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Valentino Rossi: o fenômeno que viciou o mundo na MotoGP

Mulher falando no microfone com homem sorridente ao fundo, ambos em ambiente descontraído.

O enigma chamado Valentino Rossi

Valentino Rossi. Um fenômeno que, quase sozinho, transformou a MotoGP num vício global - com nove títulos mundiais e um estatuto de semideus de brinde. Nós passámos a ser tão dependentes dele quanto ele sempre foi de correr de moto, e a verdade é que nunca parecia suficiente. Só que agora ele decidiu encerrar a carreira sem precedentes sobre duas rodas. Então por que essa obsessão toda? O que é que o torna diferente? Ele ganha uma pulseira para o clube exclusivo do talento quase divino, ao lado de Hunt, Sheene, Pelé, Woods, Jordan e Ali? Essas listas são sempre subjetivas, mas eu digo que sim.

Todo mundo associa Valentino às vitórias na pista e às suas palhaçadas fora dela. Mas o que, de facto, sabemos sobre o megastar italiano de 42 anos que jamais foi de “cortejar” a imprensa e sempre preferiu deixar o desempenho falar? Para situar: não vou fingir que sou o melhor amigo dele, porém eu o entrevisto há 25 anos - um vínculo construído com respeito e, aqui e ali, alguma festa pós-corrida.

Muita gente chama isso de “relação especial”; na prática, eu só passei mais de duas décadas a importuná-lo com perguntas. Conheço-o o suficiente para, logo depois de ele ganhar um título mundial, ter limpado o rosto dele com a minha mão (eu não queria que ele aparecesse com ranho na bochecha durante a entrevista) e também para já ter ido de garupa com ele pelas ruas de Londres - mas provavelmente não o bastante para ser considerado amigo.

  • Fotografia: Getty e Gold & Goose

Mesmo assim, depois de todo esse tempo, o Vale continua a ser um enigma para mim. Ele mistura, de um lado, um showman de tirar o fôlego e, de outro, aquele rapaz um pouco desajeitado “da casa ao lado”: sempre cativante, sempre concentrado. É extremamente fiel ao seu círculo íntimo de amigos, que ele conhece desde criança; a maioria ainda trabalha ao seu lado, e todos o protegem com a mesma ferocidade. Fora da moto, é alguém ponderado e compassivo; com as cores de corrida, pode ser implacável. Essa combinação é forte.

E, ainda assim, ele tem uma capacidade rara de marcar muito mais gente do que apenas os próximos. No ano passado, na Áustria, quando uma moto - já sem controlo - virou praticamente um míssil voador e passou a centímetros de o atingir, a reação foi de horror. A corrida recomeçou e tudo seguiu “normal”, mas depois o ambiente nos bastidores ficou em choque ao pensar no quanto o desfecho daquele dia poderia ter sido completamente diferente.

A simpatia, aliás, deve vir no ADN. O Vale cresceu rodeado por corridas. O pai, Graziano, era uma figuraça e um nome forte dos GP no fim dos anos 1970 - e amigo do nosso Bazza (Sheene). O senhor Rossi costumava levar a sua companheira, Christina, para passear pela cidade; dá para imaginar de onde o rapaz pode ter tirado inspiração para as celebrações futuras (hoje famosas). Eu conheço o pai dele e, no começo dos meus tempos na Sky, foi ele quem me ajudou a conseguir falar com o filho quando eu precisava de entrevistas. É carinhosamente maluco.

“Por mais que ele conseguisse fazer papel de palhaço, não se enganem: ele não é bobo.”

E se o pai é tão expansivo quanto o filho, a linda mãe do Valentino, Stefania, sempre preferiu uma vida mais reservada e comedida. Ela queria que o rapaz virasse engenheiro. A vida, claro, tinha outros planos para o primogénito, mas a família é o centro de tudo para ela - e eles nunca deixam passar em branco o aniversário do Vale, o seu filho “Peter Pan”, que manteve uma carreira de elite acesa por 26 anos, bem mais do que qualquer outra pessoa no desporto motorizado.

Tavullia, VR46 e o coração sempre em casa

Essa trajetória deu alegria a milhões, mas o coração sempre esteve em casa. Il Dottore - O Doutor, como passou a ser conhecido - foi criado em Tavullia, uma vila de cerca de 41 km² na província de Pesaro e Urbino. Lá, eles veneram o filho ilustre cujo número de corrida é 46. O limite de velocidade é 46 km/h. Visitantes enchem a loja do fã-clube da VR46. Dividem uma pizza no restaurante do Vale e passam na torre do relógio, onde tocam o sino a cada vitória dele. Faz tempo que anda mais quieto, mas houve uma época em que a cidade festejava tanto que esqueciam de desligar - e ele ficou a soar, orgulhoso, a noite inteira.

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Só que, no começo, não foram as motos. O “Piloto”, como ele sempre gostou de se chamar (numa brincadeira com a maneira como os japoneses se referem aos seus competidores), começou mesmo foi a correr de kart. O caminho até a F1 parecia caro demais para a família e, quando a febre das minimotos tomou conta da Itália, ele subiu em duas rodas - e a paixão apareceu.

