Mesmo que você faça tudo para ter uma noite impecável, é bem comum que o seu cérebro resolva puxar você para fora do sono justamente na pior hora. Por que isso acontece?
Você pode estar com o melhor colchão do mundo e ir para a cama em um horário super razoável e, ainda assim, acabar despertando sempre no mesmo ponto da madrugada. Às vezes é 3 h, às vezes 4 h - e lá está você, encarando o teto sem saber o que fazer até conseguir dormir de novo, enquanto a mente passa a rebobinar lembranças.
Pode ser uma situação constrangedora que você viveu em 2020. Pode ser uma reunião de trabalho desagradável que você revive pensando: “eu deveria ter respondido isso!”. Ou até aquela conversa sem graça com o vizinho do andar sobre o tempo.
Vale respirar: isso não significa, necessariamente, que você seja uma pessoa com insónia ou que esteja ansiosa. Você só é humano - e o seu cérebro não está tentando sabotar você; ele está funcionando como deveria, mesmo que você preferisse que ele entrasse um pouco em modo de espera.
Por que seu cérebro faz hora extra à noite?
Ciclos do sono e o despertar no fim de cada etapa
Como você provavelmente já sabe, o sono acontece em ciclos de cerca de 90 a 110 minutos, repetidos quatro a seis vezes por noite. Cada ciclo inclui estágios diferentes: sono leve, sono profundo e sono REM (o “sono paradoxal”).
No término de cada ciclo, o sono fica naturalmente mais superficial. Quase sempre há um microdespertar - só que, na maioria das vezes, você volta a dormir tão rápido que não lembra de nada no dia seguinte.
Por que 3 h ou 4 h parecem mais “fáceis” de acordar
O sono profundo tende a se concentrar principalmente na primeira metade da noite. Conforme as horas avançam, ele vai dando lugar, pouco a pouco, ao sono REM, que é mais leve e mais fácil de ser interrompido.
Por isso, perto do fim da noite, você passa mais tempo nesse estado intermediário, entre dormir e acordar. É também por isso que um despertar às 3 h pode acontecer com muito mais facilidade do que às 23 h: um estímulo pequeno já basta para arrancar você do sono de vez.
O cortisol e a mente acelerada de madrugada
Nessa fase, o seu corpo já começa a preparar o despertar. No fim da noite, a produção de cortisol (hormona ligada à vigília e ao stress) começa a aumentar - o que ajuda você a conseguir levantar da cama às 7 h sem a energia de uma ostra.
Se você der azar e acordar justamente quando o corpo está elevando esse nível, o cérebro pode entrar em modo turbo, ruminando detalhes totalmente irrelevantes, porque o cortisol também deixa a mente mais alerta e reativa.
Silêncio, espaço mental e o efeito “quanto mais tento, pior fica”
Além disso, às 3 h ou 4 h da manhã, a sua mente fica “sozinha” com ela mesma. Durante o dia, pensamentos preocupantes ou ansiosos acabam sendo cortados por distrações e estímulos ao redor, que ocupam o espaço mental.
À noite, esse espaço fica vazio - e as ideias entram sem resistência. Esse tipo de despertar tem uma característica própria: ele cresce com a atenção que você dá a ele. Quanto mais você tenta forçar o sono a voltar, mais desperto pode acabar ficando.
O que fazer quando acordar no meio da noite
A melhor atitude, nesse cenário, é simples: não olhar as horas e, principalmente, não pegar o telemóvel.
Também vale rever os hábitos do fim do dia. O álcool pode até facilitar pegar no sono, mas atrapalha o sono na segunda metade da noite, justamente quando você está mais vulnerável a despertar. Já a cafeína pode interferir no sono por até seis horas depois de consumida.
Isso significa que aquele copo de 125 ml (12,5 cl) de Bordeaux no jantar ou o espresso tomado às 16 h para dar o último empurrão antes de terminar o dia também pode contribuir para esses pequenos despertares noturnos.
Ainda assim, não espere noites “de pedra” só porque você decide trocar tudo por água mineral e chá a partir de amanhã: pode haver alguma melhora, mas o seu cérebro ainda tende a reaparecer quando você menos precisa.
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