sábado, 6 de junho. CFDT, CFTC, CGT, CFE-CGC e Unsa - cinco entidades que, em 50 anos de história da marca, nunca tinham se alinhado na mesma disputa - assinam um panfleto comum e conclamam a paralisação em toda a rede francesa.

A mobilização não fica restrita às lojas: os centros de distribuição do grupo também devem ser afetados na segunda-feira, 8 de junho.

Decathlon: 910 milhões de euros de lucro, 4.800 no SMIC

O estopim da greve é, acima de tudo, financeiro. Em 2025, a Decathlon registrou lucro líquido de 910 milhões de euros, um aumento de 16%, com faturamento chegando perto de 17 bilhões. Paralelamente, a direção decidiu distribuir 605 milhões de euros em dividendos aos seus 1.000 acionistas (quase dois terços do lucro líquido), ante 412 milhões no ano anterior.

Essa escolha de distribuição incomoda ainda mais porque, na base, a dinâmica salarial foi na direção oposta. Tradicionalmente, na Decathlon, o reajuste anual do salário mínimo francês (SMIC) era repassado proporcionalmente a toda a tabela salarial para preservar o poder de compra de todos. Pelo segundo ano seguido, a direção se recusou a estender essa revalorização. O efeito é direto: a rede passou de 3.000 para 4.800 funcionários remunerados no SMIC.

As condições de trabalho também concentraram as tensões. Em 24 meses, as lojas somaram a eliminação de 2.000 postos equivalentes a tempo integral, mesmo com a atividade permanecendo muito forte. A rotatividade anual está em 27% e, de acordo com a CFTC, 40% dos gestores dizem estar hoje em situação de burnout. Muitos acabam trabalhando de casa aos domingos ou nos dias de folga. Os sindicatos citam ainda aumento de carga de trabalho, equipes insuficientes em diversas lojas e centros de distribuição, além de uma pressão cada vez maior para atingir metas comerciais.

Sua loja vai abrir neste sábado?

É a dúvida de milhões de clientes. Na prática, não dá para ter certeza com antecedência, por um motivo específico: a mobilização foi desenhada para ser flexível. Quatro formatos de ação foram colocados à disposição dos funcionários: paralisação em casa, paralisação tradicional em frente à loja, “paralisação silenciosa” com a retirada do colete azul, ou simplesmente o uso de um panfleto sindical preso ao uniforme para quem não pode se dar ao luxo de perder um dia de salário.

Na prática, isso quer dizer que algumas lojas podem fechar totalmente, outras podem abrir com equipes reduzidas, e outras ainda operar normalmente. Para descobrir, o caminho é ligar para a sua unidade hoje de manhã ou consultar a ficha no Google Maps, onde os horários excepcionais costumam ser atualizados.

O que achamos

O fato de cinco sindicatos se alinharem pela primeira vez em 50 anos de existência da rede acende um alerta sobre como anda o diálogo social dentro da empresa. O dado que deveria chamar a atenção da direção não é o percentual de adesão à greve neste sábado, mas sim o salto de 60% no número de trabalhadores no SMIC em poucos meses, numa companhia que divulga margens recordes.

O episódio da Decathlon lembra o caso da Samsung. Do outro lado do mundo, a empresa sul-coreana acabou de mostrar que um desfecho diferente pode ocorrer. No começo de maio, sindicatos ameaçavam uma greve de 18 dias para exigir aumento, enquanto a Samsung Electronics tinha multiplicado por seis o lucro líquido em um ano, chegando a 27 bilhões de euros. A paralisação foi suspensa no limite, em 20 de maio, após negociações finais com mediação do ministro do Trabalho. O acordo fechado é histórico: cada um dos 78.000 empregados da divisão de semicondutores deve receber cerca de 338.000 dólares ao longo de dez anos, na forma de ações, além de um reajuste salarial de 6,2%. Ainda assim, o acerto gera tensões internas, porque funcionários de outras divisões da Samsung não vão receber o benefício, ou receberão muito pouco.

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