Na prática, a Nova Zelândia já começou a desenhar como será seu poder naval nas próximas décadas. A Marinha do país deu início a uma das escolhas mais importantes para seu futuro: substituir as fragatas da classe Anzac, que estão perto do fim da vida útil e hoje formam a espinha dorsal da capacidade de combate de superfície.
De acordo com o que confirmou o ministro da Defesa neozelandês, Chris Penk, o tema foi incorporado ao programa Maritime Fleet Renewal. A prioridade, neste momento, é aprofundar conversas com a Marinha Real Australiana e a Marinha Real britânica para comparar dois projetos já bem encaminhados em forças aliadas: a fragata japonesa da classe Mogami - escolhida pela Austrália - e a britânica Type 31, apresentada pelo Reino Unido como alternativa para Wellington.
Para a Nova Zelândia, essa decisão tem um peso especial por se tratar de uma nação insular e pela dimensão de sua Zona Econômica Exclusiva, uma das maiores do planeta. O comunicado oficial reforçou que a segurança marítima sustenta a prosperidade econômica do país, sua conexão com o exterior e a maior parte do comércio internacional; por isso, a futura frota precisará atender a um leque amplo de tarefas: combate naval, patrulha de segurança, transporte marítimo, operações hidrográficas, mergulho, apoio a outras agências do Estado e resposta a desastres naturais ou crises humanitárias.
O pano de fundo é claro: boa parte dos navios atuais da Marinha Real da Nova Zelândia chegará ao fim da vida útil em meados da década de 2030, incluindo as fragatas HMNZS Te Kaha (F77) e HMNZS Te Mana (F111). As duas são da classe Anzac, originalmente fruto de um programa conjunto entre Austrália e Nova Zelândia baseado no projeto alemão MEKO 200, com cerca de 3.600 toneladas de deslocamento a plena carga, 118 metros de comprimento, propulsão CODOG, velocidade por volta de 27 nós e capacidade de operar helicópteros embarcados.
Essa trajetória compartilhada com a Austrália é, justamente, um dos pontos centrais da avaliação atual. Canberra já definiu o rumo e avançou com o Japão para incorporar até 11 fragatas Mogami melhoradas, destinadas a substituir suas próprias Anzac. Conforme informado em abril de 2026, as três primeiras unidades serão construídas pela Mitsubishi Heavy Industries no Japão, com a primeira entrega prevista para 2029, enquanto as oito restantes devem ser produzidas na Austrália Ocidental. A escolha australiana foi descrita como a aquisição mais rápida de um navio de superfície na história recente da Marinha Real Australiana.
A opção japonesa que chama a atenção de Wellington, porém, não é exatamente a Mogami original, e sim uma evolução conhecida como New FFM ou Mogami melhorada. Essa versão traz deslocamento padrão de aproximadamente 4.880 toneladas, cerca de 6.200 toneladas a plena carga, 142 metros de comprimento, 17 metros de boca, velocidade acima de 30 nós e uma tripulação reduzida, de cerca de 90 militares. Entre os sistemas citados como mais relevantes estão um lançador vertical Mk 41 com 32 células, mísseis antinavio, SeaRAM, torpedos leves e capacidade de operar helicópteros, mantendo a ênfase em automação e baixa dotação que marca o conceito japonês.
Para a Nova Zelândia, a Mogami tem uma vantagem quase imediata: aproximar-se do futuro padrão australiano. Isso tende a diminuir riscos de integração e facilita o compartilhamento de treinamento, doutrina, suporte logístico, peças sobressalentes e experiência de operação no Pacífico. No campo político, também reforça a convergência entre Wellington, Canberra e Tóquio em um Indo-Pacífico no qual o Japão busca atuar de forma mais ativa como fornecedor de defesa para parceiros estratégicos, após décadas de restrições severas às exportações militares.
A alternativa britânica, por outro lado, oferece um apelo de natureza diferente. A Type 31, que está sendo construída para a Marinha Real britânica como classe Inspiration, deriva do projeto dinamarquês Iver Huitfeldt e foi pensada como uma fragata modular, com custo relativo menor e grande flexibilidade para missões de presença, escolta, patrulha oceânica e segurança marítima.
Também pesa a favor da Type 31 a força histórica, doutrinária e institucional do vínculo entre a Nova Zelândia e o Reino Unido. A Marinha Real neozelandesa tem raízes profundas no modelo naval britânico, e uma eventual escolha dessa fragata ajudaria a manter altos níveis de interoperabilidade com a Marinha Real britânica - tanto em treinamento quanto em procedimentos, sustentação e desdobramentos combinados. Além disso, o projeto britânico já ganhou tração internacional, com variantes derivadas selecionadas por países como Polônia e Indonésia, o que reforça seu perfil exportador.
Ainda assim, a decisão não será apenas uma comparação técnica. A Nova Zelândia precisa de uma frota moderna, mas que também seja sustentável em termos de pessoal, custos ao longo do ciclo de vida e infraestrutura.
Por enquanto, o governo neozelandês não anunciou uma decisão final. A informação oficial indica que, a partir do Ministério da Defesa, a análise seguirá avançando e que o assessoramento ao Gabinete deverá ficar pronto antes do fim de 2027. Até lá, Wellington terá de manter a operatividade das fragatas atuais, enquanto pondera se acompanha o salto australiano rumo à Mogami japonesa ou se aposta na continuidade política e industrial do vínculo com o Reino Unido por meio da Type 31.
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