Para ser honesto, a relação dele com as motos parece mais um caso de amor - como Clapton e as suas guitarras. No início de cada temporada, Valentino coloca pessoalmente adesivos desenhados por ele, com os seus animais de estimação e patrocinadores, exatamente onde quer na moto. À noite, conversa com as suas máquinas adoradas e, uma vez, chegou até a escrever uma carta de amor para a sua Yamaha M1, pelos campeonatos que ganharam juntos. Ele é uma raridade.

Espetáculo, números e a arte de mudar o jogo na MotoGP

E é bem provável que as encenações tenham ajudado a construir a lenda tanto quanto a genialidade. No GP da Grã-Bretanha de 1997, por causa da proximidade com a Floresta de Sherwood, o “RossiFume” apareceu no pódio vestido de Robin Hood, com direito a arco e flecha. Ali já se via um entertainer nato: não apenas um talento absurdo na pista, mas um protagonista seguro de si, com gosto por criar teatro - e foi assim que Osvaldo, o frango, cabines de casa de banho, asas de anjo, um strike no boliche, e até uma multa por excesso de velocidade viraram celebrações inesquecíveis.

Mas, por mais que ele soubesse brincar, não confundam: ele nunca foi tolo. Ele jamais admitiu abertamente que, para deixar as corridas mais emocionantes, por vezes liderava, recuava e depois voltava para ganhar, mas... talvez tenha feito isso. Também é um empresário esperto: fundou a VR46 Academy e comanda um império de produtos licenciados muito bem-sucedido. Os números dizem tudo, sem rodeios: nove títulos mundiais de Grand Prix, sete na Classe Principal, 115 vitórias, 235 pódios (até agora), 65 pole positions e - a partir do GP da Grã-Bretanha deste ano - 366 corridas. E vale lembrar: na sua carreira na Classe Principal, ele conquistou o título numa moto 500cc de uma equipa independente, antes de a categoria entrar de vez na era dos motores quatro tempos.

Falou-se (com razão) sobre a troca da Honda de fábrica, então dominante e campeã, pela Yamaha de fábrica, que vivia um mau momento, para a temporada de 2004. Muita gente achou que ele tinha enlouquecido e que o ego tinha falado mais alto. O que ele queria, na verdade, era provar que o piloto podia ser a diferença - e provou.

A vitória veio depois de um duelo com Biaggi na primeira corrida, em Welkom, na África do Sul. Aquelas imagens do Rossi, cabeça baixa, sentado ao lado da moto, são impossíveis de esquecer. Muitos juraram que ele chorava de incredulidade; na realidade, ele estava a rir. Foi um golpe de mestre de um talento mestre - e um dos momentos que ele mais estima. Para mim, continua a ser o maior feito dele. Uma coisa é certa: ao longo das décadas, o Homem de Domingo foi um maestro de máquina e de jogo mental.

Só que ficar preso às estatísticas é ignorar o efeito Rossi mais subtil. Os recordes dele podem - e talvez venham - a ser quebrados; já o legado dificilmente será ultrapassado. Pouquíssimos transcendem o desporto como ele transcendeu. Cada prova acabou por virar “corrida em casa”, tamanha é a popularidade e o tamanho da base de fãs no mundo inteiro. A obsessão passa muito para além das fronteiras do Tricolore - e isso ficou cristalino em 2015, quando Lord March me ligou, eufórico, a dizer: “Finalmente consegui falar com o Valentino, ele vai a Goodwood! Ele vai celebrar o 60.º aniversário da Yamaha e eu quero que ele faça uma entrevista na varanda com vista para a propriedade; pode apresentar?”

Foi um dia inesquecível. O Rossi entrou pilotando pela propriedade e foi até a casa. A imagem era espetacular: um Vale radiante numa Yamaha com pintura retrô. O meu papel era aquecer o público e fazer aquela grande introdução na varanda enquanto ele subia as escadas. Estava lotado; não se via um fio de relva. A abertura alongou-se um pouco, a multidão foi ficando cada vez mais elétrica e, enfim, o Vale apareceu. Eu praticamente fiz um arco para trás de tanto gritar o nome dele; ele ria, e todo mundo enlouqueceu quando ele finalmente pisou no terraço. Ele estava no topo do mundo, e a conversa acompanhou o humor. Depois, ele me abraçou para dizer o quanto tinha adorado; Lord March fez o mesmo. Eu nunca esqueci.

Talvez eu tenha pintado um cenário em arco-íris. O Valentino também errou. Os anos de Ducati foram um ponto baixo; houve lesões, e nos últimos tempos faltaram resultados; e, mesmo ele andando mais rápido agora, talvez o Pai Tempo tenha apanhado o homem no vácuo. Ainda assim, que viagem foi essa. Ele inspirou uma geração inteira de pilotos e agora muda o foco das corridas para quatro rodas. 24 Horas de Le Mans, quem sabe?

Nunca diga nunca... ainda tem muito por vir do Papa Rossi.

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